Cat e Antony, sedução instantânea

Ela tinge blues de soul; já o pianista fez platéia levitar com revisão de I Will Survive, de Gloria Gaynor, e Candy Says, do Velvet

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Como se fosse uma gata em teto de zinco quente, Cat Power anda pelo palco inventando gestos, inventando desconforto acústico, inventando uma dança que conspira contra a música (uma vai para lá, outra para cá). Nunca ninguém terá visto alguém saudar a platéia assim, semi-inclinado, com a perna para trás, a cabeça grudada no braço e o braço estendido para cima, num aceno desajeitado de toureiro. Não perca também o especial sobre as atrações do TIM De sapatos brancos, jeans muito justo e camisa larga com camiseta por baixo, ela abriu a noite com Don''''t Explain, canção que Billie Holiday imortalizou. Cat Power não parece ser a dona daquela voz imensa que enche o Auditório do Ibirapuera - e ainda assim, Chan Marshall, seu nome real, reclama o tempo todo do som, colocando os ouvidos nas caixas de som de retorno, fazendo as mãos nos ouvidos em concha para escutar a ambiência do som entre o público, apontando o microfone para o técnico invisível e pedindo com o dedo para cima para ele aumentar o som. Um João Gilberto de franja e rabo-de-cavalo (e bonitaça). Menina inquieta, palhaça, fez micagem enquanto a voz de Zuza Homem de Melo a anunciava nos alto-falantes, fingindo uma dublagem do venerável crítico. Sua voz falhava em algum ponto? É possível, mas sua arte de intérprete é muito maior do que qualquer gap técnico. Tomava uns goles de um líquido estranho, apertava a garganta com os dedos em pinça - talvez só a recente passagem de Joanna Newsom pela cidade possa se igualar à experiência de ouvir essa moça inquieta. Cat Power cantou músicas que são amplamente conhecidas, mas que ninguém reconhece de imediato porque elas as seqüestra para si, como Lost Someone (James Brown), Silver Stallion (Lee Clayton), Ramblin'''' Woman (Hank Williams). Ou então, coisas do tempo em que, como ela disse, era apenas uma pirralha, como Lord Help the Poor and Needy, da obscura cantora de blues Jessie Mae Hemphill. Depois, os músicos vão saindo do palco um a um, primeiro o guitarrista, o baixista, depois o tecladista, e finalmente ela se apresenta (''''Eu sou Chan'''') e também sai, e fica só o baterista. Mas volta imediatamente com a banda (que baterista, esse Jim White, da banda Dirty Three!) para dois bis apressados: Lived in Bars e I''''ve Been Loving You (de Otis Redding). Depois, relaxa e brinca. Amassa uma folha de papel com o repertório do seu show e virou de costas, jogando-a para os fãs como um buquê de noiva. Antony chegou com vontade de bater papo. Depois de uma queda na iluminação de palco, ele retomou a canção que tocava, My Lady Story, do início. ''''Estou um pouco desorientado. Deve ser por causa de todos esses garotos brasileiros.'''' Antony fez um longo discurso sobre a sabedoria das mulheres maduras, conclamando todas a um grande golpe de Estado planetário. ''''Digam para suas mães concorrerem para presidente. Implorem a elas. Não vejo razão para as coisas continuarem assim por mais um século.'''' ''''Vamos tomar nosso poder de volta'''', instou Antony, colocando-se oportunisticamente ao lado das mulheres maduras sábias. Logo a seguir, zombou do próprio delírio: ''''Onde eu estou? Que música a gente ia tocar?'''' A seguir, vieram duas covers magníficas: Candy Says (composta por Lou Reed para o Velvet Underground em 1969) e I Will Survive (hino gay de Gloria Gaynor). Essas canções nunca mais serão as mesmas depois de reprocessadas pela voz de Antony. Quando ele cantava I Fell in Love With a Dead Boy (''''Você é um garoto ou você é uma garota?''''), o baixista ficava na escuridão, em frente ao piano, esperando seus lábios se mexerem para acompanhar nas cordas, como se lesse uma partitura. Derretia até o coração mais pedregoso com as maravilhas melódicas de sua voz em You Are My Sister e Twilight. Andrógino e desbocado, quase a ponto de parecer ''''disgusting'''' (como ele mesmo ressaltava), Antony não é aquele astro dócil. Quando os fãs pedem suas canções, ele faz um gesto de enfado. ''''Oh, esperem um minuto... Grato por conhecerem minhas músicas'''', ironiza. Cat Power é singular ao escavar um repertório quase extinto, injetando alguma sujeira no blues, tingindo tudo de soul com sua voz rouca (talvez só Janis Joplin tenha ido tão longe nessa ousadia). Antony cria paisagens sonoras de um território inexistente, cria pinturas, doma silêncios com sua voz de anjo. Ambos são artistas de uma outra dimensão: enquanto eles existirem, haverá esperança para a humanidade. Tim Tim por Tim Tim PÂNICO NO AR - Uma greve de funcionários da Air France quase arruína a primeira noite de jazz do TIM Festival. A cantora Lisa Ekdahl e os quartetos de Stefano di Battista e Sylvain Luc, atrações de ontem no Auditório Ibirapuera, passaram um dia inteiro no aeroporto de Paris à espera do avião que os traria ao Brasil. LOUCOS POR SET LIST - Depois que Cat Power liberou cópias do set list (roteiro de canções) para os fãs, os mais afoitos correram para o palco no fim da apresentação de Antony and the Johnsons para garantir o souvenir. Acontece que cada instrumentista tinha assinalado nas folhas o tom que deveria entrar em cada tema, o que deixou a produção atônita. OLD FASHIONED - O modelito retrô de Cat Power gerou comentários dos modernetes, não apenas pela combinação franja e rabo-de-cavalo. Além de ressuscitar o velho ''''camisão'''', ela ainda envergava um medonho par de sapatos brancos. Os defensores diziam que ela, sendo moderna, pode tudo. Mas bastava soltar a voz, fazer graça ou apenas sorrir pra superar isso tudo e ficar linda. GAFE - O discurso de Antony Hegarty em defesa de maior presença feminina no poder não reverbera na própria banda. Única mulher entre quatro marmanjos, a violoncelista Julia Kent foi esquecida pelo cantor na hora de apresentar os músicos. Ele se distraiu ao comentar uma indiscrição sobre o violinista Maxim Moston, envolvendo rapazes nus e proporções fálicas. BELDADES NA PLATÉIA - A cantora Marisa Monte, a atriz Vera Zimmerman e a coreógrafa Débora Colker, mulher de Toni Platão, estavam entre os famosos que se extasiaram com Antony and the Johnsons. Marisa qualificou o show da banda como um lindo concerto renascentista. JOÃO GILBERTO - O nome do cantor foi mencionado na platéia em duas situações típicas anteontem. A primeira foi porque Cat Power passou metade do show reclamando do som com a técnica, mais precisamente pela falta de retorno, mas sem as broncas típicas de Tim Maia. Durante o show de Antony, o silêncio absoluto que pairava no Auditório Ibirapuera era digno do gênio bossa-novista. SILÊNCIO - Antony até suspendeu a música num momento para chamar a atenção para o silêncio. Quem já foi ao TIM Festival no Rio duvida que ele tivesse a mesma regalia ontem, quando cantaria para 4 mil pessoas em pé e bebendo à espera de Bjõrk.

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