Castro Alves e o seu tempo

Conferência realizada no Centro Acadêmico Onze de AgostoMeus jovens compatriotas. No cativante ofício que me dirigistes convidando-me a realizar esta conferência sobre Castro Alves, trai-se a feição preeminente do vosso culto pelo poeta."Insigne e extraordinário condoreiro da Bahia", dissestes; e transfigurastes, na fórmula gloriosa de uma consagração, um título não raro irônico, ou derivado dos escrúpulos assombradiços da crítica literária ante o misticismo anômalo do cantor. Por isso mesmo deliberei acompanhar-vos neste rumo; não já por ajustar-me ao vosso nobilíssimo entusiasmo, senão também por facilitar, simplificando-a, a tarefa que me cometestes. Mas observei para logo que a facilidade prefigurada, como efeito do restringimento da tese, era ilusória. (...)Revendo-a, vi o aparecimento, quase inesperado, de uma fase nova na evolução da nossa sociedade.Mas, para isto, fechei os meus olhos modernos e evitei a traiçoeira ilusão da personalidade, que está no projetar-se o nosso critério atual sobre as tendências, por vezes tão outras, das gentes que passaram. (...)Não me delongarei (...). Tenho um fim neste exórdio imperfeito: prevenir-vos que entre o avaliar os homens e as coisas do passado, como objetos artísticos, através do nosso temperamento, e o vê-los, tanto quanto possível, forros das nossas tendências diversas, prefiro o último caso. (...).Ora, o grande poeta, motivo essencial desta reunião, apesar da diminuta distância que no-lo separa, mais do que nenhum outro retrata, na sua nomeada variável, o contraste dos dois critérios históricos (...).De fato, o seu renome é excepcional e curiosíssimo: todos nós o admiramos até aos nossos vinte e poucos anos; depois o esquecemos. Esquecemo-lo, ou repudiamo-lo. É uma glória que intermite no ritmo das gerações sucessivas. (...)É compreensível. A sua idealização exagerada contrasta demais com o quadro da nossa vida. Na esteira infernal, que o Navio Negreiro abriu sobre o abismo, com a singradura fantástica, navegam hoje os pacíficos transatlânticos (...). O recife imenso de pedra (...) está em boa hora submetido aos cálculos e aos desenhos rigorosos de alguns provectos engenheiros a projetarem os melhoramentos do porto de Pernambuco...E a própria cachoeira de Paulo Afonso . . . a cachoeira! o abismo!A briga colossal dos elementos! (...)... a cachoeira de Paulo Afonso em breve terá a sua potência formidável aritmeticamente reduzida a não sei quantos milhões de cavalos vapor; e se transformará em luz para aclarar as cidades (...).Vede, por aí, como se contrabatem os estímulos modernos e aquele misticismo maravilhoso.Além disto, o aparecimento de Castro Alves (...) é, em grande parte, inexplicável. Ele não teve precursores na sua feição predominante. Os grandes pensamentos, sociais ou políticos, que agitou não lhe advieram, como em geral sucede, de longas ou bem acentuadas correntes nos agrupamentos que o rodearam. Pertenciam, plenamente generalizados, à sua época. Nasciam do patrimônio comum das conquistas morais da humanidade. A sua grandeza está nisto: ele os viu antes e melhor do que os seus contemporâneos. Compreende-se que o estranhassem. (...)O que apelidamos grande homem é sempre alguém que tem a ventura de transfigurar a fraqueza individual, compondo-a com as energias misteriosas da humanidade; e não sei de quem, como ele, entre nós, naquele tempo, tanto se identificasse com o sentimento coletivo, revivente, estimulando-o e aformoseando-o. (...)Nem direi de sua influência na geração de moços, seus contemporâneos, que ele transfigurou e dirigiu, libertando-a das prosaicas epopeias caboclas de Magalhães, ou Porto Alegre, do cândido erotismo do Amor e medo, ou do esplêndido romantismo exótico de Álvares de Azevedo e seus epígonos.Prefiro, adstrinto à observação pessoal, apontar-vos a sua influência na minha geração (...).É que Castro Alves não era apenas o batedor avantajado dos pensamentos de seu tempo. Há no seu gênio muita coisa do gênio obscuro da nossa raça. (...)Penso que Castro Alves foi também altamente representativo da nossa raça.Por isso mesmo não teve medida, conforme nos ensinaria qualquer crítico reportado e sabedor... (...)Senhores. Temos mudado muito. Partiu-se nos últimos tempos o sequestro secular, que nos tornava apenas espectadores da civilização. A nossa política exterior conjugou-se com a internacional. (...) Penso que seremos em breve uma componente nova entre as forças cansadas da humanidade.E, se isto suceder, se não for uma miragem esta visão do futuro; se chegarem, de fato, os novos tempos que se anunciam, em que nos tornaremos mais solidários com a evolução geral, dando-lhe o melhor da nossa afetividade originária e a fortaleza vivificante do nosso idealismo nativo - então a modestíssima "herma", alevantada ao mais intrépido dos nossos pioneiros do ideal, germinará estátuas. porque há de avultar, maior, no rejuvenescimento da nossa terra, como avulta nas nossas almas de moços a figura escultural do poeta, que deveis admirar sempre, como hoje o admirais, quaisquer que sejam os vossos desapontamentos futuros inevitáveis, ou os rigorismos da vossa existência prática, porque esta admiração exige que se conservem despertos todos os elementos que, em geral, se nos vão a pouco e pouco amortecendo no fundo do nosso espírito trabalhado; e é quase um meio de enganar-se o tempo e manter-se, longamente, a mocidade. E.C.Nota da Redação: A grafia deste texto foi atualizada segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico. Foram preservadas, no entanto, a pontuação e as construções sintáticas originais do autor, a fim de não alterar seu estilo

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