Cássio Loredano
Cássio Loredano

Cássio Loredano reúne caricaturas em 'Gente de Letras'

O desenhista carioca preferiu selecionar apenas escritores ao editar o livro, que será lançado nesta terça, 13, em São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

11 Novembro 2018 | 06h00

Ao longo de quase meio século de imprensa, o caricaturista carioca Cássio Loredano, 70, desenhou inúmeras personalidades de diferentes áreas, de músicos a cientistas, passando por esportistas e políticos – estes últimos a contragosto, em função do elevado grau de cinismo de alguns deles. Assim, ao fazer um balanço de sua longa carreira, Loredano preferiu reunir apenas escritores em seu livro Gente de Letras, que será lançado nesta terça, 13, às 19h, na livraria Blooks (R. Bela Cintra, 569, 3.º andar). 

Gente de Letras traz na capa um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis (1839-1908), o escritor predileto de Loredano, que desenhou o mais elegante retrato do bruxo de Cosme Velho de que se tem notícia. Essa elegância resulta principalmente da busca de um traço sintético, minimalista, e do uso econômico do preto e branco, como um Saul Steinberg que trocou o humor pela observação dos traços psicológicos de seus personagens. A exemplo daquilo que Baudelaire chamou de “estética caricatural’, nos desenhos de Loredano o artista busca a fusão da forma e da ética – daí ter escolhido os escritores como protagonistas de seu livro, e não os políticos. 

No livro há autores brasileiros e estrangeiros, de Lima Barreto a Marguerite Yourcenar, passando por Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, Freud, James Joyce, Nabokov, Arthur Schnitzler, Georg Trakl e Virginia Woolf. A seleção foi feita sobretudo com material das colaborações de Loredano no Estado, Globo e revistas como Veja. Nos cadernos culturais desses veículos o artista teve a liberdade de desenhar seus tipos prediletos, que ele chama de “animais literários’. Intelectual de sólida formação, Loredano passou pelas redações de alguns dos mais importantes jornais, entre eles o alternativo Opinião, nos anos 1970. Mais tarde, ao morar na Europa, colaborou com o jornal alemão Frankfurter Allgemeine e o francês Libération, entre outros.

O livro não segue a ordem cronológica da publicação das caricaturas, mas a alfabética, pelo sobrenome, cabendo ao escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996) a primazia de ocupar a primeira página após a apresentação do autor. Tipos longilíneos como Abreu – Bernard Shaw, Drummond, D. H. Lawrence e Fernando Pessoa – são representados como figuras hieráticas, giacomettianas, no limiar do desaparecimento. Já os gordinhos, como Marx, Flaubert e Alejo Carpentier passam por uma deformação expressiva que, contudo, não corteja o grotesco – Loredano, sempre discreto, está longe dos exageros de Hogarth e Daumier, a despeito de ser igualmente engraçado.

Um dos curadores da exposição de Millôr Fernandes, em cartaz no Instituto Moreira Salles, outro desenhista estreitamente vinculado à literatura, Loredano já foi associado (pelo editor Pedro Corrêa do Lago) ao grande caricaturista argentino Luis Trimano, cinco anos mais velho que o carioca, pelo modo como acentua essas distorções para revelar traços da personalidade do retratado ou chegar próximo ao perfil psicológico desses escritores. A diferença é que a influência do expressionismo alemão na obra de Trimano é perfeitamente visível. Mas, como seus colegas que colaboraram com o Pasquim (Loredano, inclusive), a referência máxima deles foi mesmo Saul Steinberg, que Pietro Bardi, o criador do Masp, introduziu no Brasil.

Steinberg foi um dos primeiros caricaturistas a desenhar óculos como metáfora do pouco alcance da visão humana. Loredano seguiu a pista e trocou os óculos por olhos exageradamente pantagruélicos, que saem de órbita, como os de Kierkegaard, Euclides da Cunha e Montaigne. Uma observação: o caricaturista brasileiro também recorreu aos óculos distorcidos como Steinberg – e há alguns exemplos no livro, como os retratos de Elias Canetti, Marguerite Duras e Max Frisch. Loredano é uma enciclopédia ambulante da caricatura e da ilustração no Brasil, tendo publicado vários livros sobre os geniais J. Carlos, Nássara e o próprio Trimano. A diferença é que agora ele faz, em Gente de Letras, o próprio dossiê, que já nasce histórico.

 

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