Cassetas, enfim, de bem com a vida

O diretor José Lavigne admite que, desde a morte de Bussunda, só agora o programa volta a ficar tão criativo quanto antes

Keila Jimenez, O Estadao de S.Paulo

25 de agosto de 2009 | 00h00

Se Bussunda estivesse vivo, o diretor José Lavigne ganharia aqui, como em outras tantas reportagens, o status de 9 º casseta. Foi justamente esse "se" que assombrou os humoristas durante muito tempo. Após enfrentar uma longa fase de luto, e pior, sem se dar conta dele, os cassetas voltaram às boas com a criação e a audiência. Completando 500 edições no ar, o programa bateu, nas duas últimas semanas, o seu recorde, retornando à casa dos 30 pontos de ibope. Fruto de uma nova fase, de mais empenho do grupo, justifica Lavigne. Em entrevista ao Estado, o diretor fala pela primeira vez da crise de abstinência de Bussunda e faz mea-culpa. "Apelamos muito para a escatologia nessa época pela falta de criatividade que nos abateu." É só impressão ou vocês agora estão investindo mais em participações especiais?Não, o que aumentou foi a qualidade das participações. Teve um momento em que a gente teve diversas participações: sertanejos, pagodeiros, jogadores, que de alguma forma têm um certo ibope, mas não trazem prestígio. Há algumas semanas, tivemos dona Fernanda Montenegro participando do programa. Não tem a ver com ibope, tem a ver com emprestar prestígio ao programa, com a chancela desse momento. Mas nosso melhor ibope do ano, que foi na casa dos 30 pontos, não tinha convidado. O que fica do programa nesses anos todos são os bons personagens que a gente criou. Quando você pensa em Casseta você não se lembra do convidado. Lembra do seu Creysson, do Marrentinho Carioca... Mas claro que agora a gente também pensa assim: "Você não quer vir não, otário? A Fernanda Montenegro já veio". (risos)Você já levaram muitos "nãos" de gente famosa?Pouca gente não aceitou vir. Roberto Carlos. (risos) No nosso programa ele não vem. Somos fãs dele, mas tem um limite para essas coisas, tanto dele como nosso. Ele é rei, e como todo rei, tem um protocolo. E nós temos o nosso. Se ele viesse, os dois lados teriam de abrir mão de muita coisa. Mas não dá para trazer o Roberto e fazer um programa completamente chapa branca...Casseta e Grande Família são exceções nesses tempos em que a Globo investe tanto em formatos curtos e programas de temporadas. Essa estabilidade é confortável?Temos consciência de que somos um pilar da programação. São 18 anos, mais de 500 edições fazendo uma espécie de revista de humor da programação. Se pensarmos, todos os caras que jogam na seleção brasileira hoje nos assistem desde criança, cresceram vendo Casseta & Planeta. Eles viram a gente fazer a Copa de 94, de 98. Temos segurança absoluta quanto a nosso histórico dentro da Globo e dentro da TV brasileira. Mas isso não garante ninguém. Não somos o museu Casseta & Planeta, somos o Casseta & Planeta Urgente!, em que o próximo programa, usando um clichê, será sempre o programa mais difícil . Não dá para relaxar. Temos uma lojinha muito bem estabelecida, na esquina com a novela das oito, mas não queremos passar o ponto.Como se viraram sem o Bussunda? Agora eu posso analisar melhor o que passou, consigo enxergar melhor as coisas. Meses depois da morte dele, eu ainda não sabia isso que vou te falar. Foi um back enorme. Perdemos a ingenuidade. Até ali, éramos adolescentes, imortais. Não víamos a morte. Não víamos um fim para nada. Não pensávamos: "Estamos há 15 anos no ar e um dia.." Era só um ano depois do outro e assim ia. Não tinha avaliação de futuro, de nada... Aí o Bussunda morreu e tivemos de forçar a barra. Principalmente nos seis meses seguintes, pois tínhamos um programa, tínhamos que acabar o filme. Mas ficamos, de alguma forma, com medo de criar, de arriscar, de colocar um novo personagem no ar. Era um medo, uma dificuldade estranha. Bloqueio, mesmo. Tinha uma dor, um luto que a gente não percebia, mas existia e era gigante. Não paramos o barco, mas ligamos o "Depois a gente pensa nisso!" Não dava para substituir os personagens feitos por ele?A maioria, não. Perdemos o Massaranduba, o Tabajara Futebol Clube, que não existe sem o Marrentinho Carioca. Perdemos patrimônio artístico. Demoramos para fazer o Ronalducho e o Lula de novo, e não é a mesma coisa. Apelamos muito para a escatologia nessa época por conta de falta de ideias. Pode notar: quando o Casseta está muito escatológico é que rolou preguiça. A escatologia é nosso automático ligado, sem pensar muito, funcionamos assim. Nessa fase nossa produção caiu bastante. Naquela época, todo mundo buscou um escape do Casseta em outros projetos. Só agora eu vejo isso. Quando essa dor foi passando, voltamos a criar e a coisa voltou a andar para frente.Por isso vocês voltaram à casa dos 30 pontos de audiência?Sim, isso é resultado de trabalho feito com prazer. De alguma forma, a gente foi perdendo ponto a ponto de audiência. O público não entende o que não está bom, ele simplesmente muda de canal. O programa está trabalhado atualmente minuto a minuto. Foi assim que retomamos ibope. Estamos recuperando, mesmo com a Record e sua Fazenda. A paródia de Caminho das Índias também é responsável por esse aumento de audiência?Ah sim... Já estamos até preocupados quando a novela acabar. Ela é um achado. É rica demais para fazer piadas. Novela sempre é a melhor audiência do programa, tanto que é sempre o que abre o Casseta. E acho genial a Globo permitir isso, fazer essa casadinha da novela das 9, que termina, com a paródia dela. É ótimo. Vocês usam os mesmos figurinos e cenários da novela?Claro que não (risos). A gente faz parecido. Não podemos usar o mesmo, e eles têm muito mais grana. Na nossa, é tudo menor. A casa do Opash da novela é toda de madeira recortada, a nossa é um ploter colado que só parece aquele recorte (risos). Nosso orçamento é outro, nosso Raj é outro (risos).No início do ano vocês falaram que deixariam a política de lado, mas voltaram atrás. Por quê?A culpa é dos políticos, a gente tentou, mas eles aprontam depois. Estabelecemos então que para a gente brincar, tem que ter um bom personagem, um cara que todo mundo conheça. No caso do Sarney, virou um personagem. Colocamos um bigodudo lá, todo mundo sabe quem é. Já o lance de denúncia não é com os cassetas.Acha que o Pânico e CQC se inspiraram em vocês de alguma forma?São propostas completamente diferentes. Não tenho dúvida que, pela idade do Casseta, esses meninos do Pânico foram criados vendo a gente. Eles se apropriaram de certa forma dessa linguagem de molecagem criada por nós, mas de um jeito diferente. Os cassetas são autores, escritores, temos texto, produção, cenários. No caso do Pânico, eles são performáticos. Eles não têm um texto, eles têm só uma pauta. Nós nunca fomos grosseiros com as pessoas. Nossas babaquices são outras. (risos) No caso do CQC, tem o Marcelo Tas, que é mais antigo que a gente (risos). Se a gente tem 18 de TV, ele tem 38 (risos). Sem trocadilhos, ele é uma cabeça grande, privilegiada, pensa muito, trabalha com mídias novas e sempre teve uma preocupação política.Mas hoje esses programas correm atrás dos políticos na Câmara como vocês faziam?Sim, e nem fazemos mais. Sabe por quê? Porque esses deputados são ridículos. A gente chegava lá no anexo 2 e eles faziam fila para serem zoados. Querem aparecer. Não vamos dar corda para isso. Era outro tempo. Mas te incomoda ver referências dos cassetas nesses programas ?Não, pelo contrário. Fico lisonjeado. Mas insisto que o CQC nada tem a ver com a gente.Em 18 anos, vocês devem ter recebido muitos convites para mudar de emissora. Por que não aceitaram?Queremos fazer um programa bom. Em qual outra emissora conseguiríamos isso? Quando trouxemos o Cazé para a Globo, uma das coisas de que muito me arrependo, aprendi que esses impulsos não levam a nada.Cazé estava menos disposto a ouvir do que a gente pensava que ele estaria. Quando percebeu que o programa não ia emplacar começou a querer zonear, testar limites. Claro que não rolou. Mas foi bom para a gente aprender.

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