Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Casal dono de uma das cem melhores coleções de arte dos EUA vem à SP-Arte

Além de influentes colecionadores, Marc e Livia Straus são galeristas em Nova York e fundaram o museu Hudson Valley Center for Contemporary Art

André Cáceres , ESPECIAL PARA O ESTADO

08 Abril 2017 | 03h00

Em meio ao movimentado saguão de um hotel na zona sul de São Paulo, foi a colecionadora Livia Straus que avistou a reportagem do Estado, e não o contrário, em uma pequena demonstração da sensibilidade e do olhar apurado de alguém que vive para apreciar a arte. 

Quando Livia e Marc Straus começaram a colecionar, em meio à efervescência cultural dos anos 1960, tinham pouco mais de 20 anos e uma rotina apertada de estudo e trabalho. Ele, concluindo o curso de medicina; ela, o doutorado em estudos judaicos. Nem mesmo o orçamento relativamente limitado os impediu de iniciar aquela que é hoje considerada uma das cem melhores coleções de arte dos Estados Unidos, segundo a revista Art & Antiques.

O casal, que esteve no Brasil pela primeira vez a convite da AXA Art para dar uma palestra sobre coleções nas Américas durante a 13.ª edição da SP-Arte, fundou a galeria Marc Straus, no multicultural e charmoso Lower East Side, bairro de origem imigrante em Manhattan; e o Hudson Valley Center for Contemporary Art (HVCCA), um museu de arte contemporânea em Peekskill, uma cidadezinha ao norte de Nova York. 

“Quando nós começamos a colecionar, eu fiquei preocupada porque nós não tínhamos nenhum dinheiro. O que estávamos fazendo ao comprar essas obras? Mas quando você começa a viver com arte, não consegue imaginar não viver com ela”, relembra Livia, que é diretora do HVCCA. Um dos artistas que atraíram o olhar de Marc Straus ainda na juventude foi o pintor e escultor minimalista norte-americano Ellsworth Kelly (1923-2015), conhecido hoje por uma série chamada Chatham, composta por 14 telas bicolores criadas em um período de dois anos e que, na época, ficaram encalhadas nas galerias. “Elas realmente impressionam. Quanto mais eu estudava, mais pensava: ‘Isso está quebrando a forma como pensamos uma pintura’. É sobre a perfeição da relação entre escala, cor e forma”, assinala Straus, que se orgulha de, então, ter feito um empréstimo no banco e sido o único comprador dessa coleção por sete anos. Em 2013, o Museum of Modern Art, em Nova York, realizou uma retrospectiva em homenagem aos 90 anos de Kelly, elegendo a série Chatham como atração principal. “Esse é o momento que define você como um colecionador. Não por quanto dinheiro você tem, porque eu estava na faculdade, trabalhando nos fins de semana, e ainda tive que fazer um empréstimo. O que o define como colecionador é que você escuta absolutamente apenas o que sente”, acrescenta Straus. 

Se o critério é o sentimento em relação às obras, como Marc e Livia construíram uma coleção coerente, levando-se em conta a heterogeneidade da arte contemporânea? “Acho que depende do estilo da coleção. Algumas pessoas focam em um tipo particular de trabalho, mesmo dentro da arte contemporânea. Se você está interessado em obras minimalistas ou abstratas, pode colecionar o que se identifique com esses trabalhos. Mas Marc e eu sempre compramos simplesmente o que amamos”, diz Livia. “O que nos atrai são obras que permitem um olhar diferente para coisas relacionadas ao cotidiano”, completa Marc. 

Depois que a coleção do casal fez uma turnê de três anos por vários museus, Marc e Livia perceberam que não havia mais espaço em casa para tantas obras. “Nossos filhos cresceram com aquilo e nós percebemos como isso mudou suas vidas. Eu estava pensando em comprar um lugar para guardar as obras quando Livia disse que a arte tem muito poder para educar pessoas que não tiveram acesso”, recorda o galerista.

“Nós colecionamos principalmente artistas jovens, e se você compra seus trabalhos e os coloca em um galpão, que tipo de ajuda você está oferecendo a esses artistas? Suas obras não estão mais visíveis. Nós sentimos que a linguagem da arte oferece uma oportunidade que nenhuma outra oferece”, afirma Livia, que, em 2004, teve a ideia de criar o HVCCA como um espaço para usar a arte como vetor de educação e transformação.

“Em vez de construir o museu em um lugar rico, encontramos uma comunidade verdadeiramente carente a uma hora de Nova York. Toda a indústria havia ido embora, o centro estava empobrecido e as lojas, todas fechadas”, conta Marc. Mas o começo foi difícil para a instituição. “Quando chegamos à cidade, eles simplesmente não entendiam o que estávamos fazendo. Enfrentamos dificuldades porque eles não conseguiam compreender o que eram aquelas obras malucas ou por que essas pessoas estavam levando arte para perto deles”, relembra. O colecionador assinala que a cidade de Peekskill, hoje em dia, está revitalizada e que a porcentagem de jovens no ensino superior dobrou nesses 13 anos, considerando o HVCCA um dos fatores por trás dessa renovação educacional. 

Assim como no museu, a galeria Marc Straus aposta em jovens artistas como o pintor romeno Adrian Ghenie e o escultor minimalista coreano Jong Oh, mas recentemente a galeria criada em 2011 tem se dedicado também a artistas veteranos que, na opinião de Marc, não tiveram o devido reconhecimento, como Sandro Chia, pintor e escultor da transvanguarda italiana que explodiu nos anos 1980 e sumiu dos holofotes. 

Em 2017, a galeria realizou a primeira exposição individual de Chia em Nova York em décadas. “As pessoas me perguntaram onde ele estava durante esse tempo todo. Ele ficou em casa e pintou. Eu vejo meu trabalho como a introdução e o posicionamento de artistas que mereçam um público maior, sejam novos ou velhos”, pondera Marc, que afirma ser cuidadoso para não vender as obras a especuladores para proteger os artistas. “Eu tomo o cuidado de vender para pessoas como eu”, brinca o colecionador. 

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