Casa nova para a obra de Pedro Bandeira

Com mais de 20 milhões de exemplares vendidos, autor acerta com a Moderna

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

01 de setembro de 2009 | 00h00

A contagem exata aponta 74 livros, sete coletâneas que incluem seus contos, cinco traduções e três peças de teatro, das quais apenas uma publicada. Tamanha produção abastece um mercado ávido: desde o lançamento de O Dinossauro Que Fazia Au-Au em 1972, o escritor Pedro Bandeira já vendeu mais de 22 milhões de exemplares, tornando-se um campeão de vendas, especialmente na área de infanto-juvenis. Qual explicação? "Dentre tantos aspectos que já foram levantados por mestrandos e doutorandos que basearam suas teses em livros meus, creio que talvez seja a forma com que me dirijo a eles, sem posar de adulto ?sabe tudo?", explica o autor, que participa hoje do lançamento da Biblioteca Pedro Bandeira, reunião de todos seus livros que serão publicados agora pela Editora Moderna.O evento que oficializa sua chegada à nova casa editorial ocorre no Itaú Cultural, onde a obra de Bandeira será tema de uma conversa com a pesquisadora e crítica Marisa Lajolo. "Todos os meus livros estão sendo reformulados, modernizados graficamente, embelezados e novamente oferecidos a essa gente que já consumiu 11 milhões e tanto de exemplares de diferentes livros meus, comprando-os espontaneamente, além de mais 11 milhões adquiridos pelo governo federal para distribuição a bibliotecas escolares", festeja o escritor de 67 anos.A arte de contar bem uma história explica tamanho sucesso. "Os narradores que crio, ou são jovens falando em primeira pessoa, tendo portanto de apresentar seus enredos dentro das limitações normais de sua idade, ou são narradores em terceira, mas que apresentam os enredos como se fossem uma câmera de cinema, que apenas mostra, sem julgar nada, sem impor visões ?adultas? que afastariam o leitor."Para chegar a tal percepção, Bandeira acredita que o escritor necessita ter uma certa vivência, ou seja, ter mais de 30 anos para atingir o alvo. Ele lembra que Ruth Rocha, Monteiro Lobato, Ziraldo e mesmo a criadora da saga Harry Potter, J.K. Rowling começaram a escrever para os pequenos depois dos 40 anos, fase em que já dispunham de uma visão mais aprofundada do que é ser jovem, depois de já ter sido.Pedro Bandeira, de fato, exerceu diversas atividades até se fixar como um dos reis da literatura infanto-juvenil no País. Começou como ator de teatro e trabalhou com Cacilda Becker e Sérgio Cardoso até se decidir pelo jornalismo. No diário Última Hora, de Samuel Wainer, teve seu primeiro emprego. Passou também por diversas revistas da editora Abril, experiência que lhe inspirou escrever O Dinossauro Que Fazia Au-Au. O marco zero de sua opção literária, porém, veio com a publicação de A Droga da Obediência, em 1985.A história de uma turma de adolescentes, os Karas, que enfrenta o sinistro Doutor Q. I. e seu plano de aplicar uma droga na juventude caiu em cheio no gosto popular, permitindo que Bandeira descobrisse enfim seu público. O livro avançou gerações, ultrapassou a marca de 1 milhão de exemplares vendidos e continua como referência. E nem mesmo a evolução tecnológica foi capaz de ?envelhecer? esse ou qualquer outro livro. "Textos que escrevi em 1983 ainda são lidos e fruídos com a linguagem que usei na época, sem qualquer necessidade de ?modernização? da linguagem utilizada", conta. "Meus personagens ainda são hoje aceitos sem problemas, embora nos enredos eles não usem computadores, celulares nem internet, pois nada disso existia quando escrevi algumas das histórias. Alguns deles, quando querem telefonar, vão a orelhões e usam fichas de telefone."Contrário à lenda de que o jovem lê pouco ("Não se lê mais porque o Brasil continua sendo o país da exclusão da maioria"), Pedro Bandeira também não acredita que determinados assuntos possam ser considerados tabus para os jovens. "Uma discussão de um casal que está prestes a se separar é um assunto adulto, não é? Mas, se ele for abordado a partir da visão da filha de 12 anos do mesmo casal, que sofre com a perspectiva de ver seus pais se separarem, teremos a possibilidade de um romance juvenil", explica. "O que seria ?tabu?, dentro do meu ponto de vista, seria impor a um público jovem a abordagem de algum assunto sob um ponto de vista diferente do dele." ServiçoBiblioteca Pedro Bandeira. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, 2168-1776. Debate com Marisa Lajolo. 19h30 às 21h30

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