REUTERS/Henry Romero
REUTERS/Henry Romero

Casa Azul, morada de Frida Kahlo e Diego Rivera, pulsa de vida

Museu na Cidade do México impressiona tanto pela coleção de obras de artes quanto pelo ambiente estimulante

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2017 | 15h53

CIDADE DO MÉXICO - No agradável bairro de Coyoacán se encontra um dos pontos turísticos mais disputados da Cidade do México. O visitante já sabe que está próximo da Casa Azul ao divisar a fila que se forma desde a manhã (uma boa dica é reservar os ingressos pela internet). Na bonita Casa Azul viveu e morreu a artista plástica Frida Kahlo (1907-1954), em companhia de Diego Rivera, o mais talentoso muralista mexicano. Frida e Diego formaram um dos casais mais famosos (e tempestuosos) daquele tempo efervescente que foram as primeiras décadas do século passado. 

A casa, em si, já impressiona. Obviamente, é toda pintada de azul e dá mostras da vida folgada da família da pintora. Construída em 1904, ocupa hoje um terreno de 1200 m2 – a construção principal e seus anexos têm 800 m2. Tudo é grande, espaçoso, confortável e aprazível, em ambientes cercados de plantas e obras de arte. 

Diego e Frida foram grandes colecionadores. Dessa forma, encontram-se pela casa exemplares da arte pré-colombiana. Além, é claro, de obras da própria Frida, algumas muito famosas, como Viva la Vida, Frida y la Cesárea, Retrato de mi padre Wilhem Kahlo, etc. No percurso da casa, o visitante passa por vários cômodos, inclusive pela cozinha, onde Frida gostava de receber os amigos com pratos da culinária mexicana. 

Vemos, também, o estúdio de Frida, com o dispositivo ortopédico que usava para pintar e manter a coluna ereta enquanto trabalhava. A montagem do museu é detalhista e vai de peças íntimas ao medicamento à base de morfina, que a pintora tomava em doses industriais para aliviar suas dores crônicas. 

A vida de Frida foi trágica. À poliomielite da infância somou-se, na mocidade, o acidente de bonde no qual uma viga lhe atravessou o corpo e danificou para sempre sua coluna vertebral e órgãos internos. Como, com tudo isso, se manteve ativa, feliz, cheia de energia e criativa é um desses milagres da existência e, talvez, um dos motivos pelos quais ela tenha se tornado um dos ícones permanentes do nosso tão leviano tempo. 

Depois de percorrer todo o acervo e ter se informado de todas as circunstâncias dessa existência tão sofrida quanto exuberante, o visitante fica particularmente emocionado ao contemplar uma obra solar como Viva la Vida! Eis aí um dos segredos de Frida. Se ela, tão perseguida por um destino cruel, conseguia ser feliz e afirmar seu gosto de existir, por que deveríamos nos queixar ou sentir entediados? Frida é exemplo acabado de resistência diante da adversidade. 

São essas as sensações e pensamentos que inevitavelmente nos vêm ao percorrer o Museu Frida Kahlo. Porque, entre outras coisas, a Casa Azul não tem qualquer jeito de museu, no sentido depreciativo do termo. Pulsa de vida, como devia ser na agitação dos anos em que Frida e Diego lá viviam e recebiam gente como o surrealista francês André Breton, a fotógrafa e agitadora política ítalo-mexicana Tina Modotti, o muralista José Clemente Orozco, o cineasta soviético Sergei Eisenstei e o revolucionário Leon Trotski, proscrito da União Soviética por Joseph Stálin e que, após longo exílio, encontrou no México seu novo lar, graças à intervenção de Frida e Diego, ambos comunistas. 

Trotski, aliás, se hospedou durante muito tempo na Casa Azul, em companhia de sua esposa Natalia Sedova. Tornou-se amante de Frida antes de se mudar para outro endereço, no mesmo bairro de Coyoacán, apenas alguns quarteirões distante da Casa Azul. Trotski transformou sua nova residência em bunker, sofreu um primeiro atentado ao qual sobreviveu (comandado pelo stalinista Orozco), mas terminou assassinado pelo catalão Ramón Mercader, agente de Stálin. Sua casa também virou museu, embora em proporções muito mais modestas que as da casa de Frida. 

A visita à Casa Azul é tanto uma experiência de fruição estética, em razão das obras lá existentes, como de confronto com todo um período frenético da História, que foi aquele em que viveu a pintora. Cada objeto exposto fala um pouco do universo da pintora, dos corpetes que usava para dar firmeza ao corpo doente (peças que adornava com símbolos como a foice e o martelo) aos retratos de suas admirações, em particular Lênin, Stalin e Mao Tsé-Tung. Para amenizar, o retrato da deusa mexicana Maria Félix, que tinha quarto próprio quando resolvia dormir na residência e se tornou amante de Diego Rivera (este não perdoava ninguém do sexo oposto, nem mesmo a irmã de Frida, Cristina). 

Quando sentiu a morte próxima, Diego mandou murar dois banheiros da residência e determinou que só fossem abertos 15 anos depois do seu desaparecimento. Quando as paredes foram derrubadas, descobriu-se um manancial de documentos, rascunhos e objetos íntimos de Frida, que hoje enriquecem a exposição. De acordo com os estudiosos, jogam novas luzes sobre a obra de Frida e sua personalidade forte. Por exemplo, foram encontrados estudos minuciosos sobre o desenvolvimento do feto humano, desenhados pela artista. Frida, como se sabe, não pôde ser mãe em virtude de seus problemas físicos, o que lhe causou grande frustração.

Foram encontrados também os vários rascunhos de um texto sobre Diego Rivera. A versão final era conhecida, mas sua autoria não. O ensaio Retrato de Diego Rivera chegou a ser atribuído ao poeta e ensaísta Alfonso Reys. Hoje se sabe que é de Frida e expressa a admiração pelo companheiro. Os dois viviam como cão e gato. Separavam-se e voltavam. Traíam-se com outros parceiros. Casaram duas vezes. E amaram-se até o fim. A venerável Casa Azul é testemunha desse amor de perdição. 

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