Cartas que revelam a compaixão de Beckett

Volume recém-lançado acentua

Nicholas Lezard, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2009 | 00h00

Era o que estávamos esperando - além, claro, do restante das cartas de T.S. Elliot (é um escândalo que, quase meio século após sua morte, exista apenas um magro volume delas). Beckett foi sabidamente recatado, mas isso não o impediu de escrever uma espantosa quantidade de cartas, como as publicadas agora na Inglaterra no livro The The Letters of Samuel Beckett: Volume 1, 1929-1940, editado por Martha Dow Fehsenfeld e Lois More Overbeck.As duas foram obrigadas a lidar com dificuldades maiores do que a maioria dos profissionais que se dedicam a este tipo de trabalho, não só pela amplitude das alusões e pelos jogos de palavras em algumas das cartas escritas em francês e alemão ("nastorquemada nyles" não foi identificado com certeza, elas dizem; e quem pode culpá-las?), mas também porque Beckett tinha uma caligrafia absolutamente pavorosa - ruim o bastante para ele mesmo se desculpar pelo que chamava de seu "punho bobo". Na introdução, Martha e Lois citam um correspondente: "Esta não pode ser a caligrafia de Sam Beckett. Consigo ler cada palavra." Por outro lado, elas são particularmente afortunadas no sentido de que a maioria das cartas do volume foi escrita para seu melhor amigo, Thomas McGreevy. Eles se conheceram quando Beckett lecionava na École Normale Superieure. O ficcionista escrevia para MCGreevy com candura e confiança, tratando-o como um intelectual de seu porte. Há momentos em que gostaríamos de ver as cartas de McGreevy a Beckett, pois, para ter deleitado alguém com senso crítico tão rigoroso, seu talento não deve ser pequeno.Nas cartas, temos a autêntica contundência beckettiana primitiva, não mediada por artifícios. Ele pode ter sido um eterno exibicionista verbal, mas por baixo da pirotecnia jazem humor e dor verdadeiros. "Meu caro Tom, Encantado por receber sua carta. Escreva sempre. Esta vida é terrível e não compreendo como ela pode ser suportada", escreve ele em 1930, da casa de seus pais, em Cooldrinagh (incorreções de pontuação, ortografia e gramática foram mantidas). "Gostaria de viver num setembro perpétuo", anota Beckett em 1935. "A gente faz o melhor que pode para preferir a primavera, em vão." Certa vez, em um dia ensolarado, assistia com um amigo a uma partida de críquete e dele ouviu: "Este é o tipo de dia que deixa a pessoa contente por estar viva." Em uma carta, tempos depois, recorda a história e sua resposta: "Eu não iria tão longe." Beckett explica que sua longa experiência de fracasso foi responsável por torná-lo um escritor; aqui, nós o vemos sob seu primeiro ataque crítico. Uma amiga dos Joyces, Nuala Costello, diz: "Você não tem uma só palavra boa para escrever sobre ninguém, só se refere a fracassos." E Beckett observa: "Essa é a coisa mais bonita que alguém me disse em um longo tempo." Tentando vender seu primeiro trabalho, Dream of Fair to Middling Women, escreve: "O livro não vai. Shatton e Windup o acharam maravilhoso, mas eles não puderam, simplesmente não puderam. O Hogarth Private Lunatic Asylum o rejeitou do mesmo jeito que a Punch o faria. Cape ficou enojado, de cachimbo e cardigã, e seu terrier Aberdeen concordou com ele. Grayson o perdeu ou se limpou com ele. Arranque as bolas deles, estão todos na 66 Curzon St. W.1." A linguagem forte de Beckett é uma das coisas que conferem a suas cartas pungência e vigor. É um testemunho também da flexibilidade, rigor e força de sua escrita o fato de que elas não parecem de maneira nenhuma datadas, a menos que o quadro de referências culturais em que se inserem seja considerado ultrapassado. Mesmo um conhecimento escasso de sua obra deverá preparar o leitor para a escatologia de algumas de suas criações; será surpreendente, no entanto, o fato de que algumas delas serão endereçadas a pessoas importantes, como seu editor e amigo, o simpático Charles Prentice, da Shatton and Windup - perdão, Chatto & Windus -, que publicou More Pricks Than Kicks apesar das reservas de seus colegas. (Espere pagar cerca de 4,5 mil libras, perto de US$ 6,6 mil, por um exemplar dessa edição hoje.)A seleção não é completa. Tente comparar algumas das cartas mais interessantes mencionadas na biografia de James Knowlson, Damned to Fame, com as deste volume e se verá frustrado. No início de dezembro de 1933, ele escreve a McGreevy que está às voltas com "um novo amor passageiro", fazendo "a corte sem convicção"; a carta a McGreevy neste volume, de 12/6/1933, que tem de ser a que Knowlson menciona, não inclui essa linha, mas sim uma indicação de corte. Será que eles omitiram a passagem porque estavam tentando poupar os pudores de alguém? E de quem? O de Beckett, no túmulo havia duas décadas? Ou de Nuala Costello? (palpite de Knowlson, e, dada a maneira como Beckett escreve para ela em outra parte, acho que ele está certo). Nuala morreu em 1984 e não se importará mais. Parece haver uma reticência parecida em outro momento. Onde está a carta, sem data, que Knowlson trata como a fonte da confissão de Beckett de que ficou tão bêbado certa noite que não conseguiu encontrar seus óculos na manhã seguinte? É curioso porque, como devia ser evidente, as editoras não são consistentemente pudicas. Já mencionei algo de sua linguagem mais madura (ele considerava perder seu posto no Trinity College, em Dublin, para "uma medalhista de ouro, vadiazinha e charmosa"), mas temos ainda esta avaliação, enviada da Alemanha: "Eu vi mais prostitutas em Dresden, prostitutas da velha escola, em uma só noite que em todos os meses desde outubro e todos os lugares desde Hamburgo juntos. Sächsiger Stützwechsel!"As duas últimas palavras referem-se ao "sistema de sustentação saxônico... um padrão típico da arquitetura romanesca da Saxônia". Não seria justo dizer que as editoras foram menos que diligentes em seu trabalho, embora elas pudessem ter conseguido alguém britânico para lhes dizer que Optrex não somente era, mas continua sendo, "um colírio comercial". (Beckett sofria terrivelmente de infecções oculares, entre uma quantidade enorme de outras coisas.) Mas esses são reparos menores. Uma edição completa seria várias vezes mais longa e alguma coisa teria de ser cortada. E nós temos o bastante para prosseguir. A diferença entre Dream of Fair to Middling Women (1932), uma peça de escrita fragmentada, confusa, e Murphy (1938) é considerável, em termos de técnica. O período coberto aqui começa quando Beckett encontra seu estilo: nessas cartas, são inúmeros os episódios em que o vemos começar a aquecer seus músculos. Sua descrição dos empinadores de pipas no Round Pond é bela, quer se esteja ou não familiarizado com a passagem relevante de Murphy. Tomamos conhecimento, também, de seu desenvolvimento intelectual e estético - e eu fiquei particularmente interessado no espaço que T.S. Eliot ocupou em sua paisagem interna.Mas o que mais se destaca no volume é a humanidade de Beckett. Para os que leram suas biografias isso não será novidade, mas se pode ver agora ainda mais claramente que, apesar de toda a timidez, ele era mais decente do que se poderia pensar. Esta descrição de um colega de pensão em Hamburgo é tão charmosa quanto estilisticamente gratificante: "E há um irlandês chamado Power, que nunca foi à Irlanda, que nasceu em Gibraltar, cuja casa é no Peru, cujos interesses estão na Espanha & família em Marburg, cuja família saiu de Waterford, enquanto as coisas iam bem, no século 18. Ele me pagou um almoço num restaurante vegetariano." É de lamentar algumas decisões, como a de omitir alguma ou toda obra da juventude - quantas cartas ele deve ter escrito antes dos 23 anos! Ou então de imprimir o livro num papel de tamanha densidade que sua leitura exige algum tipo de estante de apoio, e, por consequência, torna o livro tão caro que os leitores leigos de Beckett terão de pensar muito antes de adquirir um exemplar. Se o fizerem, não se arrependerão: há tesouros sobre tesouros aqui. TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

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