Caro Sr. Horten, tentativa de reinvenção da vida

Filme norueguês de Bent Hamer focaliza a existência de um ferroviário prestes [br]a se aposentar e que precisa descobrir novos horizontes para o seu cotidiano

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

O Sr. Horten é um trabalhador ferroviário padrão. Nas primeiras cenas, vemos o personagem em ação, conduzindo uma locomotiva moderna com a segurança de um comandante de nave espacial. Com uma diferença: durante toda a operação, Horten mantém seu cachimbo aceso e pendurado na boca. É o tipo ideal do escandinavo. Odd Horten (Bard Owe), descobrimos, está a ponto de se aposentar. Veja o trailer de Caro Sr. HortenEstamos na Noruega e, portanto, ele não deve enfrentar a angústia de um aposentado brasileiro com o futuro e as contas no fim do mês. Mesmo assim, a aposentadoria é um corte na vida do indivíduo. Mesmo que o salário continue folgado, a assistência médica seja ótima, a saúde esteja boa e o cidadão possa, enfim, gozar aquela fase que, por ironia, no Brasil, batizaram de "melhor idade". Mesmo assim, quem se aposenta, em especial de um trabalho que se faz com muito prazer, tem a sensação de perda. Sente-se em luto.E será essa a situação inicial deste interessante filme do diretor Bent Hamer. A desolação diante de uma vida agora sem obrigações, mas também sem dia a dia, sem rotina, sem todos esses esteios que produzem no ser humano a sensação de continuidade e normalidade. Somos o que fazemos no cotidiano. O café da manhã, o serviço, os colegas, a volta para casa. No limite, tudo isso pode parecer uma chatice sem tamanho, mas é o que dá estabilidade emocional ao indivíduo. Quando não se tem mais isso, a sensação imediata é de vazio. E, como a natureza tem horror ao vácuo, ele deverá ser preenchido rapidamente. Esse é o desafio de qualquer aposentado e, no nosso caso, do Sr. Horten. Reinventar-se para começar de novo.Talvez o mais simpático no filme seja a maneira como Hamer capta a psicologia de um indivíduo, mas também o clima dominante de uma cultura. A formalidade, a contenção emotiva, o senso de ordem e de dever são aquilo que se espera em um país como a Noruega. Tudo funciona como relógio, ainda mais na profissão ferroviária, com sua tradição de pontualidade. E, no entanto, sob toda essa disciplina da retenção, algo se insinua, desafia e tenta se expressar. Sob o gelo, o fogo. Nas frestas da regra, a exceção.O interessante é como o diretor articula a linguagem cinematográfica nesse mesmo sentido. Hamer desenha seus planos com rigor de artista. A paisagem em geral é nevada. Os ambientes internos são calorosos, mas, ao mesmo tempo respiram uma ordem meio opressiva. Todo o desenvolvimento, no entanto, é pontilhado, aqui e ali, por um humor sutil que, não raro, chega ao absurdo leve, como se Hamer cultivasse um surrealismo diet, que não ofende a dieta de ninguém.Há os acontecimentos "ilógicos", que se contrapõem a toda a lógica vigente que ordena a vida do Sr. Horten no trabalho como na aposentadoria. Podem aparecer sob as mais diferentes formas. Uma criança que faz o sr. Horten perder a hora, pela primeira vez na vida - e justamente no dia de sua despedida. Um bêbado que encontra na sarjeta e se revela um milionário excêntrico, que se diz embaixador, fala de um irmão inventor, mas talvez não passe de mitômano bastante original.E assim, Caro Sr. Horten pode ser visto apenas como a banal - e no fundo muito comovente - história um homem comum. De como, ao chegar em uma estação terminal (para usar a linguagem ferroviária), ele sente necessidade de realizar algum desejo antigo, talvez da infância. Livrar-se de alguma frustração. Fazer algo que já deveria ter feito muito tempos atrás, mas foi ficando de lado, como se não tivesse importância, ou fosse impossível. Coisas da vida de todos nós, independentemente de latitude, cultura ou longitude.Pode também ser visto como sinal de esgotamento de uma cultura. Estabilizada, com inegáveis vantagens em relação às demais, mas, mesmo assim, aspirando, de maneira tímida, a algum tipo de renovação. Mesmo que esta venha a ameaçar tanta segurança e estabilidade. De certa maneira, Sr. Horten fala dos ciclos da vida, da morte e do nascimento e de como as civilizações (e as pessoas) precisam ousar para ganhar sentido, mesmo que coloquem em risco a sua própria identidade. Mas, deve-se dizer que, depois de se arriscar em campo estranho, é de novo a estabilidade que é valorizada no filme. ServiçoCaro Sr. Horten (O? Horten, Noruega-Alemanha-França/2007, 90 min.) - Comédia dramática. Dir. Bent Hamer. Cotação: Bom

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