Carnegie Hall vira templo da MPB

João Gilberto e Sérgio Mendes lotaram a casa nova-iorquina no fim de semana

Tonica Chagas, O Estadao de S.Paulo

24 de junho de 2008 | 00h00

Como fizeram 46 anos atrás, no fim de semana João Gilberto e Sérgio Mendes transformaram o Carnegie Hall, em Nova York, num grande templo de música popular brasileira. Em novembro de 1962, naquela mesma casa - e, então, com Tom Jobim, Carlos Lyra, Luiz Bonfá, o conjunto de Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos, o violonista Bola Sete, Carmen Costa e mais uma dezena de artistas -, eles participaram de um show histórico que lançou a bossa nova nos Estados Unidos. Desta vez, como nomes consagrados internacionalmente há quase meio século, eles participaram do 250 JVC Jazz Festival.No sábado, a batucada multinacional de Sérgio Mendes embalou a casa com o show Nouveau Bossa, uma jornada desde os seus primeiros sucessos internacionais, na década de 60, até a investida que ele deu no hip-hop com seus dois últimos discos - o mais recente, Enchantment (Encanto), lançado nos EUA há duas semanas (leia ao lado). No domingo, o show de João Gilberto foi o primeiro dos oito que ele deve fazer este ano comemorando os 50 anos da bossa nova. A data é marcada pela gravação que João fez de Chega de Saudade e Brigas Nunca Mais, em 1958, num disco 78rpm que é o divisor da história da MPB.HINOSozinho com seu violão acústico, João fez o público que lotou os 2.800 lugares do grande auditório da casa se comportar com o mesmo respeito devido a solos eruditos ou cerimônias religiosas. Não houve sinais daquele João Gilberto que deixa todo mundo de cabelo em pé por causa de sua fama de perfeccionista, que é capaz de sair do palco se achar que alguma coisa não está do jeito que gosta. Só depois de uma hora de show, depois da décima música, ele murmurou um pedido de desculpas para se queixar que havia ''um ventinho'' em cima da sua cabeça. O ar condicionado o fez reclamar mais duas vezes, bem baixinho. Mas só isso.Foram 20 canções em português, além da italiana Estate, de Bruno Martini e Bruno Brighetti, e Eclipse, do cubano Ernesto Lecuona. De Doralice a O Pato, de Samba de Uma Nota Só a Samba do Avião, de Lígia (que cantou sem pronunciar o nome dela) a Desafinado, João enfeitiçou o público majoritariamente americano por duas horas.Cada canção, repetida várias vezes como um mantra, foi interpretada pelo João introspectivo de sempre, que só levantou os olhos para a platéia ao sair do palco, aplaudido de pé. Ao voltar para o bis, ele mostrou que a sutileza da bossa nova, da qual é pai e papa, pode fazer até hino patriótico soar como música de ninar. Antes de encerrar a noite com Garota de Ipanema, ele surpreendeu o público com Deus Salve a América, versão brasileira de God Bless America, composta por Irving Berlin em 1918. A música é considerada um hino não oficial dos EUA e foi cantada por muitos pracinhas brasileiros na 2ª Guerra Mundial. Com João, ela ganhou bim bom.

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