''Carnaval de São Paulo não é só para turista''

Veterano dos desfiles, o presidente da Liga das escolas paulistas, Sidnei Carriuolo, diz que a festa daqui é da comunidade, enquanto a do Rio é para estrangeiro ver

Pedro Venceslau, O Estadao de S.Paulo

16 de fevereiro de 2009 | 00h00

O presidente da Liga das Escolas de Samba paulistas e da Águias de Ouro, Sidnei Carriuolo, é também investigador de polícia. Talvez por isso negue com veemência a analogia, tão frequente na mídia e nos botecos, entre samba e contravenção. "Em São Paulo a cultura é outra", avisa. Mas nem sempre foi assim. Quando entrou nessa vida, nos anos 70 - tinha 18 anos na época -, o carnaval da cidade "era coisa de bandido, maloqueiro". Nas últimas três décadas, ele conquistou respeito, audiência, dinheiro e um sambódromo. Continua a léguas de distância do carioca, mas Carriuolo acha que reduzir essa diferença não é a meta mais importante: o charme, aqui, é que a festa é feita e saboreada pela comunidade, não por turistas. Ele falou à coluna sobre essas diferenças e de como a TV Globo impediu a privatização dos enredos. O que falta para o carnaval de São Paulo se igualar ao do Rio? Nunca vai ser igual. São Paulo é uma cidade que manda turistas para fora. Já o Rio é receptor. Aqui, o carnaval é feito pela comunidade. Lá, você tem um monte de turista branquinho com a bochecha rosadinha no meio da avenida. Em São Paulo, nunca vamos ter turista desfilando. E o Rio jamais vai deixar de ter. Além disso, tem a coisa financeira. Nós trabalhamos com um terço da verba de lá. Nosso orçamento é em torno de R$ 1 milhão por escola. No Rio é de uns R$ 3 milhões. Mas o de São Paulo tem melhorado? De uns cinco anos para cá, a qualidade aqui melhorou demais. A disputa entre as escolas está mais acirrada. Elas aprenderam a gastar e se profissionalizaram financeiramente. De onde vem o dinheiro das escolas? Além das três fontes que a gente tem - prefeitura, bilheteria e TV - ganhamos com shows, bar da quadra e venda de camiseta e fantasia. Qual a relação das escolas com o jogo do bicho? Aqui em São Paulo a cultura é bem outra..No Rio, o vínculo ainda é forte? Lá ainda existe alguma coisa nesse sentido. O perfil dos presidentes de escolas de São Paulo é diferente. Aqui são funcionários públicos e comerciantes. Talvez justamente por isso seja mais difícil a parte financeira. No Rio o lastro é maior. A relação entre as duas ligas é boa? Não é muito próxima. Acho que a gente incomoda um pouco. Existe lá uma cobrança, do tipo "o carnaval de São Paulo está chegando..." Lá chegou-se a um teto. Aqui, estamos num crescimento constante. Até quando vai o contrato com a TV Globo? Até 2014. Não recebemos ainda nenhuma proposta concreta de outra emissora. O que acha das escolas que tentam "privatizar" seus enredos? Quando uma empresa dá dinheiro, ela quer retorno. Investem pensando nesses 65 minutos de exposição na TV Globo. Mas nós temos um contrato bem claro: não podemos fazer merchandising direto nem indireto. Não podemos colocar marca de ninguém, a não ser nos empurradores de carro alegórico. Nem mesmo fazer menção explícita a marcas. Isso graças à Globo, que blindou a filmagem para não ter que ficar cortando depois. Se não fosse assim, seriam sete comerciais na sexta e mais sete no sábado... Alguma empresa chegou perto de comprar o enredo? Não houve um caso com a Nestlé, há alguns anos? Foi quase. A Nestlé entrou como patrocinadora da Mocidade Alegre, mas a Globo não concordou. Ela foi a grande barreira para a privatização dos enredos. Então botaram na avenida uma lata de leite condensado e outra de leite em pó, mas não escreveram o nome dos produtos. Isso foi bom. Se não fosse assim, o patrocinador começaria a fazer exigências de colocar símbolos na avenida ou palavras no samba-enredo. O carnaval perderia a essência. Não pode simplesmente transformar o desfile num comercial de 65 minutos na televisão. Quantas pessoas, em média, participam de uma escola em São Paulo? Em torno de quatro mil.Qual a escola favorita este ano? Ah, isso é muito difícil. Carnaval você ganha na pista. Quem desfila pode beber? Qual a política das escolas? Na concentração é proibido beber. Mas entre a saída da quadra e a avenida se passam duas horas, que é tempo de sobra para as pessoas travarem. Os diretores de harmonia ficam de olho para ver se tem alguém balançando. Passam nas alas e tiram quem estiver muito bêbado. É comum ver gente sendo tirada. Por isso se faz um pente fino. Se não for feito, o conjunto acaba sendo prejudicado. O que acha das celebridades que frequentam as escolas? Eu, particularmente, não gosto muito. O artista dá um brilho e é um chamariz, mas sou de outra época. Sou do tempo que o carnaval não tinha TV nem dinheiro. Gosto de preservar as raízes. Muitas celebridades querem se aproveitar da escola só para se promover e depois mudam de camisa. Celebridade não tem identidade nenhuma com aquele "pavilhão". Se ela não for destaque, vai procurar outra. São raros os casos de artistas como Alcione e Beth Carvalho, que são da Mangueira. Como é a ligação das escolas com os políticos? O que atrapalha não são os que já estão na política, são os que querem entrar. Em época de eleição aparecem com aquele papinho de campanha: "Vamos governar juntos, vamos ser parceiros". Algum prefeito foi mais amigo do samba paulista? A Luíza Erundina, que fez o sambódromo, ajudou muito. Depois dela, o Gilberto Kassab. Ele está com o projeto de fazer a Fábrica dos Sonhos, que será como a Cidade do Samba, do Rio. Vai ser encostado no Fórum da Barra Funda, onde tem aqueles campos de beisebol. Além disso, o Kassab quer regularizar as escolas, já que 90% delas estão sem documentação, em áreas invadidas. Vamos pagar aluguel dessas áreas.Em São Paulo, as torcidas uniformizadas de futebol desfilam na avenida. Como é essa relação? Ainda há torcedores que pensam estar no estádio, mas no geral o pessoal se enquadrou. Aprendeu que a cultura do sambista é diferente da do torcedor. No começo era complicado. Ninguém com camisa de outra escola podia ficar perto deles na arquibancada. Achavam que estavam no estádio. No samba, quem aparece com camisa de outra agremiação é bem recebido. As torcidas demoraram um pouco para aprender a diferença.Direto da fonteSonia RacyColaboraçãoDoris Bicudo doris.bicudo@grupoestado.com.brGabriel Manzano Filho gabriel.manzanofilho@grupoestado.com.brPedro Venceslau pedro.venceslau@grupoestado.com.brProduçãoMarília Neustein e Elaine Friedenreich

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