Galeria Raquel Arnaud
Galeria Raquel Arnaud

Carlos Nunes e Ding Musa têm obras expostas em São Paulo

Experiências cromáticas com a luz e uma visita ao gabinete presidencial dialogam na Galeria Raquel Arnaud

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2017 | 05h00

Duas séries do pintor alemão Josef Albers (1888-1976), um dos grandes mestres da Bauhaus, vêm à memória quando se vê alguns dos trabalhos do artista Carlos Nunes em sua exposição Fototaxia, que a Galeria Raquel Arnaud inaugurou no último dia 9 e que permanece aberta até 20 de janeiro de 2018: a primeira é a conhecida série Homenagem ao Quadrado, que Albers começou ainda nos anos 1950, aos 62 anos. A segunda é sua série Variant/Adobe (1947).

O paulistano Nunes, uma das grandes revelações da marchande Raquel Arnaud, comemora em 2017 dez anos de sua estreia no circuito (numa exposição coletiva argentina), dedicando justamente uma das séries de sua mostra individual, Caro Albers, ao alemão que marcou a história da arte com a série anteriormente mencionada – a de pinturas saturadas com a figura do quadrado em expansão.

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Nunes, aos 48 anos, é um artista internacionalmente premiado, com residência artística no Japão e Espanha. Também é um talento que não tem medo da história. Revisita na mesma exposição Albers e o suprematista russo Kazimir Malevitch (1878-1935). Fazendo companhia ao amigo, o fotógrafo Ding Musa ocupa o mezanino da galeria com sua exposição Do Discurso Político Brasileiro, visita ao centro do poder em Brasília como raras vezes se viu desde as fotos históricas de Marcel Gautherot (1910-1962), que registrou os primórdios do Distrito Federal.

Albers. Na exposição de Carlos Nunes, Fototaxia, o artista recorre a diversas técnicas, da assemblage à performance gravada em vídeo, para investigar a ação da luz sobre suportes variados. Nunes explica que usou a fototaxia (ou fototropismo) – resposta de seres vivos a estímulos luminosos – para investigar o sentido de deslocamento provocado pelo colapso de um sistema.

Assim, na série Lampejos, um conjunto de desenhos resulta de um curto circuito provocado junto à superfície do papel. Em outra série, que demorou nove meses para ser feita, papéis dobrados foram expostos à luz do sol, tendo sua cor original alterada. Juntando-os numa collage que remete à série Variant/Adobe (1947) de Albers, ele inverte a equação do pintor alemão, que, nesse trabalho, recorreu à fachada de casas mexicanas populares para criar retângulos verticais numa composição diagramática. Nunes, a exemplo de Albers, dá ênfase à cor por meio de um arranjo geométrico, mas o que importa mesmo são as células que entram ao acaso na zona iluminada pelo sol, alterando a cor original do papel de seda.

Em outra parede da galeria, Nunes apresenta a série Caro Albers, composta por 12 pranchas que brincam com a fixação do alemão pelo monocromatismo, usando apenas papéis brancos de diferentes tonalidades. Como um esquimó, capaz de diferenciar cada uma dessas tonalidades, Nunes investiga a expansão albersiana e busca o grau zero da pintura, como fez no passado o inventor do suprematismo Malevitch. A obra-prima do russo, Branco Sobre Branco (1918), negava a forma inteiramente em defesa da ideia da obra. Nunes, ao contrário, usa o suprematismo para reforçar a forma de Albers construída pela cor. A busca pela cor real levou Nunes a radicalizar, usando as cinzas de um papel queimado para desenhar sobre uma folha imaculada.

Centro do poder. Numa outra direção, a do comentário político, o fotógrafo Ding Musa penetra no espaço máximo das decisões, o gabinete da presidência da República, para examinar como se constrói o discurso na política. Ao registrar vários edifícios do Planalto Central, quase todos sem personagens humanos, Musa faz um trabalho totalmente documental que, de certa forma, se adapta perfeitamente à linha construtivista eleita pela marchande Raquel Arnaud desde seu ingresso no mercado de arte. A exemplo do amigo Carlos Nunes, também Musa já começa a expor em importantes galerias no Exterior – sua mostra mais recente foi na Galeria Osnova, em Moscou, entre junho e julho deste ano.

A série de fotografias de Ding Musa sobre Brasília começou há dez anos e foi transformada em dois livros artesanais de tiragem limitada que estão em exposição na galeria ao lado das fotos. Entre essas imagens, destaca-se naturalmente a sala do presidente da República, simetricamente desenhada para comportar duas bandeiras e uma tapeçaria (Músicos, 1958) de Di Cavalcanti, que não é uma elegia ao trabalho, mas ao samba.

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