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Caravana Farkas deu sentido político à cultura popular

Vários documentaristas se uniram em torno de Farkas para mostrar um Brasil desconhecido aos brasileiros do Sudeste

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2015 | 04h00

Thomaz Farkas costumava dizer que a o documentário não é exatamente o registro de determinada realidade, mas a sua interpretação. Essa filosofia pode ser encontrada, sob estilos diversos, na caixa Projeto Thomaz Farkas, da Videofilmes, composta de sete DVDs. Um deles traz filmes do próprio Farkas, como Hermeto Campeão, Paraíso, Juarez, Todomundo e Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba. Os outros contêm obras de autores como Geraldo Sarno, Paulo Gil Soares, Maurice Capovilla, Eduardo Escorel, Manuel Horácio Gimenez, Guido Araújo, Sérgio Muniz, Roberto Duarte e Miguel Rio Branco.

Muitos deles, a maioria, detêm-se em temas próximos à cultura popular. São fruto de um empreendimento de cunho cinematográfico mas fundamentalmente político, desenvolvido entre 1964 e 1968 – conhecer, compreender e revelar aspectos do País. Desse modo, um grupo de cineastas, organizados em torno de Farkas, partiu para o Nordeste com esse objetivo em mente – revelar o Brasil aos brasileiros. O projeto foi apelidado de “Caravana Farkas”. E assim ficou na história do cinema brasileiro, embora hoje, tantos anos passados, ainda produza ciumeiras de integrantes. O fato, porém, é que Farkas foi o elemento aglutinador da iniciativa e bem merece que seu nome a designe.

Farkas agia como catalisador de talentos. Mas a eclosão de um momento privilegiado do cinema, como este registrado nos filmes que compõem a caixa, depende de fatores históricos múltiplos. Os filmes, bastante variados do ponto de vista estilístico, se deixam influenciar pela estética do cinema-verdade, que tomava forma na Europa. Os documentaristas entusiasmam-se com o som direto e as câmeras leves, que permitiam maior mobilidade à filmagem.

E, claro, havia a percepção de ordem política que dava liga ao grupo: a ideia de que o Brasil se desenvolvia rapidamente, porém de maneira desigual, deixando bolsões de miséria no rastro do progresso. Cabia a eles interpretar essas disparidades através dos filmes, movimento que, acreditavam, poderia contribuir para mudanças estruturais na ordem das coisas.

Hoje revistos, os filmes guardam a aura dessa crença generosa e desse entusiasmo. Entre eles, alguns dos grandes documentários do cinema brasileiro, como Subterrâneos do Futebol, Memória do Cangaço e Viramundo, para citar alguns.

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