Jose Patricio/Estadão
Jose Patricio/Estadão

Caráter manual das obras de Tonico Auad é destacado em mostra no Pivô

Local também abre nova exposição do artista Lucas Arruda

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

05 de abril de 2015 | 03h00

Entre as características colunas do Pivô, espaço cultural abrigado no edifício Copan, uma peça vertical em linho, meticulosamente feita em crochê, é como um delicado risco vermelho que sai do teto e chega quase até o chão. “Tenho lidado muito com a escultura em tecido”, diz Tonico Lemos Auad diante da obra que integra a instalação Cavalos Marinhos (Sea Horses). Logo na entrada do local, o conjunto de 11 trabalhos de “materialidade orgânica e artesanal”, descreve a curadora Kiki Mazzucchelli, abre a mostra O que Não Tem Conserto, que o artista inaugura neste domingo, às 17 horas, no centro de São Paulo.

Paraense radicado em Londres há 15 anos, Tonico Lemos Auad fez sua última exposição individual na cidade em 2013, na Galeria Luisa Strina, que o representa no Brasil. O que Não tem Conserto é, portanto, uma oportunidade de o público ver criações inéditas do artista e conhecer (ou revisitar) alguns de seus trabalhos anteriores, como Arquitetura Refletida (Reflected Archeology), exibido em 2011 na Trienal de Folkestone, na Inglaterra, mas originalmente concebido em 2007. “O Pivô é um lugar para experimentar coisas novas”, afirma Tonico, explicando que não se trata de uma retrospectiva. “As obras foram escolhidas a partir da relação com a arquitetura.”

Nesse sentido, a verticalidade das esculturas em linho - a maior parte, em estado cru - que formam Cavalos Marinhos não apenas estabelece (ou “sublinha”) um belo diálogo com as colunas do espaço localizado no prédio projetado por Oscar Niemeyer, como também com suas tubulações expostas e emendas. Tanto o artista quanto a curadora chamam a atenção, ainda, para a fragmentação da área expositiva como questão importante para a concepção da mostra. Como vem acontecendo com os projetos do Pivô, as características arquitetônicas, que poderiam ser consideradas problemáticas, são, na verdade, incorporadas aos processos.


No caso da instalação de Tonico Lemos Auad, as peças em crochê - por vezes, com detalhes em tricô -, criadas entre 2014 e 2015 e com cerca de 3,40 metros de comprimento cada uma, estabelecem, em suas sutilezas, presença impactante no espaço de concreto. “É como se estivesse fazendo uma corda manualmente”, diz o artista sobre as esculturas, algumas delas, maciças, outras, tubos vazados. “Tenho usado os mais variados métodos para conseguir os mais variados resultados escultóricos com um material mole, que é o tecido; indo até o limite do material que ele pode chegar”, completa o paraense, que conseguiu, ainda, agregar diferentes formas nas estruturas verticais.

Reparos. O caráter manual das obras de Tonico Lemos Auad é um dado importante sobre sua atividade artística. Chamar a atenção para a preservação de “saberes, técnicas ou habilidades manuais que continuam existindo persistentemente e anacronicamente em paralelo aos avanços tecnológicos”, como destaca Kiki Mazzucchelli, tem até algo de político. A questão é colocada de forma direta no trabalho que dá título à exposição, uma escultura “baseada na microarquitetura improvisada” com duas cabines a abrigar, às sextas-feiras e aos sábados, trabalhadores que consertarão, gratuitamente, roupas, eletrodomésticos, bijuterias e relógios para o público interessado.

A participação também é parte de Arquitetura Refletida, painel fotográfico com imagens do ritual religioso do círio de Nazaré e do carnaval de Folkstone. A obra só é revelada depois que os visitantes descascarem a camada prateada feita do mesmo material das “raspadinhas” das casas lotéricas que encobre a composição. A exposição O que Não Tem Conserto é formada, ainda, pelos trabalhos Foguinhos (2015) e Arquitetura Indomável (2015) que, cada um à sua maneira, são como maquetes.

Além da mostra de Tonico Lemos Auad, o Pivô também inaugura neste domingo, 5, a exposição Deserto-Modelo, de Lucas Arruda. Trata-se de desdobramento da individual que o artista realizou no ano passado na Galeria Mendes Wood DM. “É a minha primeira instalação”, diz o pintor, que adensa agora sua experimentação com projeções de slides.

Nessa nova versão expositiva, a pintura de paisagem continua a ser o foco da pesquisa de Lucas Arruda. Relações entre céu e terra/ dia e noite são condensadas pelo jogo direto com a luz, seja através dos projetores e de slides pintados à mão, como também nas pequenas - e belas - telas do artista.

TONICO LEMOS AUAD LUCAS ARRUDA

Pivô. Edifício Copan - Avenida Ipiranga, 200, Bloco A, loja 54, tel, 3255-8703. 3.ª a 6.ª, 13 h/ 20 h; sáb., 13 h/19h. Grátis. Até 30/5. Abertura domingo, às 17 horas 

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