Capitu, Brecht, Bentinho e Janis Joplin

Misto de linguagens da microssérie que acabou sábado é bom exemplo de como divulgar a literatura entre os jovens de hoje

Beatriz Resende *, O Estadao de S.Paulo

16 Dezembro 2008 | 00h00

Capitu, microssérie que terminou sábado, na Rede Globo, é, sem dúvida, mais do que um marco em termos de transposição de um clássico da literatura brasileira para outro suporte, é uma excelente ocasião para pensarmos nas possibilidades hoje disponíveis para divulgação da literatura e da cultura, em geral, e, em particular, para a generosidade que se impõe na partilha necessária do prazer que a genialidade de um autor como Machado de Assis pode proporcionar. Neste momento em que os conservadores de plantão andam ocupados em demonizar a internet, culpando-a por todos os males possíveis, não só no afastamento de eventuais leitores do livro em papel, como de todas as outras práticas disciplinadas de aquisição da cultura formal, podemos aproveitar a trégua e repensar a importância que o mais forte instrumento de divulgação da informação no Brasil, a televisão, pode ter para apresentarmos a todos o fascínio de um texto como Dom Casmurro. E é dessa necessidade de mostrar, de tentar convencer, de apresentar mesmo: "prazer, Joaquim Maria, prazer, Rodrigo"; "prazer, Daniela, prazer, Joaquim, mas pode me chamar de O Bruxo do Cosme Velho se você não se assustar com isso", que falo. Dentre as obsessões pedagógicas que nos assolam está a que determina a necessidade de nossos jovens lerem os grandes romances de Machado de Assis. De saída, esquecemos de toda uma geração anterior a estes adolescentes transbordando hormônios, a de seus professores e pais, que também não conhecem as maravilhas, os prazeres, o divertimento que estão naquelas páginas. Vamos ser sinceros, Machado de Assis não escreveu para jovens, escreveu para os donos do poder, escreveu para os formadores de opinião - como diríamos hoje -, escreveu para os poucos que faziam a política, para os que pretendiam zelar pela moral vigente, escreveu principalmente para posteridade, já que, descrente da realidade escravista em que viveu, confiava ainda num país e numa literatura a serem construídos. Vejamos, pois, como começa o livro de Machado e como começa - exatamente da mesma forma - esta pequena obra-prima de um mundo feito de textos e imagens criado por Luiz Fernando de Carvalho: "Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu." Para quem perdeu o início, vale dizer que a frase perfeita é escrita a bico de pena na tela. Em seguida, o personagem, homem envelhecido e cansado que dormitava no trem, incapaz de ouvir os versos que o jovem lhe exibia, se apresenta ao leitor: "No dia seguinte, entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam de meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou." * Um início como este, com sua amarga e sofisticada sabedoria, afastaria facilmente qualquer jovem espectador. Mesmo a "prezada leitora", guardaria suas forças para algum seriado enlatado. No entanto, o cansado Bento Santiago, num trem contemporâneo, devidamente pichado, surge ao espectador na pele de um Michel Melamed tornado uma espécie de clown, deformado, ágil, por vezes cômico, por vezes trágico. Michel é, ele mesmo, um performer, experimentador constante de novas linguagens, parceiro ideal das inovações ousadas pelo diretor. É na segunda metade da série, porém, que o virtuosismo de Melamed e a habilidade dos realizadores chega à perfeição, quando a Melamed cabe ser o narrador (com textos absolutamente fidedignos) e o personagem, partilhando, como no romance, a sedução e loucura que envolve Capitu. Daí em diante a microssérie continua neste tom: ler Dom Camurro na vivência da simultaneidade que caracteriza o século 21, garantindo ao leitor que a obra não pede clausura. A trilha musical de Tim Rescala é garantia dessa possibilidade, e quando Janis Joplin, este misto do desequilíbrio de Bentinho com a fascinação de Capitu, toma a cena, envolve a cena, dá vontade de levantar para aplaudir. Mas não é nem o entusiasmo hipnótico nem a catarse paralisante que o espetáculo audiovisual quer provocar. Prova disso é o uso do recurso criado por Machado de Assis e aqui retomado com ênfase depois que todos nós lemos Brecht. Diferentemente dos romances destinados a embalar as leitoras em suas horas de ócio, a narrativa de Machado entrecorta o relato em trechos curtos, encimados por títulos que, muitas vezes, antecipam a ação. A obra de Carvalho, em suas inspirações teatrais, usa os mesmos subtítulos à maneira como Brecht interrompe a cena com seus cartazes, com dizeres destinados a chamar à razão o espectador embalado pelo prazer estético, pelo fascínio enigmático da fábula. Afinal, disse Machado, "o destino não é só dramaturgo, é também seu próprio contra-regra". Da mesma forma, cenário e figurino revelam detalhes que já estavam presentes no romance e muitas vezes nos passaram despercebidos. Esclarecem esses indícios fabricados pelo autor não pelo realismo, que mataria a obra, mas por indicações novas: o delírio que leva o Bento solitário a reconstruir com grandeza a casa da infância, em Matacavalos: "A pintura do teto é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam no bico, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras da estação." Como também é suntuosa a figura da irresistível Capitu mulher, partilhando dos figurinos comuns naquela família onde as condições financeiras permitiam que qualquer contrariedade fosse aplacada em Paris, deixando de lado o cenário carioca reproduzido em filmes ou na memória. A inesquecível cena do baile põe todo este excesso em evidência na vida da família que, a todo momento - como repete por duas vezes a série - "manda-se um preto lá avisar..." Resta Capitu, Letícia Persiles, mais velha que Bentinho, evidenciando que diante de uma mulher, "garotos são só garotos". Maria Fernanda Cândido consegue um feito raro, olha para o espectador, seu cúmplice, como diz o romancista em um momento menos citado: "Os olhos de Capitu, ao receber o mimo, não se descrevem; não eram oblíquos, nem de ressaca, eram direitos, claros, lúcidos." Agora o trabalho é nosso: mostrar a jovens e adultos o quanto a obra de Assis tem a ver com nossa vida contemporânea, mesmo quando, como aconteceu na microssérie, o ritmo é acelerado demais. *Recorro aqui à cuidadosa edição da Ateliê Editorial, de 2008, com apresentação de Paulo Franchetti, notas e comentários de Leila Guenther, ilustração de Hélio Cabral. A elegante publicação é exemplo de meu argumento: aproxima o texto do leitor menos iniciado, indica leituras aos estudiosos, facilita o acesso ao vocabulário aos jovens distantes no tempo nas formas vernaculares usadas, mas jamais infantiliza, reduz, interpreta ou explica - perigo maior que freqüentemente atinge que esta obra, toda feita de ambigüidades. * Beatriz Resende é coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e autora de Contemporâneos - Expressões da Literatura Brasileira no Século 21

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