Capitu, ainda alvo de debate, ganha novas versões

Minissérie de TV, romance e cartas de Machado lançam novo olhar sobre ela

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2008 | 00h00

O homenageado da 6ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Machado de Assis (1839-1908), criou um problema para estudiosos de literatura no Brasil, que não ousam afirmar categoricamente ter Capitu, a mulher de ''olhos de cigana oblíqua e dissimulada'', traído ou não Bentinho, ou Dom Casmurro, seu marido advogado e ex-seminarista, que a acusa de adultério. O ''promotor incompetente'', no entanto, é incapaz de apresentar provas concretas de sua traição, defende o escritor e diplomata Sérgio Paulo Rouanet. O homem que criou a lei de incentivo à cultura com seu nome participou domingo da mesa Papéis Avulsos, dedicada a discutir a obra de Machado com a também acadêmica Ana Maria Machado e o cineasta Luiz Fernando Carvalho, todos eles envolvidos com projetos para lembrar o centenário de morte do autor.Rouanet lança até o fim do ano o primeiro volume da correspondência reunida de Machado de Assis. Ana Maria Machado é autora do romance A Audácia Dessa Mulher, publicado em 1999 e agora relançado pela Nova Fronteira, que revisita a Capitu de Machado para reconstruir sua identidade, maculada pela visão chauvinista do ciumento Bentinho. Luiz Fernando Carvalho vai dirigir uma minissérie para a Globo em que, adianta, não pretende esclarecer a possível traição de Capitu, mas, antes , reforçar o enigma que Machado deixou para seu leitor resolver.Para Rouanet, Bentinho não seria a chave a Dom Casmurro (1899) por ser ambivalente. ''Ele ama e odeia Capitu, que culpa de tudo sem apresentar provas, testemunhando contra si mesmo.'' Machado queria que o leitor acreditasse na culpa de Capitu, segundo o diplomata, conduzindo-o por uma estrada bifurcada em que teria ele mesmo de decidir qual o caminho tomar, respondendo por suas decisões morais. A pista de leitura, portanto, não estaria no ciumento Otelo de Shakespeare, mas em Hamlet, lembrou Rouanet, reforçando a opinião de Luiz Fernando Carvalho, que definiu Machado como um ''escravo do triângulo amoroso'' desde seu primeiro romance, Ressurreição (1872).Ana Maria Machado tenta, em A Audácia Dessa Mulher, explicar que esse triângulo escaleno, em Dom Casmurro, pode virar equilátero desde que se conheçam as razões de Capitu, o que ela faz revelando, num misto de diário e caderno de receitas, a versão de Capitu para os fatos, analisados apenas pelo olhar patriarcal de Bento Santiago. A acadêmica afirmou que o romance de Machado, nesse sentido, tem como equivalente francês o clássico Madame Bovary (1857) de Flaubert, ambos acenando com uma ''nova possibilidade de desejo'' em que a mulher é protagonista. Machado, num lance de protofeminismo, teria, segundo ela, usado a ironia para criticar a hipocrisia da sociedade brasileira do Segundo Império, recorrendo à metalinguagem justamente para acentuar sua cumplicidade com o leitor.

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