Canudos (Diário de uma expedição)

Canudos, 10 de setembroCanudos (Diário de uma expedição)   Leia a íntegra do artigo...E vingando a última encosta divisamos subitamente, adiante, o arraial imenso de Canudos.Refreei o cavalo e olhei em torno. (...)As inúmeras colinas (...) levantam-se dentro de uma elipse majestosa de montanhas. Olhando para a direita, avultam as cumeadas da Canabrava, Poço de Cima e Cocorobó ligando-se à esquerda com as do Calumbi, Cambaio e Caipã - infletindo a leste e a oeste uma curva amplíssima e fechada, com um eixo maior de doze léguas e um menor, de nove, traçando uma elipse perfeita.Dentro dela estende-se a região caótica, irregularmente ondulada, em cujo centro, aproximadamente, se ergue Canudos. (...)Levanta-se sobre oito ou nove colinas, suavemente arredondadas umas, terminando outras em rampas fortíssimas.Visto de alguma distância, porém, parece uma cidade plana, mais abrigada, à direita, pelos acidentes um pouco mais fortes do solo, que, da Favela à Fazenda Velha, se ligam à última trincheira fechando a estrada do Cambaio (...).Do alto da trincheira Sete de Setembro (...) quem observa tem a impressão inesperada de achar-se ante uma cidade extensa, dividida em cinco bairros distintos e grandes, revestindo inteiramente o dorso das colinas.É um quadro surpreendente, o deste acervo incoerente de casas - todas com a mesma feição e a mesma cor, compactas e unidas no centro de cada um dos bairros distintos, esparsas e militarmente dispostas em xadrez nos intervalos entre eles. (...)À esquerda da linha definida pelo observador e a parede anterior da igreja nova, acha-se a parte rica - casas de telhas avermelhadas e de aparência mais correta, um tanto maiores que as demais e mais ou menos alinhadas num arremedo de arruamento. Estendendo-se em torno destas, apresentam-se, numerosíssimas e como que feitas por um único modelo, as casinhas que constituem a maior parte do clã de Antônio Conselheiro.Feitas de pau a pique e divididas em três compartimentos, no máximo, são como que uma paródia grosseira da antiga casa romana. (...) Cobertas de uma camada de cerca de quinze centímetros de barro, lembram neste ponto as casas dos gauleses de César. Os nossos rudes patrícios têm, porém, um material mais apropriado nas placas largas da rocha predominante da região, que ainda quando decomposta conserva a estratificação primitiva. Assentam-nas sobre as folhas resistentes de icó.É uma cobertura eterna - e Canudos, como um vastíssimo Kraal africano, pode durar mil anos, se o bombardeio e os incêndios não o destruírem breve.Tenho-a percorrido toda, de longe, cansado de acomodar a vista às lentes dos binóculos. Dois meses de bombardeio permanente não lhe destruíram a metade sequer das casas (...). Se, considerando esta aldeia sinistra, se avaliam todas as dificuldades de um combate travado em seu seio, observando os arredores vê-se que deve ter sido dificílima a investida feita contra ela pelas nossas tropas. Qualquer secção transversal, neste terreno caprichoso, determina, desenhada, uma sinuosa. A marcha realiza-se ou seguindo pelos meandros dos pequenos vales ou em sucessivas e inevitáveis subidas e descidas, numerosas e fatigantes (...).Nada mais perigoso e difícil do que a marcha de um exército em tais lugares; é como se atravessasse o recinto complicado de uma fortaleza. Cada batalhão, cada brigada, o exército inteiro é fatalmente batido por todos os lados pelo inimigo invisível sempre (...).Nos combates cruentos de 18 de julho ostentaram-se, de modo notável, estas condições táticas formidáveis. Percorri o campo da batalha com o meu colega Gustavo Guabiru, e ele, que foi um dos protagonistas da luta, mostrou-me pontos em que meia dúzia de homens rarearam as fileiras de multas brigadas. (...)Numa das colinas, no alto, sob a ramada sem folhas de um umbuzeiro, o meu colega mostrou-me uma cavidade circular de pouco mais de meio metro de profundidade.Ali esteve no dia da peleja um único homem; e esse homem torturou batalhões inteiros!Ninguém o podia distinguir. Os tiros rápidos da Mannlicher que sopesava (...) caíam repetidos, numerosíssimos, em cheio, dentro das fileiras. Era uma fuzilaria tenaz, impetuosa, mortífera, formidável, jogando em terra pelotões inteiros e feita por um único homem. (...) Ainda lá estão as cápsulas detonadas. Contei 361.361 tiros deu aquele ente fantástico e talvez perdesse muito poucas balas.E não morreu. Por acaso uma fração das forças tomou em acelerado a direção da trincheira. Ele surgiu numa última explosão terrível e desapareceu prestes caindo pela encosta abrupta...Ora, pelo alto de todas as tombadas que atravessei, apareciam as mesmas trincheiras cavadas com uma disposição inteligente umas relativamente às outras cruzando os fogos da maneira mais eficaz, e dentro de todas elas os cartuchos detonados patenteavam o mesmo açodamento na peleja.Não será por isto difícil demonstrar - e fá-lo-ei muito breve - que a batalha de 18 de julho é um dos feitos de armas mais notáveis da nossa história militar. E.C. Nota da Redação: A grafia deste texto foi atualizadasegundo as regras doNovo Acordo Ortográfico.Foram preservadas, no entanto, a pontuação e as construçõessintáticas originais do autor, a fim de não alterar seu estilo

Walnice Nogueira Galvão, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

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