Cantora cada vez mais é catalisadora de boas ideias

É que há verdade entre intenção e gesto. É que a necessidade coincide com a capacidade de se reinventar. Por essas e outras virtudes, Zélia Duncan, de certa forma, representa hoje como compositora o que foi Elis Regina como intérprete: é uma agente catalisadora de artistas músicos e boas ideias. O novo para ela sempre vem, mas não é qualquer um. Novos cantores/as, compositores e bandas tentam a qualquer custo causar impacto hoje. Grande parte do que aparece, porém, já vem com botox e photoshop acoplado ao organismo. Os CDs ficam limpinhos, as vozes afinadas por mil truques de estúdio, mas vai ver ao vivo o desastre que é. Em Nem Tudo, parceria com Edu Tedeschi, que encerra o CD, Zélia manda o recado: "Nem tudo que reluz corrompe/ Nem tudo que é bonito aparenta." Além da consistência, conta muito a naturalidade da ação dela e de seus agregados - não só compositores, mas instrumentistas, entre eles os bateristas Curumin, Antonio Pinto e Mariá Portugal, o baixista Thiago Braga, o múltiplo Marcelo Jeneci e os produtores John Ulhoa e Beto Villares. Isso fica nítido na fluência de Pelo Sabor do Gesto, da primeira à última faixa. Zélia fez questão de manter a respiração, recuperando o que o técnico de som tinha "limpado" no computador. Não tem bisturi nem maquiagem para disfarçar nada. "Demorei muito tempo para ter essas marcas de expressão", brinca a cantora, comparando o som do disco com os vincos faciais que vão do nariz às extremidades da boca.Melhor comparação não há. O que se tem registrado nesse disco são suas profundas marcas de expressão. O elemento folk, que agora virou modinha, volta a dar as caras reafirmando aquilo que é uma marca de sua personalidade musical desde o início. Há, como ela diz, um "gosto vintage" na sonoridade meio nostálgica - mellotron, ukulele, banjo, bandolim, cravo, teclado wurlitzer - combinada com programações eletrônicas, beatbox e trio básico de baixo, guitarra e bateria.Zélia se transforma em outras com os parceiros, como no funk Esporte Fino Confortável (com Chico César, que faz duo vocal com ela), e também reconfigura para seu aconchego de maneira surpreendente as pérolas garimpadas de outros tempos e autores. Lindas, Ambição, Telhados de Paris e Os Dentes Brancos do Mundo soam como inéditas de tão saborosamente novas. É que há verdade entre intenção e gesto. E a delicadeza também se faz urgente.

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