Cantor teve fase política com Taupin

Nos anos 1970, os dois escreveram sobre genocídio indígena e repressão

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

16 de janeiro de 2009 | 00h00

Sir Elton Hercules John mal tinha acabado de renegar o nome Reginald Kenneth Dwight quando encontrou seu parceiro mais constante de carreira, o letrista Bernie Taupin, três anos mais jovem. Foi em 1967. Elton John tinha 20 anos e Bernard John - Bernie, para os amigos - mal acabara de completar 17. Respondendo a um anúncio de Elton, que buscava um parceiro letrista, Bernie chegou com algumas ideias na cabeça e uma ou duas doses além do habitual (ele começou a beber muito antes da idade legal). Desde os 15 estava fora da escola, jogando sinuca nos bares ou errando pelas estradas com amigos vadios. Era, enfim, o protótipo do desgarrado, que cansou de cair de joelhos na igreja de Market Rasen, Lincolnshire, clamando perdão por seu comportamento nada exemplar (Bernie foi coroinha da Holy Rood Catholic Church, onde se casou com a ex-mulher Maxine Fiebelman). Canções e letras traduzidas Pode parecer estranho falar tanto de Bernie Taupin quando Elton John está na cidade fazendo um show, mas foram as lembranças da infância e adolescência do letrista que deram forma às primeiras - e mais densas - canções do músico inglês. Pegue, por exemplo, quatro dessas canções: Indian Sunset, Sixty Years On, Talking Old Soldiers e Ticking. Todas falam ou da infância ou do imaginário infantil de Taupin, mas, não fosse a sensibilidade melódica de Elton, seriam apenas poemas marcados pela influência da literatura beat ou francamente inspirados na produção poético- religiosa de Gerard Manley Hopkins. Os dois produziram juntos - acredite - música séria, antes de Elton John virar ícone pop (nunca esquecendo que ele foi garoto prodígio da Royal Academy of Music). Infelizmente, é a parte menos conhecida de sua história.Antes de vestir aquelas roupas extravagantes e botas de sete léguas, Elton John cantou o genocídio indígena (em Indian Sunset, 1971, faixa do disco Madman Across the Water), a solidão de velhice (Sixty Years On, 1970, do disco Elton John, reproduzida ao lado), a bestialidade da guerra contada por um soldado morto (Talking Old Soldiers, 1971, do disco Tumbleweed Connection) e a violência provocada pela repressão (Ticking, 1974, do disco Caribou). Ticking é a antevisão de um fenômeno urbano que se espalhou feito uma praga, o do crime sem explicação aparente praticado por reprimidos. Trata de um garoto "extremamente calmo", de ficha escolar irretocável, que mata um garçom negro num bar chamado A Mula Manca, em Queens. O "caucasiano" intranquilo, cercado pela polícia, joga a arma ao chão, sai do bar de mãos para cima e "dança feito uma marionete nas mãos da lei", que o enche de chumbo sem piedade. O mesmo destino do índio iroqui massacrado pela cavalaria na comovente Indian Sunset, fruto da fixação de Taupin na sangrenta história do Oeste americano. Pena que Elton John tenha trocado a vocação trágica pela roupa de palhaço. melancólica Sixty Years On"Quem me levará para passear quando eu estiver com 60 anos?Quando o cão estropiado que me deram já estiver em sua cova há dez anos?E uma senhorita tocar violão só para ti?Quando meu terço quebrar e suas contas se espalharem pelo chão?Pendura teu casaco no cabide e depois guarda tua armaSabes que a guerra que travastes não foi nenhuma brincadeiraE o futuro que me reservas não é outro além de uma armaNão quero viver depois dos 60Senta-te a meu lado e deixa teus olhos reviveremBem sei que minhas orações são as mesmasE Madalena toca o órgão só para tiA vela sagrada queima devagar ao passaresE o futuro que me reservas não é outro além de uma armaNão quero viver depois dos 60."CANÇÃO DO LP ELTON JOHN, LANÇADO EM 1970

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