Cantet, pouco antes de levar a Palma

Em entrevista exclusiva ao Estado, cineasta fala de Entre les Murs e diz que vencer 'teria grande efeito na vida de todos nós'

Luiz Carlos Merten, CANNES, O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2008 | 00h00

Laurent Cantet lembrava-se do repórter do Estado, a quem encontrara no Festival do Rio, quando foi ao Brasil para mostrar Vers le Sud, com Charlotte Rampling. Cantet faz filmes fortes para discutir temas políticos - a relação entre países pobre e ricos transformada em turismo sexual no filme anterior; aqui, os conflitos que explodem numa sala de aula de Paris. Embora representativa das questões sociais que agitam a França de Nicolas Sarkozy, ele não quis fazer um filme caracteristicamente sobre uma escola de periferia, o que lhe parecia uma facilidade. Ele procura levar as tensões sociais mais para o centro do poder. Ontem, por volta do meio-dia, no terraço do Grand Hotel, Laurent Cantet concedeu a seguinte entrevista para o Estado, horas antes de ganhar a Palma de Ouro por Entre les Murs. Veja galeria de fotos de Cannes Foi uma atitude corajosa de sua parte fazer um filme sobre a escola pública na França, sem sair da sala de aula. Você partiu do pressuposto de que o que se passa ?entre les murs? vale como representação do mundo?Há tempos que eu queria fazer um filme sobre o sistema educacional, sobre adolescentes e seus professores. O desejo estava latente em mim, que tenho filhos, vivo cercado de adolescentes e sei como é difícil fazer os jovens falarem, mesmo em família. Eles dizem só o que querem. Havia, portanto, esse desejo, mas eu não queria, acima de tudo, fazer um filme conceitual. Foi quando descobri o livro de François Bégaudeau, lançado no fim de 2006 e que rapidamente se tornou um sucesso editorial na França. François relata sua experiência como professor na escola pública. É alguém de dentro, que pode falar na primeira pessoa. Ele me forneceu justamente o ponto de partida de que necessitava para a abordagem mais naturalista, ou realista, que queria fazer. Este, mais até do que meus filmes precedentes, se constrói na pele dos atores, na sua sensibilidade.François disse que adora cinema e já fez crítica. Ele foi abordado por outros diretores, mas escolheu você por uma questão de confiança. Ele achou que com você seria possível prosseguir numa vertente do cinema francês que vai de Jean Renoir a Maurice Pialat, a melhor, segundo ele, para contar essa história.E eu concordo. Não faria sentido, pelo menos na nossa visão, dele e minha, fazer outro filme que não tivesse o compromisso de se construir na pele e no sangue dos personagens. Tenho falado com muitos jornalistas aqui em Cannes e eles estão impressionados com o que lhes parece o realismo à flor da pele de Entre les Murs. Definem o filme como uma mistura de documentário e ficção. Posso dizer que é uma ficção muito bem documentada. François fala sobre a escola pública que conheceu e na qual trabalhou, até dois anos atrás, antes de virar escritor. Tudo no filme é rigorosamente verdadeiro, mas um dos episódios mais fortes - a expulsão de Suleymane - é ficção pura. O conselho de classe que se decide pela expulsão é totalmente fictício, mas baseado no que ocorre com freqüência na escola pública. De resto, a mãe de Suleymane no filme não é a mãe dele, mas uma nativa do Mali, porque era necessário preservar a questão da língua. Só para voltar à sua questão anterior. Chegamos a filmar toda a história de Suleymane e seu retorno para Mali, após a expulsão, mas na montagem eu vi que não funcionava e era interessante para o filme ficar entre os muros da escola (e da sala de aula).A questão da língua é muito importante. Há um incidente grave que decorre justamente de uma palavra à qual o professor atribui um significado, o culto - étasse -, mas que na perspectiva de uma das garotas pode fazer dela uma prostituta.François é professor de francês e esse incidente é relatado no livro. Percebi imediatamente que ele não poderia faltar. Aliás, todas as cenas de aula, quando ele leva a língua mais acadêmica para a sala de aula produz instantes divertidos porque o choque com a garotada é inevitável. Mas a intenção era refletir sobre isso, sim, a diferença e até a oposição entre a língua culta e a língua viva das ruas. A França é o país de Molière, mas há um linguajar muito rico nas ruas. Poderia dizer que ele talvez esteja corrompendo a língua clássica, mas o filme absolutamente não quer formular juízos de valor sobre nem contra ninguém. Não queríamos julgar - nem François em seu livro nem eu no filme.Em que momento você decidiu fazer o filme com ele?Tenho de dizer que, se tivesse feito Entre les Murs com um ator profissional, o filme fatalmente seria outro. Acho que só encontrei mesmo o meu norte quando decidi propor a François e ele nem precisou de muito tempo para aceitar. A partir daí, o filme ficou mais fácil de imaginar e, depois, de filmar.E os adolescentes?Eles foram escolhidas por meio de testes. Freqüentam a mesma escola, não aquela em que François lecionava, não na mesma sala, mas muitos se conheciam. As duas garotas que são as mais distantes na trama são amigas desde a infância. Houve um trabalho de ateliê (laboratório) que preparou todos eles para a atuação.Você filmou com três câmeras. Por quê?Queria obter o máximo de realismo dentro da sala de aula, captando o humor e as réplicas entre o professor e os estudantes, que muitas vezes são taco no taco. François adora isso, eles, também. Usei três câmeras digitais, e o resultado me pareceu muito rico. Tínhamos muito material e a edição terminou demorando mais do que o normal em meus filmes, cerca de quatro meses.Você concorre em Cannes pela primeira vez. Leva a Palma?Acho que só o fato de estar aqui com esta garotada, colocando questões importantes para os espectadores, vai ter um grande efeito para todos nós, para a vida deles. Ganhar ajudaria muito no lançamento, mas o debate está sendo satisfatório.O filme estréia em outubro. Isso significa que você não poderá ir ao Festival do Rio?Vai ficar muito em cima, mas adoraria. Gostei muito do Brasil, do festival.No Brasil, o documentário Ser e Ter, de Nicolas Philibert, fez sucesso de público e crítica. Ele foi referência?Nicolas fez um filme sobre uma escola muito particular. Eu queria enfrentar os problemas da escolas pública. Ele teve problemas com o professor de seu filme, eu colaborei intensamente com o meu. Diria que, se houve referência, foi a do que queria evitar.

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