Cantador do Brasil pela fotografia

Araquém Alcântara, pioneiro do registro da natureza nacional, lança hoje o livro Fauna e Flora Brasileiras, sua 34.ª publicação

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

27 Agosto 2008 | 00h00

Segundo o fotógrafo Araquém Alcântara, o artista tem de seduzir as pessoas com seu modo de ver o mundo e, assim, espalhar benefícios. Em 2010, ele completa 40 anos de carreira, sendo considerado um pioneiro da arte de fotografar a natureza brasileira - fauna e flora - na extensão de todos os seus ecossistemas e regiões. "Sinto-me um cantador do Brasil e me considero um precursor no sentido se sistematizar uma documentação que antes era muito esparsa. Quero com as minhas fotografias levar uma sensação de encantamento e orgulho ao mostrar a largueza de um continente que as pessoas dificilmente veriam", diz Araquém Alcântara. Além de fazer palestras e exposições - pelo Brasil e pelo mundo -, o fotógrafo tem como artifício espalhar seu trabalho por meio da publicação de livros. Hoje, na Fnac Pinheiros, ele lança a obra Fauna e Flora Brasileiras, pela editora Bei, 34º livro de sua trajetória. O próprio Araquém Alcântara, responsável pelo livro de fotografia mais vendido do País, o TerraBrasil (1997) - está na casa dos 82 mil exemplares -, tem uma editora, também intitulada TerraBrasil. Mas agora a editora Bei o convidou a fazer a edição de Fauna e Flora Brasileiras para dar início à Coleção Brasil, sobre temas do patrimônio natural e cultural nacionais. "É um livro mais acessível e educativo", define o fotógrafo. O formato da publicação, bilíngüe (português/inglês) não é o de livro luxuoso de arte, mas reúne uma seleção de 120 belas imagens (muitas delas inéditas) de Araquém, realizadas na última década. A edição apresenta a Amazônia, cerrado, caatinga, mata atlântica e zona costeira, Campos do Sul e Pantanal nas fotografias que não apenas registros documentais de exemplares da fauna e flora do Brasil, mas registros de um olhar poético de um andarilho. "No fundo, sinto-me um menino de 57 anos que fotografa apaixonadamente. Minha foto é poética e engajada numa ideologia, acredito que a imagem ajuda a transformar", afirma o fotógrafo. E dois outros pontos desse livro são, também, o cuidadoso trabalho de dedicar legendas específicas e científicas para cada imagem de espécie animal e vegetal além de, no fim do livro, reservar uma lista de sugestões de parques, museus e localidades de todo o Brasil onde se pode encontrar e ver de perto as maravilhas retratadas pelo fotógrafo. Natural de Santos, Araquém Alcântara é formado em jornalismo. Como ele conta, começou sua carreira fotografando as prostitutas no Porto de Santos e o cais de sua cidade até que, por meio de trabalhos para a imprensa - trabalhou no Estado entre 1977 e 1985 -, foi adentrando para os lados de Cubatão e do Vale da Morte. "Aí entrei na mata atlântica e me iluminei: ali estava o divino, o eterno e pensei que precisava celebrar aquilo", diz o fotógrafo. Agora, ele se orgulha de ter, em seu escritório, lado a lado, como portraits o retrato de uma prostituta e o de um gavião-real (também chamado harpia), considerada a maior ave de rapina do Brasil, fotografado na Amazônia e reproduzida em imagem presente no alto da página - como já se disse, suas fotografias de natureza não são mero registro documental. Dessa maneira, de suas andanças pelo Brasil ele pode dizer que "a vida é melhor com passarinhos, água, bichos e naturezas". "O mundo está perdendo 6 milhões de quilômetros de floresta primária a cada ano, desde 2000, sendo que na América Latina estão dois terços dessa queda", diz o fotógrafo. Tantas outras estatísticas Araquém tem em mãos sobre os ecossistemas brasileiros - que 20% da Amazônia já se foi assim como metade do cerrado, que 52% das espécies brasileiras estão em extinção -, mas o que importa é a idéia principal: estamos já acostumados a ver esses números e quase nada de ação. "É necessária uma revolução científico-tecnológica na Amazônia, uma política ambiental séria e educação: desde o primeiro ano de idade já se deve saber que temos a maior floresta do mundo, que pode acabar dizimada", afirma ainda. Como ele tem tanto material sobre esse campo e como ele não pára, já conta que está quase terminando mais três livros alentados a serem lançados por sua editora em dezembro: Bichos do Brasil, Cabeça do Cachorro (com trabalho realizado com o médico Drauzio Varella na região noroeste da Amazônia) e A Mata Atlântica. Além disso, já prepara ampla mostra retrospectiva para apresentar em 2010, provavelmente, na Pinacoteca, a ocasião para celebrar 40 anos de trajetória.

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