Cannes abre a festa com animação

Up, desenho da Pixar, inaugura a mostra, que este ano faz celebração de gêneros

Luiz Carlos Merten, CANNES, O Estadao de S.Paulo

13 de maio de 2009 | 00h00

Aos 27 anos, o palácio do Festival de Cannes - o ?palais?, ou bunker, como é chamado - ainda possui uma das melhores telas do mundo, equipada para projeções digitais e em 70 mm. Pois essa tela gigantesca já é considerada obsoleta. O maior evento de cinema do mundo, que começa hoje na Croisette, vai marcar o adeus a esse ?velho? palais. No dia seguinte à atribuição da Palma de Ouro no dia 25, o bunker fecha para reforma. O 62º Festival de Cannes tem um caráter de adeus. Um novo palais estará nos trinques em 2010.Luz, câmera, ação! A maratona vai recomeçar. Uma animação da Disney Pixar, Up, de Peter Docter, inicia hoje, fora de competição, o 62º festival. Entre Un Prophète (O Profeta),de Jacques Audiard, e Antichrist (O Anti-Cristo), de Lars Von Trier), Deus e o Diabo na Croisette, a seleção do festival de 2009 é sob medida para dar dor de cabeça à presidente do júri, a atriz Isabelle Huppert. Duas vezes vencedora do prêmio de melhor atriz neste festival - por Violette Nozière, de Claude Chabrol, e A Pianista, de Michael Haneke -, Isabelle terá de avaliar o novo filme do segundo, que integra a seleção oficial. Le Ruban Blanc, como todo filme de Haneke, chega a Cannes precedido de expectativa, mas, honestamente, na seleção deste ano há talentos muito mais gloriosos com que se ocupar. Duvidam?Alain Resnais participa da competição com Les Herbes Folles. Há 50 anos, nos primórdios da nouvelle vague, ele ganhou o prêmio da crítica com um dos filmes-faróis do cinema moderno, Hiroshima, Meu Amor. Desde então, Veneza foi bem mais sensível à grandeza de Resnais. Será chegada agora a hora da justiça ?cannoise? a um dos maiores do cinema? O problema é que Cannes também deve uma Palma de Ouro a Pedro Almodóvar e Pedrito está de volta à Croisette disposto a ganhar o prêmio, que reclama há anos, com Los Abrazos Rotos. Quatro vencedores adorariam bisar suas Palmas - o citado Lars Von Trier e também Ken Loach, que volta à competição com Looking for Eric; Jane Campion, que concorre com Bright Star; e Quentin Tarantino, que chega em clima de já ganhou com seu épico de guerra estrelado por Brad Pitt, Inglorious Basterds.Provocadores notórios, como o filipino Brillante Mendoza e o franco-argentino Gaspar Noé - ambos adoram cenas de sexo nos limites do explícito -, podem fazer barulho com Kinatay e Enter the Void (De Repente, o Vazio). E o que dizer do italiano Marco Bellocchio (Vincere), dos coreanos Park Chan-wook (Bak-Jwi, Beba, Este É Meu Sangue) e Johnny To (Vengeance, Vingança) e dos chineses Ang Lee e Tsai Ming-liang, que concorrem com Taking Woodstock e Visage (Rosto)? Vários países estão conseguindo bisar e até cravar três concorrentes. A vertente chinesa divide-se entre a China, propriamente dita, e também Hong Kong e Taiwan. A França, dona da casa, além de Resnais e Audiard, concorre com À l?Origine, de Xavier Giannoli. A Espanha, além de Almodóvar, traz também Isabel Coixet, uma habitué de grandes festivais, com Map of the Sounds of Tokyo.Responsável pela seleção, Thierry Frémaux diz que Cannes não privilegia países nem cinematografias. Para estar aqui, só o que conta é a qualidade, ele jura. Apesar da crise econômica, Frémaux está animado com sua seleção e garante que a deste ano prova a capacidade do cinema de se reinventar. É mesmo uma seleção de grandes nomes. Até os ?novos? já passaram pelo crivo de Cannes. Andrea Arnold, de Fish Tank, já ganhou o Oscar de curta e concorreu à Caméra d?Or, a Palma de Ouro dos diretores estreantes, com Red Road. O chinês Lou Ye é outro que não é exatamente um principiante em grandes festivais. Aqui mesmo, em Cannes, ele já exibiu Summer Palace, que as autoridades chinesas haviam tentado, em vão, impedir que chegasse à Croisette. Ei-lo que traz sua Chun Feng Chen Zui de Ye Wan (Noite Primaveril de Embriaguês). É uma seleção tão requintada que se deu ao luxo de despachar o novo Francis Ford Coppola, uma coprodução ítalo-franco-argentina, Tetro, para a Quinzena dos Realizadores. Grandes autores foram parar em mostras paralelas. O japonês Hirokazu Kore-eda está em Um Certain Regard com Kuki, como o francês Alain Cavalier, com Irène. O Brasil não participa da competição, mas está bem representado. Eduardo Valente terá uma sessão especial de No Meu Lugar no palais; Heitor Dhalia cravou À Deriva em Un Certain Regard; e dois curtas de Vera Egito estarão na Semana da Crítica.Para dar a lição de cinema deste ano, Cannes convidou ninguém menos do que os irmãos Dardenne. Martin Scorsese volta a apadrinhar Cannes Classics, que este ano traz a versão restaurada de A Aventura, de Michelangelo Antonioni - e uma imagem de Monica Vitti no filme virou o cartaz do 62º festival. Em termos de qualidade, a expectativa é grande, mas o glamour de Cannes poderá ser atropelado pela crise. Muitas festas foram canceladas e até, segundo se conta - mas a direção não confirma -, muitos jornalistas credenciados já avisaram que não vão. Champanhe, pelo menos, vai rolar. A Möet já enviou os credenciamentos para um coup de champagne em sua tenda na praia. Cannes sem champanhe nem starletes nunca seria a mesma coisa. Monica Bellucci e Brad Pitt - com ele deve vir Angelina Jolie, claro, se os boatos da separação dos dois não se confirmarem - estarão a postos para fazer da montée des marches, a subida da escadaria do palais, o maior espetáculo do mundo. Concorrentes À L?ORIGINE, de Xavier Giannoli ANTICHRIST, de Lars Von Trier BAK-JWI, de Park Chan-wook BRIGHT STAR, de Jane Campion CHUN FENG CHEN ZUI DE YE WAN, de Lou Ye LE RUBAN BLANC, de Michael Haneke ENTER THE VOID, de Gaspar Noé FISH TANK, de Andrea Arnold INGLOURIOUS BASTERDS, de Quentin Tarantino KINATAY, de Brillante Mendoza LES HERBES FOLLES, de Alain Resnais LOOKING FOR ERIC, de Ken Loach LOS ABRAZOS ROTOS, de Pedro Almodóvar MAP OF THE SOUNDS OF TOKYO, de Isabel Coixet TAKING WOODSTOCK, de Ang Lee THE TIME THAT REMAINS, de Elia Suleiman UN PROPHÈTE, de Jacques Audiard VENGEANCE, de Johnnie To VINCERE, de Marco Bellocchio VISAGE, de Tsai Ming-liang

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