Canções impregnadas de valor poético

HARMONIA: Contrariando o senso comum entre os compositores, que afirmam que letra de música é uma coisa poesia é outra, Alceu Valença se defende: "Minha música é poesia". E você se convence plenamente quando ele se põe a dizer os versos de Íris, uma das mais belas canções de Ciranda Mourisca. Musicada e bem cantada por ele, a letra ganha asas, mas do jeito que Alceu a interpreta falando, com a entonação e as pausas corretas, realmente sua beleza prescinde da música. Maracajá, por exemplo, remete a Carlos Drummond de Andrade, em Chuva de Cajus ele se refere a Jorge Amado, em Loa de Lisboa cita Fernando Pessoa . "Você tira as músicas e elas continuam tendo seu valor poético. Há momentos que a música esconde minha poética".Suas referências poéticas são Pessoa, Carlos Cana Filho, Paulo Mendes Campos, Castro Alves, entre outros. As muitas musas das letras que canta foram mulheres que ele namorou. A figura feminina permeia o roteiro de canções do CD e aí há também a sugestão inteligente de Yanê Montenegro, atual mulher de Alceu, que ajudou a selecionar o repertório. A poesia também é melódica, é harmônica, está na sutileza dos arranjos, no canto sempre cortante de Alceu. Claro que ele já tinha feito ciranda, mas desta vez, mais do que em outras, percorre o caminho de volta aos primórdios do gênero, priorizando os instrumentos harmônicos que originalmente a ciranda não tinha. "Dos árabes, vieram o canto rústico do aboiador, o canto do cego de feira tocando rabeca, o pandeiro que tem na embolada. E a melodia, que se você botar harmonia, vai bater nas sétimas nordestinas, eu, que sou de lá (Alceu nasceu em São Bento do Una) e vivo aqui, sei distinguir. Quando eu ouvi a ciranda na beira da praia, disse ?eu já vi, isso, veio lá do sertão?." "Só que a ciranda tinha um ritmo e às vezes um corneteiro. Não tinha nenhum instrumento de harmonia, porque o bombo, o som da caixa eram altos e não tinha amplificação. Se você vai botar um violão ali ninguém vai ouvir. Tem uma lógica. Como eu notava que ali tinha o som do aboiador, sombras do passado que está dentro da minha cabeça, fui pegar esse tipo de coisa que já tinha sacado quando era menino."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.