Campeão de vendas passeia no internato

Markus Zusak, de A Menina Que Roubava Livros, visita um projeto social carioca

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 00h00

Os Jogos Pan-Americanos, disputados em julho, inspiram a 13ª Bienal Internacional do Livro que começa hoje, no Rio. Boa parte dos 21 escritores estrangeiros convidados vem das Américas e aqui se encontrarão com cerca de 300 autores brasileiros, em atividades diversas que vão ocupar o Riocentro até o dia 23. O primeiro a chegar, e um dos mais aguardados, foi Markus Zusak, australiano de 32 anos que já ostenta o título de campeão de vendas. Ele fez questão de conhecer um projeto social carioca: ontem, de manhã, autografou livros para menores infratores do Educandário Santo Expedito.Seu livro A Menina Que Roubava Livros (Intrínseca) já ultrapassou a marca de 180 mil exemplares vendidos no País, cifra espantosa até para ele. Tão fabulosa que a editora vai aproveitar sua presença para promover seu mais recente romance publicado aqui, Eu Sou o Mensageiro, suspense incomum - conta a história de Ed Kennedy, notório perdedor de 19 anos cuja companhia constante se resume a um cachorro fedorento e um punhado de amigos frustrados.Até o dia em que ele teve a coragem de impedir um assalto a banco. Curiosamente, dias depois, Ed começa a receber cartas anônimas em que o conteúdo se resume a uma carta de baralho e um ou mais endereços. Ao criar coragem para visitar esses lugares, ele não apenas descobrirá novas pessoas como se autoconhecerá melhor.Como surgiu a idéia do livro?Eu estava sentado em um parque, comendo peixe com batatas fritas. Do outro lado da rua, havia um banco. E, na frente, um local de estacionamento com limite de 15 minutos de permanência. Então pensei: ''''Quinze minutos? Não é tempo suficiente para estacionar seu carro e fazer tudo o que se precisa fazer no banco. Há sempre uma fila enorme e alguém sem fazer nada do outro lado do balcão. Há crianças sentadas nas mesas, brincando ou mexendo nas gavetas de depósito.'''' Meu pensamento seguinte foi: ''''E se o banco em que você está for roubado e seu carro estiver do lado de fora, na zona de 15 minutos? Como fazer para sair, tirar o carro e evitar uma multa?'''' Essas pequenas questões levaram à idéia geral do livro.O cachorro de Ed desempenha um enorme papel em sua vida. A companhia de um cão pode oferecer algo que uma relação humana não pode?Realmente não sei. Sempre amei cães e gosto de gatos também. Todos os livros que já escrevi tinham um cão proeminente - exceto A Menina Que Roubava Livros. O livro que estou tentando escrever agora tem um macaco como um personagem de destaque. Acho que há algo nos animais que dá uma dimensão diferente a qualquer livro. Talvez seja porque o amor que eles dão sempre está ali, à espera de se provar.Em que medida Ed é diferente de você?Acho que me sentia como Ed quando tinha 19 anos. Não que eu não tivesse metas, mas me lembro de me sentir como se estivesse em uma espécie de vácuo. Estava me tornando algo, mas o resultado final ainda estava muito distante. Gosto da idéia do Ed estar largado no mundo, mas também que ele esteja se tornando algo. Eu, aos 19 anos, estava lutando para escrever. Foi o começo de um período de três anos no qual não conseguia terminar nada. Sentia-me um fracasso. Mas agora percebo como esses fracassos foram importantes... Foram minhas tentativas de encontrar meu estilo próprio de escrever.Eu Sou o Mensageiro precisou da violência para manter a história balanceada. Você concorda?Queria que Ed fosse como um super-herói, mas um super-herói com um grande problema - ele não teria superpoderes. Ele precisaria procurar dentro de si uma maneira de ajudar as outras pessoas e parte disso era superar a violência ou mesmo encontrá-la dentro de si. Queria que Ed tivesse uma espécie de extra-humanidade e, dessa maneira, seus esforços teriam maior significado - fazer coisas miraculosas, mas sem qualidades sobre-humanas mostraria grande coragem.Muitos de seus livro envolvem crimes - Eu Sou o Mensageiro, por exemplo, começa com um roubo a banco. Por quê?Acho que a maioria das histórias precisa de luz e escuridão para manter o sentimento balanceado. Talvez momentos de beleza em um livro ganhem maior significado quando precisam encontrar o caminho em meio à escuridão. Daí vêm os conflitos de meus livros. Por outro lado, sempre achei a luta uma grande coisa. Não apenas vencê-la, mas enfrentá-la no momento em que você se julga incapaz de vencê-la. Essa idéia é evidente no boxe. Entendo quando as pessoas dizem achar o boxe detestável, mas há muita coragem ali. Quando você perde feio em outros esportes, sai de fininho, mas, no boxe, a perda pode ser mais devastadora. Talvez meu interesse tenha surgido aí.Seus personagens e suas conversações são despretensiosos, bem concebidos e apropriadamente rasos.Não sou um escritor talentoso. Trabalho e falho, todos os dias... Escrevo muitas páginas de lixo e apenas mantenho as pequenas gemas ali escondidas e a partir daí construo meus livros. Não é uma parte natural do meu estilo de escrita, pode acreditar. Começo a escrever e lentamente vou reunindo mais e mais daquilo que espero ser o tipo de livro que pretendo.Você disse que escrever A Menina Que Roubava Livros foi um desafio. E como foi a experiência de Eu Sou o Mensageiro?É aqui que preciso ser honesto com qualquer leitor brasileiro que queira comprar Eu Sou o Mensageiro: ele não é tão bom quanto A Menina Que Roubava Livros. Ele foi escrito muito antes (em 2001) e foi uma pedra formadora de A Menina Que Roubava Livros. Sinto que na época estava aprendendo muitas coisas e, em minha defesa, tenho orgulho de ter corrido alguns riscos. Arrisquei um final que eu era incapaz de acertar. Arrisquei uma estrutura diferente, e com ela estou satisfeito. Alguns dos riscos funcionaram, outros nem tanto. Mas, enfim, o que quero dizer é que sem Eu Sou o Mensageiro não teria escrito A Menina Que Roubava Livros.Seu trabalho é bastante aclamado no Brasil. Você arriscaria uma explicação para isso?Ainda estou chocado. No caso de A Menina Que Roubava Livros, brinco com quem vem me dizer que o recomendou para os amigos. Eu digo: ''''Sinto muito, porque imagino o amigo perguntando sobre o que é o livro e você respondendo: ''''Bem, ele se passa na Alemanha Nazista, é narrado pela Morte, quase todo mundo morre... Ah, e ele tem 500 páginas, você vai amar!''''''''TrechoO assaltante é um mané. Eu sei disso. Ele sabe disso. O banco inteiro sabe disso. Até meu parceirão Marvin, que é mais mané do que o assaltante, sabe disso. O pior de tudo é que o carro do Marv está estacionado lá fora, e o parquímetro, correndo. Estamos todos deitados aqui no chão de cara pra baixo, e os 15 minutos de estacionamento estão quase acabando. ''''Por que esse cara não anda logo com isso?'''', falo bem baixinho.''''Pois é'''', Marvin responde. ''''Que absurdo'''', o som da voz dele bate no chão e faz aquela vibração seca. ''''Vou levar uma multa por causa desse otário. Outra multa não dá, Ed. Não tô podendo.''''''''E esse carro aí nem vale a dor de cabeça.'''' ''''Como é que é?'''' Marv olha para mim. Dá pra sacar que ele está ficando puto. Ofendido. Se tem um lance que o Marv não admite, é que alguém fale mal de seu carro. Ele pergunta de novo. ''''O que você disse mesmo, Ed?''''Respondo baixinho: ''''Eu disse que esse carro não vale a dor de cabeça, Marvin. ''''Olha só, eu engulo qualquer desaforo, Ed, mas...''''

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