Calor na barriga

Fomos almoçar no Consulado Mineiro da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, na semana passada: eu, minha mulher Luli, a garotada e uma amiga da minha filha que acabara de retornar de um intercâmbio na França. Acertamos o restaurante. Pensei nisso só depois. Mas de tanto receber jovens brasileiros após longas estadias no exterior, sei que não há nada como torresminho, tutu, uma lingüicinha e, sobretudo, carne-de-sol, sem falar da couve e do arroz.Vim dos Estados Unidos para o Brasil, pela primeira vez, por meio de um desses intercâmbios escolares. Se você acha que sou gringo agora, precisava ter-me conhecido naquela época, 1976, para ser exato. A experiência de trocar de país por um ano mudou minha vida para sempre. E era rara. Quando voltei à Califórnia, em 1977, era tratado por meus colegas de colégio como um astronauta que vivera entre extraterrestres e retornara para contar a história - e essa melhorava com o passar do tempo, diga-se.Mas hoje, três décadas depois, é comum trocar de país por um tempo; os jovens, sobretudo. Lembrei-me disso tudo na sexta-feira ao terminar o livro de Tony Judt, Reappraisals: Reflections on the Forgotten Twentieth Century. Sei que já o recomendei. Mas volto ao assunto por puro entusiasmo. Faz tempo que nada leio de tão relevante.Neste momento de crises financeiras, aquecimento global, noticiário mundial "24/7", de Bric, McMafia e internet percebemos os sintomas de uma transformação veloz, sem saber no que vai dar. Judt revisita o passado recente e tira dele reflexões instigantes para o presente. Discute com maestria o Médio Oriente, a Guerra Fria, o legado de Kissinger, o fim do intelectual liberal nos Estados Unidos, o futuro daquele país e o significado da União Européia. Lá pelas tantas, conclui: quando a União Européia, "enfim, falar com uma única voz em questões internacionais, será poderosa. Não porque será rica ou grande - isso já é. Os Estados Unidos são ricos e grandes. E a China pode vir a ser ainda mais rica. A Europa será importante em função do formato transfronteiriço sobre o qual está sendo construído. ?Globalização? não diz respeito, apenas, a comércio internacional, comunicações, monopólios econômicos ou mesmo impérios. Se fosse essa a história, não seria nova: esses aspectos da vida vêm ?se globalizando? faz cem anos. Globalização diz respeito ao fim das fronteiras - culturais, econômicas, físicas e lingüísticas - e o desafio de se organizar um mundo sem elas".É essa perspectiva, creio, que dá um frio na barriga. Viver sem fronteiras pode ser um slogan bonito para uma companhia de telefonia celular, mas como funciona na prática? Há séculos que escrevemos e promovemos mitologias nacionais. Nossas vidas são organizadas em torno delas. Saberemos fazer diferente?A candidatura do Barack Obama faz tanto sucesso fora dos Estados Unidos por causa disso, desconfio. Não é apenas o sentimento anti-Bush, nem a possibilidade de aquele país de passado escravocrata ter um presidente negro. É medo da globalização e do papel dos Estados Unidos nela. O mundo vai sentir-se mais seguro com um presidente americano pós-racial, de pai queniano, que passou parte da infância na Indonésia e foi criado por brancos no caldeirão étnico do Havaí. Acredita-se, planeta afora, que Obama pode nos ajudar a avançar com menos sustos - e menos dor - pelo caminho da globalização, que ele terá a capacidade de entender e respeitar gente diferente num planeta com fronteiras cada vez mais tênues. É esse o ponto.Vamos ver. Se dependesse de mim, eu o levaria para comer torresmo.

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