FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Calder, guru dos neoconcretos, ganha mostra em São Paulo

Exposição que será inaugurada nesta quarta-feira, 31, relaciona obras do escultor americano e de artistas brasileiros

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2016 | 04h00

Como diz o curador Luiz Camillo Osorio, Calder trouxe uma “lufada de ar fresco” para a arte moderna com seus móbiles – o escultor tirou as formas geométricas e austeras do neoplasticismo do plano e as soltou no espaço. “Isso era para ele uma forma de integrar arte e vida, mantendo compromisso com a complexidade da experiência estética”, afirma o professor do departamento de filosofia da PUC do Rio.

Organizador da exposição Calder e a Arte Brasileira, que será inaugurada nesta quarta-feira, 31, no Itaú Cultural, Luiz Camillo Osorio diz que o escultor norte-americano “é uma influência indireta, mas muito importante para a poética neoconcreta”. Os móbiles do artista, peças escultóricas metálicas e cinéticas, não são apenas lúdicas, como promoveram, no século passado, algo reivindicado pelo manifesto neoconcreto brasileiro em 1959, destaca o curador: “a quebra de cerimônia entre a obra e o público”.

“Nos móbiles, com suas pétalas e folhas, fios ou hastes, espinhos ou galhos, rodas ou esferas, é à nossa imaginação que acenam essas figuras geométricas ou sugestões de linhas e padrões em repouso; pois, ao saírem do estado de repouso, enchem-se então de novas formas, ideais ou virtuais”, escreveu, em 1944, o crítico Mário Pedrosa (1901-1981) sobre as esculturas de Alexander Calder (1898-1976). O brasileiro não apenas considerava o norte-americano um dos maiores inventores modernos, como também se tornou amigo de “Sandy”.

O texto publicado por Pedrosa no Correio da Manhã está reproduzido no livro Calder no Brasil, organizado pela historiadora Roberta Saraiva, que também assinou a curadoria da exposição homônima apresentada em 2006 na Pinacoteca do Estado. “Foi um pontapé inicial para começar a pensar a relação do artista com o País”, afirma Luiz Camillo Osorio.

A proximidade de Calder com o Brasil, que aqui esteve por três vezes (em 1948, quando expôs no Ministério da Educação, no Rio, e no Masp, e doou a escultura Viúva Negra para o Instituto dos Arquitetos do Brasil; em 1959; e 1960), se deu graças à amizade do artista com o arquiteto Henrique Mindlin. O curador da mostra no Itaú Cultural afirma que as referências biográficas da ligação do escultor com “a arquitetura e instituições brasileiras” já se tornaram bem conhecidas, mas a atual exposição é agora, afinal, a primeira tentativa de abordar a ligação do pai dos móbiles com a arte brasileira.

Sendo assim, a exibição, feita em parceria com a Fundação Calder, de Nova York, reúne não apenas um expressivo conjunto de obras do escultor – entre elas, 20 móbiles, alguns pertencentes ao MAC-USP –, como criações de brasileiros, desde pinturas concretas da década de 1950 até NaveMeditaFeNuJardim (2015), peça escultórica de aço com vasos de arruda em suas extremidades e uma almofada de crochê no seu interior, assinada pelo carioca Ernesto Neto.

No núcleo histórico da mostra, destaca-se a questão da geometria e do movimento, com trabalhos de Calder e obras de Judith Lauand, Willys de Castro, Hélio Oiticica (os metaesquemas dos anos 1950) e objetos cinéticos de Abraham Palatnik. Vale a pena citar também a exibição do filme Le Cirque Calder (1961).

Em outro segmento da exposição, sobressai “a dimensão mais corporal das formas orgânicas”, explica Osorio, com a exposição de uma série de “bichos” de Lygia Clark, entre outras criações. Por fim, a exposição se encerra com o tema do “ar”, relacionando móbiles e estábiles com obras recentes como o vídeo Sopro (2000), de Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander, O Ar Mais Próximo (1991) , de Waltercio Caldas, e Três Cassarinhos Vermelhos na Gaiola (2010), de Franklin Cassaro.

CALDER E A ARTE BRASILEIRA

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, tel. 2168-1777. 3ª a 6ª, 9h/20h; sáb. e dom., 11h/20h. Grátis. Abertura na 4ª (31), 20h

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