''Cada um está buscando uma identidade própria''

A convite do Estado, músicos fizeram seis perguntas ao instrumentista

O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2008 | 00h00

Fernanda Takai: Você é parceiro de tanta gente e tocou com músicos do mundo todo. Quem falta para você realizar o sonho de tocar junto?Você mesma, Fernanda. Apesar de termos estado juntos em Goiânia no mês passado, num encontro de bossa nova, só nos encontramos no grand finale, foi uma coincidência. Você tinha que dar a mão a qualquer um e agradecer. Estamos compondo uma música, que se chama Nagóia. Eu fiz a primeira parte, ela deu a continuidade. Comecei a fazer essa música lá no Japão. É a história de alguém que vê a cidade passar pela janela do trem. Um dos meus sonhos é gravar com ela.Bebel Gilberto: Quando você toca trombone é como se você já estivesse com os arranjos dos metais na cabeça antes?Que pergunta mais difícil. O símbolo dos metais para mim é traduzido pelo trombone. O fagote é bonito, a flauta é linda, mas minha preferência é pela sonoridade do trombone. Esse instrumento é o exemplar dos metais. Existe um segredo oculto nesse instrumento, o que pode explicar até a loucura de alguns trombonistas.Adriana Calcanhotto: Você já começou a tomar chimarrão?Nem tanto quanto eu gostaria de ter o prazer de tomar chimarrão com você. Eu só tomo chimarrão quando estou com a Adriana ou com os amigos gaúchos que andam com a bombinha debaixo do braço e a garrafa térmica. É que nem o tacacá (um tipo de caldo tomado em cuias), que eu só tomo quando vou para o Norte. Eu sinto falta dos gaúchos para tomar chimarrão. Sozinha, a andorinha não faz verão. Sozinho, eu não tomo chimarrão nem tacacá.Marcelo D2: Você pode relacionar cinco músicas que representam a sua carreira?A valsa Namorada. Lugar Comum - a inspiração é ter visto um caboclinho assobiando uma melodia dentro de um barquinho no Rio Acre. A valsa Aquarius, cuja inspiração vem do céu. Amazonas, que me veio durante um sonho. Lembro o conselho do Duke Ellington que acordava e anotava as notas que apareciam no sonho. Quando acordei no dia seguinte, estava lá a melodia de Amazonas. E A Rã, porque não tem pé nem cabeça, a música não tem explicação. As músicas são mistérios que mexem com a engrenagem do universo.Marcelo Camelo: Como foi a sua decisão de começar a cantar as próprias músicas?Foi por causa do cantor Agostinho dos Santos, que encontrei na casa do Marcos Valle, onde estava ensaiando no começo dos anos 1970. Eu ia gravar um disco e ele falou que, se fosse meu produtor, providenciaria as letras para as minhas músicas. E eu seria o cantor. ''Esse negócio de só tocar piano você já fez'', ele me disse. ''Nenhum cantor ou cantora vai querer cantar suas composições se elas não tiverem letras. Ninguém agüenta mais só acompanhar no lalaiá, lalaiá, lalaiá...'' Daí caiu a ficha. Comecei, nesse processo, a questionar meu entendimento sobre música.Roberta Sá: O que você acha da música brasileira feita hoje em dia?Eu acho uma maravilha. Todo mundo atualmente está em busca da batida perfeita. Todo mundo está se valendo de misturas para criar algo original, são sabores que já existiam, mas se faz uma combinação diferente no liquidificador. Cada um está atrás de uma identidade própria: quanto mais se esforçam, mais eles podem achá-la. Mas não pode ser diferente demais. Tom Jobim falava sobre uma música dele que se parecia com algo que já existia. Ele dizia que você está perto do certo, ao ''copiar'' alguma coisa que acha bonita.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.