Burocracia e cultura

O cargo nunca existiu nos Estados Unidos. De repente, a expressão "ministro da Cultura" está na boca dos artistas americanos. Ou a detestável alternativa, tzar da Cultura, seguindo a moda de um tzar para qualquer área em crise, tzar de Energia, tzar da Educação. Não importa que o tzarismo, além de evocar opressão, teve um fim sangrento.O mais vocal defensor de um Ministério da Cultura agora é Quincy Jones. O grande músico de 75 anos, ganhador de 27 Grammys, o produtor por trás de dezenas de milhões de álbuns vendidos, criou uma fundação de apoio à educação artística e, há dez anos, vem defendendo a ideia de uma burocracia federal para promover cultura.Pouco antes da posse do novo presidente, em meio ao clima de expectativa de Obamalot (numa alusão aos breves e cultos anos Camelot do casal Kennedy na Casa Branca), Quincy Jones entrou em campanha:"Da próxima vez que eu encontrar Barack Obama, vou suplicar a ele que crie a Secretaria das Artes."Dois músicos nova-iorquinos saíram correndo com a bola e começaram uma petição online que no fim de semana que passou pode ter superado 200 mil assinaturas.O debate chegou aos jornais, aos talk shows de TV e rádio.O ex-presidente do National Endowment for the Humanities, William Ferris, escreveu um artigo na página Op-Ed do New York Times com o título "Ponha a Cultura no Ministério". Ferris propôs que o governo federal encampasse, num mesmo órgão federal, organizações como a que dirigiu, mais o National Endowment for The Arts, a TV Pública (PBS) e a rádio pública (NPR). Se não posso decretar a NPR a melhor rede pública de rádio do mundo, porque não falo mandarim, russo ou alemão, dou uma medida do meu apreço pela sua programação: além de passar o dia sintonizada na estação pública nova-iorquina, com um rádio até na cozinha para não interromper a escuta, quando perco algum dos melhores programas vou procurar os segmentos online para ouvir os podcasts de música e reportagens que mais me interessam. Quando li o editorial de Ferris, me passou um frio na espinha. Imagine um Ministério da Cultura americano com John McCain e Sarah Palin no poder. Olhei para o rádio da sala como quem observa, preocupada, um filho pequeno atravessar a rua.A campanha é inspirada em parte pelo New Deal da era Roosevelt, o período após a Grande Depressão, quando o presidente criou a Works Progress Administration (WPA) para empregar milhões de trabalhadores. A WPA financiava projetos específicos de música, teatro e literatura. Entre os nomes associados ao WPA estão Saul Bellow e Richard Wright, fotógrafos como Walker Evans e Berenice Abbott. Artistas e escritores saíram pelo país documentando não só a pobreza, como todo tipo de manifestação cultural. A WPA também era controvertida. Um personagem do romance clássico Não Matem a Cotovia, de Harper Lee, é apontado como o "único homem demitido do WPA por preguiça."Nos anos 60, a caneta de Lyndon Johnson deu à luz aos dois National Endowments, o das artes e o de humanidades.Diante da profundidade do buraco econômico, as chance de um novo posto no gabinete Obama passar pelo Congresso são, no mínimo, remotas.Mas o gênio parece ter saído da garrafa e o assunto desperta opiniões passionais. Quincy Jones cita o Ministério da Cultura da França como exemplo a ser seguido. Ele se queixa de que as crianças americanas não sabem quem foi Louis Armstrong. Alguns respondem que o problema é da educação e não será resolvido com um ministério.Felizmente, quando criança, não tive a chance de ignorar Louis Armstrong. Cresci num Rio de Janeiro onde a indústria de entretenimento era muito menos poderosa do que o dragão hoje capaz de tornar Britney Spears onipresente. Os músicos que colocaram a petição pelo novo posto online se queixam de que, quando fazem turnês no exterior, os estrangeiros sabem mais sobre a cultura americana do que seus compatriotas.É verdade. Quando me mudei para Nova York, meu queixo caiu diante da ignorância dos brancos locais sobre o jazz, a única expressão artística originalmente americana. Até o diretor Ken Burns, responsável pela alentada série Jazz, me confessou numa entrevista que não havia ouvido jazz até a idade adulta. Isso ajuda a explicar por que a série excluiu gênios brancos como Bill Evans e Gil Evans. Burns apoiou-se na militância cultural negra e assinou embaixo de omissões imperdoáveis.Mas, na primeira década do século 21, o que define a cultura americana?Como uma grande burocracia, num país onde as minorias formam hoje a maioria, pode decidir qual a expressão cultural que deve ser apoiada? Para jogar alguma lenha na fogueira, pergunto: quem merece os dólares do contribuinte americano? Uma cantora de jazz como Karrin Allyson, indicada para o Grammy com um CD só de música brasileira ou um grupo de funk da periferia carioca? Se o critério for o passaporte, a resposta é fácil.Mas a arte gerada pela porosa cultura americana desafia qualquer camisa-de-força simplista.

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