Buena Vista ofuscou os músicos contemporâneos

Produtor cubano, que trouxe o show dos veteranos ao Brasil, diz que o projeto de Ry Cooder e Wim Wenders deixou uma falsa impressão de estagnação

Lauro Lisboa Garcia, RIO, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2008 | 00h00

Presente à festa "cariocubana" na casa de João Donato, o músico e produtor cubano Rodolfo Athayde chama a atenção logo na entrada. Trajando uma camiseta vermelha, ele ostenta no peito a inscrição Deus É Fidel, abaixo da foto do comandante de Cuba. Não dá para ignorar o significado irônico da frase. Melhor ainda é a inscrição oculta na etiqueta que alguém lê nas costas dele: "As fabulosas camisetas mitodestrutivas de Doutor Carneiro." "É uma camiseta paulista", comenta Athayde, numa mesa em que algumas pessoas preparam uma lista para agendar passagens e hospedagem para o próximo réveillon em Havana. É uma data considerada histórica: os 50 anos da revolução na ilha. Os hotéis mais acessíveis já estão com reservas esgotadas. Agora, só os de luxo, ou casa de amigos.Athayde está no Rio há oito anos e é dedicado representante da cultura cubana. Foi ele quem trouxe para São Paulo, Rio, Brasília e Curitiba a exposição A Arte de Cuba em 2006. Antes, ele foi responsável pela vinda da velha-guarda da música cubana, dentro do projeto Buena Vista Social Club. O Brasil, conta ele, foi um dos poucos países a verem o Buena Vista mais completo. Os outros foram Estados Unidos e Holanda. "Quando trouxe o show para cá, em 1999, antes do filme, não se conhecia muito a história daqueles artistas", lembra Athayde.O encontro de músicos e cantores como Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Ruben González, Pío Leiva, Eliades Ochoa, Orlando ?Cachaíto? Lopez e outros veteranos tornou-se um clássico. O show memorável, o CD produzido por Ry Cooder (que acaba de ser relançado no Brasil) e o filme de Wim Wenders despertaram o mundo para a beleza da música tradicional cubana e reabriram as oportunidades de trabalho para aqueles veteranos que estavam esquecidos - essa parte da história todo mundo conhece.O lado contraditório desse episódio, segundo o produtor, é que para os músicos de Cuba "toda a evolução da música cubana ficou abafada com aquela música com cheiro de naftalina". A música de Cuba que o mundo conheceu melhor nos anos 2000 era aquela feita nas décadas de 1940 e 1950. E o Buena Vista, visto desse prisma, contribuiu para reforçar a idéia de que o país tinha parado no tempo.Ele lembra bem da história. O pianista Guillermo Rubalcaba e Nick Gold, dono do selo Work Circuit, foram a Cuba para gravar um disco do africano Ali Farka Touré, do Mali. Touré não conseguiu chegar a tempo e o produtor e músico Juan de Marco González, além do estúdio reservado, "tinha uma seleção musical muito interessante de temas pouco conhecidos". Daí veio a oportunidade de reabilitar os veteranos, que viviam no ostracismo e nunca tinham tocado juntos antes dos dez dias que se reuniram em Havana para gravar o disco. "Omara era a única que continuava famosa em Cuba", lembra Athayde."Acho que o Buena Vista serviu mais para puxar a renascença da música tradicional do que despertar o interesse para a música contemporânea de Cuba", afirma Athayde. "Então, muitos músicos jovens, que faziam música moderna, foram obrigados a se voltar para a tradição para conseguir espaço no mercado." O mesmo mercado que um dia se abriu para as fusões com o jazz e ritmos afro-cubanos de grupos como Los Van Van e Irakere e músicos como Gonzalo Rubalcaba, que também ganharam o mundo nas décadas de 80 e 90.Mais recentemente, no início deste século, o grupo Orishas, baseado na França, também ganhou o mundo mostrando o bom hip-hop de Cuba, sem desprezar os ritmos tradicionais. O músico paulistano Guga Stroeter também investiu na onda "rapera" cubana, que virou novo símbolo de resistência do país. Hoje a cantora e baixista Yusa e o cantor René, entre outros jovens músicos, também conquistaram espaços respeitáveis.A grife Buena Vista, porém, continua a render dividendos. A triunfal apresentação dos veteranos cubanos no Carnegie Hall, em Nova York, dez anos atrás, agora chega ao CD. O show, que teve cenas incluídas no documentário de Wenders, sai no Brasil e no mundo no dia 11 de outubro em álbum duplo com 16 faixas. Entre elas estão as consagradas Chan Chan, De Camino a la Vereda, El Cuarto de Tula e Veinte Años, também presentes na versão de estúdio, que a MCD acaba de relançar aqui.

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