Breve conto espanhol em desenhos

No Masp, exposição com 82 obras reúne distintas concepções e artistas

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2008 | 00h00

A mostra consagrada ao desenho espanhol, que será inaugurada amanhã para convidados e na sexta-feira para o público no Masp propõe recriar em largos traços os vários caminhos percorridos pelos artistas hispânicos no embate com a modernidade. Não se trata de um panorama sintético, ou de uma via de caminho único. Dentre as 82 obras selecionadas para a exposição, encontram-se distintas concepções de desenho, que vão desde a idéia de ilustração, esboço de uma idéia, até sua afirmação como obra de arte autônoma e em nada inferior às belas-artes como a pintura e a escultura. Há também flertes com diferentes escolas, com grande ênfase no cubismo e no surrealismo. Veja galeria de imagens da mostra Como brinca o curador do Masp, José Teixeira Coelho, não se tem impunemente um Picasso e um Dalí em casa, lembrando assim a grande influência dos dois grandes mestres também em seu país natal. No entanto, mesmo tendo como principal chamariz a obra desses mestres - além da dupla podemos citar a presença de outros grandes nomes da arte espanhola como Juan Gris, Joan Miró e Antoni Tàpies -, a exposição tem exatamente como um de seus trunfos a possibilidade de fazê-los conviver e dialogar com obras e artistas bem menos conhecidos. "Temos a tendência em olhar primeiro para os medalhões, enquanto as outras obras vão nos cativando aos poucos. O ideal seria que as pessoas percebessem a beleza do desenho", complementa Teixeira Coelho.Esse panorama abrangente e um tanto avesso a critérios organizacionais rigorosos - volta e meia os parâmetros básicos são subvertidos, como na ampla acepção do desenho ou no recorte temporal amplo (situado entre o final do século 19 e pouco mais da metade do século 20) - se organiza em quatro núcleos principais, que obedecem uma clara organização cronológica: Precursores da Vanguarda; Cubismo e Escola de Paris; A Influência Internacional; e Em Torno ao Surrealismo.Muitas vezes encontramos algo fora da ordem, o que choca nossas idéias preconcebidas. É o caso do belo retrato de espanhola realizado pelo francês Francis Picabia, em 1922, num exemplo clássico de retorno à ordem que não se enquadra à típica imagem do artista surrealista. Aliás, sua presença numa exposição dedicada à Espanha pode parecer estranha, bem como a de outros artistas como a ucrano-francesa Sonia Delaunay e os uruguaios Joaquín Torres-García e Rafael Barradas. Pablo Jiménez Burillo, diretor da Fundação Mapfre, instituição organizadora da mostra, esclarece, ressaltando "o papel fundamental que esses artistas tiveram para impulsionar uma vanguarda espanhola". Responsável pela aquisição e gestão de um acervo de cerca de 1,5 mil obras, Jiménez participa amanhã de um encontro com educadores e artistas (inscrições pelo e-mail educativo@masp.art.br) para tratar dessa exposição que vem itinerando por diversos países nos últimos anos e à qual ele gosta de definir como uma espécie de "conto breve", de narrativa que nos ajuda a entender um pouco mais sobre nós mesmos.Ao longo da exposição é possível perceber que quando Jiménez fala de "nós mesmos", não fala apenas da Espanha. E tampouco se refere a essa grande aventura iniciada com as vanguardas, que teve prosseguimento na Escola de Paris. As obras em exposição, sobretudo quando colocadas lado a lado, expõem as contradições, incertezas e angústias de uma arte marcada por forças e desejos antagônicos, situando-se entre o impulso renovador e o influxo mais conservador. Ambigüidades estas que também marcaram - de maneira talvez ainda mais intensa - a evolução do modernismo brasileiro. Talvez daí derive a sensação de familiaridade que sentimos diante de algumas das obras da exposição e a identificação de questões claramente presentes em artistas brasileiros da mesma geração, como Anita Malfatti e Portinari.A parceria entre o Masp e a Fundação Mapfre também renderá frutos ao público espanhol. Ainda este ano, a organização vinculada à empresa seguradora deverá inaugurar seu novo espaço, na área nobre dos museus de Madri. E deverá ter como uma de suas atrações nessa abertura as obras de Degas pertencentes ao museu paulistano.Preste Atenção ...em Guerra Estética (1943), de Dalí. O desenho parece representar o embate entre a arte clássica antiga - lançando mão de tema já explorado pela pintura histórica - e as experimentações promovidas pela vanguarda há mais de meio século. A figura de estátua ou modelo representada ao fundo, que não é homem ou mulher, mas os dois simultaneamente, seria espécie de ?metáfora retrospectiva? que Dalí faria de si mesmo. ...no contraste entre as duas obras de Picasso da mostra. Maternidade (1902- 1903), clássico exemplo da ?fase azul? do artista, e a têmpera sobre papel intitulada Arlequim e Polichinelo, de duas décadas depois, que se debruça sobre uma das questões centrais do artista: a busca da síntese entre abstração e figuração. Além de sinalizar as preocupações que moviam o artista nos dois períodos em questão, a contraposição entre as duas obras enfatiza sua enorme capacidade de experimentação e diversidade.

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