Brega-chique, Beirut faz show curto e monótono

Apresentação teve no bis uma versão de Aquarela do Brasil

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

Alguma coisa melhor (mas não muita) do que a confusa atuação no dia 4, em Salvador, o Beirut tentou fazer na sexta em São Paulo. Pelo menos a bebedeira do líder Zach Condon parecia controlada, embora ele não tenha dispensado o copinho de plástico contendo um líquido âmbar, do qual tomava uns goles de vez em quando.

Musicalmente não foi muito diferente. O show na Via Funchal começou com a mesma Nantes (a mais bonita canção do grupo) e o som ainda mais abafado do que no Teatro Castro Alves. Em boa parte dos shows, na primeira música o som raramente sai perfeito. No decorrer da apresentação, normalmente os técnicos vão equalizando melhor. Com o Beirut isso não aconteceu. O problema com os graves do contrabaixo e o peso da bateria permaneceu até o fim. Mal se entendia o que Condon, que já fala embolado, pronunciava entre uma canção e outra. O que cantava idem.

Mas as canções eram conhecidas do eufórico público (pós-graduando em adolescência na maioria), que cantou boa parte delas junto com Condon. Principalmente Elephant Gun, que tornou a banda relativamente popular no Brasil, depois de usada na trilha sonora da minissérie global Capitu. Esta, A Sunday Smile e Postcards from Italy foram os pontos mais ou menos altos de um show monótono.

Definitivamente, a banda não parece interessada em desempenhar no palco com a mesma densidade com que Condon grava seus discos. Ele continuava sem voz (ou será que sempre canta mal ao vivo?), a banda conseguia bons efeitos com a força dos metais, que fazia a plateia urrar, alternando temas instrumentais e canções, mas passa uma, passa duas e começa a soar tudo igual, chato. A curta apresentação de cerca de uma hora quase ficou longa demais.

A porção cafona, de fonte mexicana, da sonoridade do Beirut, faz parte. Compõe, com a inspiração nas fanfarras do Leste Europeu, na tradição francesa (eles mais uma vez desperdiçaram a clássica La Javanaise, de Serge Gainsbourg), etc., uma curiosa mistura brega-chique. Mas é melhor ouvir seus CDs, que concentram boas ideias de Condon, especialmente o segundo álbum, The Flying Club Cup, não lançado no Brasil.

No palco, o garoto-prodígio e sua trupe mais parecem caretas burocratas, recém-saídos do expediente, que resolveram fazer uma happy hour entre eles para brincar de ser artistas. Revezando-se no vocal, no trompete e no ukulele (que em Salvador ele chamou, brincando, de "cavaquinho"), Condon desta vez falou menos português, limitando-se a um "valeu" aqui e um "obrigado" além de "eu não posso falar português".

O que parecia simpático acabou em demagogia. No fim, Condon, como um típico gringo equivocado, acabou se enrolando na bandeira brasileira e eles mandaram ver uma versão de Aquarela do Brasil (Ary Barroso) à moda de Ray Conniff. Mas poderia ter sido pior se eles cantassem O Leãozinho, de Caetano Veloso, que Condon adora.

Entre gritos de "lindo" e "I love you" das meninas, a certa altura um fanfarrão soltou um "bebe mais". Talvez tenha faltado isso aqui. Pensando bem, a conturbada passagem do grupo por Salvador foi mais divertida. Lá o show foi um fiasco, mas pelo menos quebrou o marasmo. Aqui, na volta para o bis, o tecladista resolveu convocar o público para subir ao palco, mas desta vez não rolou a invasão que deixou a segurança perplexa em Salvador.

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