Brazil 70, doce remédio para uma grande ressaca

CD revê produção nacional pós-AI-5, com artistas tentando contornar regras inflexíveis com risco de prisão

Alexis Petridis, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2008 | 00h00

Numa fala pinçada do filme Whitnail and I (de Bruce Robinson, de 1987), o traficante Danny afirma: ''''Estamos prestes a testemunhar a maior ressaca do mundo.'''' Em nenhum lugar do mundo essa ressaca foi sentida tão intensamente como no Brasil. Os aventureiros psicodélicos de outros países tiveram de lidar com baixas causadas pelo ácido, batidas policiais, e a sombra do rock progressivo, mas os tropicalistas do Brasil tiveram uma Junta Militar e o AI-5 (1968) para enfrentar. Não era um ambiente em que a anarquia musical banhada em LSD da Tropicália pudesse prosperar, e assim foi: duas semanas depois do AI-5, os faróis do movimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram detidos sem acusação, mantidos em confinamento, soltos, colocados em prisão domiciliar e depois expulsos do País.O CD Brazil 70: After Tropicalia (Soul Jazz Records, US$ 30, vários artistas), lançado recentemente nos EUA, documenta o que aconteceu em seguida com a música brasileira. Ditaduras militares são pouco famosas por encorajarem a grande arte: em 70, Chico Buarque estimou que apenas uma de três de suas canções passava pelos censores. Mas o disco desenterra um fascinante mundo de artistas tentando contornar regras inflexíveis, preparados para os riscos de prisão e tortura. Eram ameaças reais. Até a ex-vocalista de Os Mutantes, Rita Lee, terminou em prisão domiciliar apesar de que, por todas as evidências, em Corista do Rock (1976), ela já houvesse trocado a excentricidade induzida pelo ácido por rock nitidamente não subversivo. Não espanta que Alceu Valença pareça tão nervoso quando se esgoela no perturbador Punhal de Prata, cercado por guitarras e cordas histéricas.O grupo Secos e Molhados ofereceu uma espécie de glam rock de São Paulo, com auxílio de maquiagem e confusão sexual, mas sua noção de androginia não se estendeu a rostos sem barba. Como Jimmy Page e David Bowie, Raul Seixas era fissurado por Aleister Crowley, mas diferentemente de Page e Bowie, sua fissura o levou à prisão.Como seus colegas britânicos e americanos, muitos músicos brasileiros optaram por trocar as cidades por uma vida comunitária bucólica: o folheto do CD ilustra um grupo deles, Os Novos Baianos, uma verdadeira confusão de barbas e bebês. Mas os sorrisos, crianças embaladas e fusão descuidada de samba e guitarra de Hendrix de Tinindo Trincando encobrem um propósito mais sério. Para os brasileiros, ''''a vida comunitária no campo'''' era uma necessidade: o ambiente rural era menos exposto à incursão repressiva da Polícia Militar.Há muita coragem em Brazil 70. A sua força está menos nas histórias que o CD conta que na música sensacional. O funk carregado de sopros de Gal Costa, o embalo romântico das duas faixas de Nelson Ângelo e Joyce, a melodia incômoda de Passara, de Jaime Alen e Nair de Cândia: isto é música em que se perder, o que foi presumivelmente o caso das pessoas que a fizeram e a compraram. Ela pode ter sido o remédio para a maior ressaca do mundo, mas tinha um gosto surpreendentemente doce. TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

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