Brasília sofre com a falta de ficção

Documentários dominam o concurso de longas-metragens na mostra candanga

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

18 de novembro de 2008 | 00h00

Uma obra-prima em cópia restaurada, São Bernardo, de Leon Hirszman, dá início hoje à noite à 41ª edição do Festival de Brasília, o mais antigo e tradicional do País. Não deixa de ser uma curiosa ironia. Um dos maiores filmes de ficção do cinema brasileiro moderno dá início a uma mostra em que predominam largamente os documentários. Dos seis longas-metragens concorrentes, quatro são de gênero documental, apenas um, Siri-Ará, do cearense Rosemberg Cariry, é puramente ficcional. FilmeFobia, de Kiko Goifman, encontra-se na fronteira entre os gêneros e presta-se, talvez, a questionar essa divisão. Os outros quatro - À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel, Ñande Guarani, de André Luís da Cunha, O Milagre de Santa Luzia, de Sergio Roizenblit, e Tudo Isso me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno, são documentários. Acompanhe pelo Blog do Zanin Por que isso acontece?, foi o que se perguntou o meio cinematográfico quando da divulgação dos concorrentes. Antes que digam, não se trata de preconceito contra o gênero documental, que já teve vencedores em Brasília, como foi o caso de Santo Forte, de Eduardo Coutinho. Acontece que os documentários sempre foram minoritários na composição da mostra brasiliense e, pela primeira vez, põem em segundo plano os longas de ficção. É verdade também que o gênero documental tem crescido de maneira extraordinária no Brasil, impulsionado em especial pelas novas tecnologias. Mas há outro fator que pode ajudar a entender a carência de filmes de ficção em Brasília: a posição no calendário. Brasília é o último dos grandes festivais do ano e os longas de ficção já teriam sido "gastos" em eventos precedentes, como a Première Brasil, no Rio, e nos recém-criados festivais de Paulínia e Curitiba. Há anos Brasília se caracteriza por distribuir bons prêmios em dinheiro (este ano os contemplados levarão um total de R$ 505 mil). Acontece que outros festivais também passaram a premiar com valores altos seus concorrentes. Como Brasília tem por política não repetir títulos que já concorreram em outros festivais, pode ter ficado desprovida de um universo maior de candidatos este ano. Em conversa reservada com membros da comissão de seleção, o Estado ouviu impressões divergentes. Para um dos selecionadores, não havia mesmo condições de escolher mais do que um longa de ficção para o concurso, pois os outros seriam "constrangedores". Já outro selecionador garante que tudo foi uma opção do júri, que se ateve aos critérios de ineditismo e qualidade estética e assim chegou aos seis longas que irão disputar os troféus Candango, a estatueta distribuída aos vencedores em Brasília. De acordo com este selecionador, Brasília vai fazer um grande festival este ano. Tomara, embora se possa prever dificuldades para o júri de longas atribuir os prêmios de ator, atriz, direção de arte, etc. a um universo tão estreito de concorrentes de ficção. O júri é formado pelas atrizes Sandra Corveloni e Maria Flor, o jornalista Arthur Xexéo e os diretores Carlos Reichenbach, Vladimir Carvalho, Sérgio Machado e Murilo Salles. Ninguém negará competência a corpo de jurados tão gabaritado. Mas, para distribuir todos os prêmios possíveis, será preciso uma certa dose de imaginação, além da competência técnica. Mas, enfim, o que esperar desses filmes selecionados? À Margem do Lixo é a terceira parte de uma tetralogia prevista pelo diretor tendo como personagens os despossuídos sociais. As duas primeiras partes, À Margem da Imagem e À Margem do Concreto, falam dos sem-teto e da sua luta por moradia. A quarta parte, ainda por fazer, será À Margem do Consumo. Como se vê, um projeto de amplo espectro e alcance. Em outra frente de desassistidos, Ñande Guarani focaliza os problemas que os índios enfrentam no dia-a-dia em sua luta pela demarcação dos territórios. O Milagre de Santa Luzia, apesar do nome, tem como personagem o instrumento que consagrou Luiz Gonzaga - a sanfona, tocada por músicos do porte de Dominguinhos, Sivuca e Mário Zan, entre outros. Tudo Isso me Parece um Sonho tem um feitio de docudrama, reconstruindo a vida do general Abreu e Lima, pernambucano que participou, ao lado de Simon Bolívar, de lutas pela libertação de países como Colômbia, Venezuela e Peru. A única ficção "pura" do concurso, Siri-Ará, tem com personagem Cioran, um mestiço brasileiro que, depois de se exilar na França, volta ao sertão e sente-se um estranho em sua própria terra. O filme, segundo o diretor, é uma reflexão sobre os encontros e desencontros de mundos que marcam a fundação da nação brasileira. Rosemberg é diretor experiente, autor de filmes como Corisco e Dadá e Lua Cambará, além do documentário Patativa do Assaré. Já FilmeFobia, de Kiko Goifman, parece um trabalho fronteiriço, até mesmo pela proposta. De acordo com a sinopse distribuída pela produção, o personagem principal, vivido pelo grande ensaísta Jean-Claude Bernardet, atua como diretor de um falso documentário que nunca tem fim. FilmeFobia seria um making of desse falso documentário. Ou seja, o filme, que promete muita polêmica, aposta na metalinguagem através de um personagem que, na vida real, se parece muito com seu intérprete. Goifman é cineasta interessante, como mostrou com seu 33, processo de investigação pessoal que se transforma em thriller existencial. Com ele, as fronteiras de gênero tendem mesmo a se diluir. O que pode ser uma escapatória para Brasília diante dessa carência de ficção. Mas não seria bom se essa discussão ajudasse a mascarar uma crise que por certo começa a atingir a tradicional mostra brasiliense, fundada em 1965.Em CompetiçãoLONGAS À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel (SP)FilmeFobia, de Kiko Goifman (SP)Ñande Guarani (Nós Guarani), de André Luiz da Cunha (DF)O Milagre de Santa Luiza, de Sergio Roizenblit (SP)Siri-Ará, de Rosemberg Cariry (CE)Tudo Isso me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno (RJ)CURTAS 35MMA Arquitetura do corpo, de Marcos Pimentel, 21 min (MG)A Minha Maneira de Estar Sozinho, de Gustavo Galvão, 15 min (DF)A Mulher Biônica, de Armando Praça, 19 min (CE)Ana Beatriz, de Clarissa Cardoso, 9 min (DF)Brasília (Título Provisório), de J. Procópio, 15 min (DF)Cães, de Adler Paz e Moacyr Gramacho, 16 min (BA)Cidade Vazia, de Cássio Pereira dos Santos, 13 min (DF)Minami em Close-Up, de Thiago Mendonça, 18,50 min (SP)Na Madrugada, de Duda Gorter, 21 min (RJ)N.º 27, de Marcelo Lordello, 19 min (PE)Que Cavação É Essa?, de Estevão Garcia e Luís Rocha Melo, 19 min (RJ)Superbarroco, de Renata Pinheiro, 16 min (PE)

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