Brasil é esperança para salvar língua

O Camões entregue a João Ubaldo Ribeiro é parte de esforço para deixar País como líder na batalha de resgate do português

Leonencio Nossa, O Estadao de S.Paulo

29 de julho de 2008 | 00h00

Mais importante prêmio literário da língua portuguesa, o Luís de Camões chega à 20ª versão com um viés político. O escritor João Ubaldo Ribeiro, que faturou neste fim de semana 100 mil pelo conjunto da obra, era o nome adequado a um esforço atual de políticos e intelectuais de Portugal em elevar o Brasil à condição de líder na batalha para evitar a asfixia do idioma português na Europa e na África pelo espanhol, francês e inglês.Com apenas 10 milhões de habitantes, Portugal passou a última década em processo de adaptação ao bloco da União Européia. Depois de tanto esforço para estar em condições econômicas e de infra-estrutura idênticas às de países vizinhos, governo, imprensa e intelectuais portugueses chegaram ao consenso de que a língua nacional perdeu exclusividade até mesmo nos cafés freqüentados pelo Fernando Pessoa, no início do século 20, em áreas tradicionais de Lisboa, como o Chiado e o Bairro Alto, em dias sem fluxo de turistas. O tamanho do território e da população seria um impedimento de Portugal para comandar o contra-ataque e recuperar espaços perdidos pela língua de Camões nas ex-colônias africanas.Diante do avanço de anos do inglês, menos de 10% das pessoas em Moçambique ainda têm o português como língua principal. Investimentos feitos pela França já tornaram o francês o idioma mais usado na Guiné-Bissau. Ainda na África, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, em busca de recursos estrangeiros, dão sinais de boa receptividade para o francês. O Timor Leste, país que se tornou independente há pouco, optou pelo português como língua oficial, mas está na zona de influência da Austrália e da Indonésia. Em Angola, que se firma economicamente com a exploração de petróleo, o português perde espaço no mundo dos negócios mesmo nas relações empresariais internas.Na semana passada, quando o governo português sancionou o acordo que unifica regras da escrita, parte da intelectualidade reclamou que o país estava a reboque do Brasil, que seria beneficiado pelas mudanças.Colunistas de jornais como Público e Diário de Notícias, porém, observaram que a ''pulga'', como se referiu um deles a Portugal, tinha de reconhecer a liderança do Brasil, o ''elefante'' de 200 milhões de habitantes e com território continental. O passado de 800 anos da antiga metrópole não seria suficiente para levar à frente a idéia do português como política de Estado e arma diplomática, como fez a Espanha em relação ao castelhano.Um dos críticos da reforma ortográfica, que deve entrar em vigor em Portugal ainda em 2011, foi o escritor António Lobo Antunes, que na sexta recebeu das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro-ministro português, José Sócrates, o diploma do prêmio Camões 2007. ''(O acordo) para mim é indiferente, vou continuar a escrever da mesma maneira. Já escrevo de maneira um pouco heterodoxa, e vou continuar a escrever com acordo ou sem acordo'', afirmou. Lobo Antunes, no entanto, não destoa do discurso oficial quando diz acreditar na força brasileira para preservar e expandir o idioma, especialmente de escritores segundo ele injustamente esquecidos. No discurso de entrega do prêmio, no Mosteiro dos Jerônimos, onde há um túmulo simbólico de Camões, Lobo Antunes enalteceu Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Cassiano Ricardo, Jorge Amado, Jorge de Lima, Paulo Mendes Campos, Raduan Nassar, João Cabral de Melo Neto e Mário Quintana.''Eu queria chamar a atenção para literaturas injustamente esquecidas'', explicou depois na entrevista. ''É uma pena que eles não sejam mais lidos.'' Lobo Antunes deixou escapar, antes mesmo do anúncio do vencedor do Camões 2008, que o vencedor seria João Ubaldo. ''É natural que (o prêmio) vá para o Brasil, o João Ubaldo é meu amigo'', disse. O autor de Viva o Povo Brasileiro e Sargento Getúlio, trabalhou em uma revista em Lisboa nos anos 1980. Além das técnicas sofisticadas de narrativa, a reinvenção de expressões nativas e a análise satírica do processo histórico envolvendo índios, negros e portugueses, a obra de João Ubaldo é associada em Portugal à de Jorge Amado - o que em Lisboa é positivo. A literatura de imagens, em que a sensualidade da mulher e a luxúria da natureza parecem ofuscar a importância do estilo narrativo, contribui na afirmação do português proposta pelo governo e por intelectuais de Portugal. João Ubaldo é visto como o novo cronista do mundo bem-humorado e jovem, um país de excelência literária onde as deficiências escolares e a miséria são consideradas por especialistas adversárias do idioma mais fortes que a globalização.Na avaliação de Lobo Antunes, o português não tem tanta culpa em manter afastados dos debates literários do século 20 autores do Brasil, como a ucraniana Clarice Lispector e o mineiro Guimarães Rosa. ''Eram 30 grandes escritores escrevendo ao mesmo tempo no mundo'', lembrou. Médico e ex-soldado na guerra de Angola, Lobo Antunes ressaltou que a língua portuguesa se tornou ainda mais rica com as experiências dos países lusófonos com seus mitos e mesmo seus clichês. ''No Brasil é difícil escrever, porque as meninas são muito bonitas'', brincou. A uma pergunta se já pensou em escrever sobre as brasileiras, o romancista respondeu: ''Isso eu deixo para si.'' Em seguida, porém, confidenciou: ''Em off (não é para escrever): eu gostaria.''

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