Boulez maestro

Francês grava Mozart e Berg e faz da regência seu principal legado

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

É incrível, mas verdadeiro. O mais combativo e um dos compositores fundamentais do século 20 é muito mais importante hoje como maestro do que como criador. O declínio da vanguarda musical que guiou com mão de ferro os caminhos da arte dos sons no século passado levou seu maior ícone a transferir-se aos poucos para o domínio da regência. De que outra maneira um compositor contemporâneo poderia exibir uma renda anual comprovada de 1 milhão como divulgou a revista L?Express em 2005, quando ele completou 80 anos? Os críticos João Marcos Coelho e João Luiz Sampaio comentam carreira e trechos de discos do maestroPierre Boulez, nascido em Montbrison em 26 de março de 1925, ocupa ainda hoje um lugar imenso na vida cultural contemporânea. Mas não como compositor, e sim como maestro. Seu legado discográfico e em DVDs talvez seja visto no futuro como uma contribuição tão importante para a música quanto sua produção como autor. A afirmação pode soar abusiva. Mas, à medida que a vanguarda europeia perdia a hegemonia, num movimento contínuo de declínio do final dos anos 70 para cá, o autor de Le Marteau sans Maître e Notation radicalizou cada vez mais como compositor. Em consequência, os círculos de vanguarda minguaram, enquanto floresciam outros movimentos musicais mais "acessíveis" e nem sempre tão interessantes. Nosso personagem é um predador nato, afirma Philippe Olivier em recentes livro sobre Boulez (Le Maître et son Marteau, Hermann, 2006). E, seguindo à risca o mote de Schoenberg, que repetiu muito a frase "minha música não é difícil, ela é apenas mal tocada", começou a reger em 1954, em Paris, numa série de concertos que chamou de Domaine Musical, por necessidade de mostrar sua música e sua ascendência estética. Estabeleceu padrões elevadíssimos de execução da música contemporânea. E a indústria musical enxergou naquele inesperado "maestro" qualidades mercadológicas interessantes. Estreou como maestro "convencional" em Bayreuth regendo Parsifal, em 1966. E daí para a frente atuou como um furacão na cena internacional. No ano seguinte virou regente convidado da Orquestra de Cleveland, nos EUA. Em 1971 assumiu simultaneamente a direção artística da Orquestra da BBC em Londres (até 1975) e da Filarmônica de Nova York (até 1977). Em 1976 foi a estrela, com o encenador Patrice Chéreau, das comemorações dos cem anos do Anel de Wagner. No ano seguinte, retornou a Paris para fundar o Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica/Música, mais conhecido como IRCAM. Neste período também vinculou-se como regente convidado à Sinfônica de Chicago. Além da Tetralogia, a integral das sinfonias de Mahler também está no estratosférico nível das leituras de Leonard Bernstein (mais antiga) e de Claudio Abbado. Quanto a Stravinski e Bartók, seus registros não têm concorrência.Dois CDs recentemente lançados no mercado internacional comprovam seu posto indisputado como o mais qualificado intérprete da música do século 20. Mas parece que o agora octogenário e ainda incendiário Boulez chega ainda mais perto de alcançar a perfeição - se é que isso é possível. Num deles, da Deutsche Grammophon, completa a sua mais recente leitura da obra orquestral e concertante do compositor húngaro Bela Bartók (1899-1945). A gravação reúne artistas tão destacados quanto ele, cada um em sua especialidade: os pianistas Pierre-Laurent Aimard e Tamara Stefanovich, os percussionistas Nigel Thomas e Neil Percy e a Orquestra Sinfônica de Londres no Concerto para Dois Pianos, Percussão e Orquestra; o notável violinista Gidon Kremer e a Filarmônica de Berlim no Concerto para Violino nº 1; e o maravilhoso violista russo Yuri Bashmet no Concerto para Viola. O outro, da Decca, intitula-se 13 e é daquelas gravações que estabelecem padrões de referência: Boulez rege o Ensemble Intercontemporain. No repertório, a justaposição de duas obras-primas separadas por cerca de 140 anos: a Serenata em Si Bemol Maior para 13 instrumentos, apelidada de Gran Partita, de Mozart, e o Concerto de Câmara, para piano, violino e 13 instrumentos de sopro, de Alban Berg. Neste o piano fica a cargo da excepcional pianista Mitsuko Uchida; e o violino com o alemão Christian Tetzlaff.Mas, para entender melhor as escolhas de repertório de Boulez é preciso mapear sua cabeça de maestro-compositor. Philippe Olivier escalou desta maneira sua genealogia: "Ele construiu uma geografia sonora que repousa na Alemanha, Áustria e Hungria. Ouçam Wagner, a segunda Escola de Viena (Schoenberg, Berg e Webern) e Bela Bartók. Sem esquecer Stravinski. Ou Luciano Berio, Franco Donatoni e Luigi Nono, estes três vindos ao mundo no país de Leonardo da Vinci (...) O Boulez intérprete, analista, comentador e exegeta de Berg, Schoenberg e Webern não encontrou neles apenas pais substitutos. Enriqueceu sua genealogia imaginária com um avô ideal: Mahler. Sem seu apoio decisivo, párias como Berg, Schoenberg e Webern jamais teriam alcançado a notoriedade".Vamos aos CDs. A tendência é focar mais no concerto para violino, declaração de amor do jovem compositor de 26 anos à violinista Stefl Geyer. Só que a amada dispensou-o onze dias depois que ele lhe presenteou a partitura. É obra belíssima, porém convencional se comparada, por exemplo, com o Concerto para Dois Pianos, Percussão e Orquestra, transcrição da Sonata para Dois Pianos e Percussão, de 1937. Esta sim é uma obra-prima, que ganha bastante nesta transcrição de motivação alimentar feita por Bartók quando já estava nos EUA. Boulez a considera uma das obras-primas supremas do húngaro pelo qual tem apaixonada adoração. A transcrição é notável porque mantém praticamente intactas as partes dos pianos e da percussão. Sobretudo o primeiro movimento, que corresponde a metade da obra, é excepcional. A execução é detalhista sem perder de vista a arquitetura ampla. Na ótima entrevista com Boulez, Uchida e Tetzlaff no folheto interno do CD, o maestro explica por que juntou Mozart e Berg: "Temos treze instrumentos de sopro em Mozart e treze instrumentos de sopro em Berg, mas também dois solistas. 13 + 2 são 15. E 15 é um número sagrado para Berg, pois é o número de instrumentistas da Sinfonia de Câmara de Schoenberg, seu modelo. Assim me pareceu que Berg teria gostado de reunir estas duas obras". A execução é deslumbrante. Poderia, dado o caráter minuciosíssimo de Boulez, descambar numa leitura burocrática. Mas é uma interpretação iluminada. Quem duvidar, que ouça o comovente Adagio ou o tema e variações.Já no concerto de Berg, cheio de simbolismos e enigmas, que Boulez não considera fundamentais para o ouvinte conhecer, a construção é impressionante: o primeiro movimento é um tema com variações para piano e sopros "com muitas afinidades com o Tema con variazioni da Partita de Mozart", diz Boulez; o segundo é um Adagio maravilhoso, na verdade o núcleo central da obra, para violino e sopros; no rondó final piano e violino atuam com os sopros. Boulez revela um hilário comentário de bastidores dos músicos. "No primeiro movimento, ouve-se bem o piano, mas não os sopros; no segundo, ouvem-se maravilhosamente os sopros mas não o violino; e no terceiro, bem, no terceiro não se sabe bem o que ouvir. Isso tem um fundo de verdade". É dificílimo dar transparência a uma escrita polifônica tão densa, completa. E estes músicos, guiados pela regência de Boulez, conseguem o impossível. Qual seria o segredo de tamanha qualidade nas interpretações de Pierre Boulez, seja de música do século 20, seja do repertório convencional? Num artigo recente sobre regência de orquestra, escrito para uma enciclopédia da música coordenada por Jean-Jacques Nattiez, Boulez explica tudo tim-tim por tim-tim. "O maestro-instrumentista tem maiores condições de entender melhor a obra, já que ele tem sobre ela um domínio físico, muscular. Schoenberg dizia ?eu ouvi minha obra ao menos uma vez, quando a escrevi?. Neste momento o compositor tem uma certa consciência da obra, mas de modo abstrato. Ele ainda não domina o desenrolar da obra no tempo. Eu só fico pessoalmente à vontade com uma obra que compus depois que a regi várias vezes: é somente neste momento que a domino de cabo a rabo. O trabalho do intérprete é tocar e tocar de novo frequentemente a mesma obra, descascá-la pedagogicamente para si próprio. Ao contrário, quando o compositor termina sua obra, já não o interessa refazer necessariamente sem cessar o percurso, porque ele quer passar para outra coisa."Reconhece-se um esquizofrênico balançando entre a composição e a regência: "Eu me interpreto de uma certa maneira, mas provavelmente, no futuro, outros intérpretes terão maior intimidade com minha obra do que eu. Por outro lado, não tenho nenhum problema com as peças que regi com frequência, como a Sagração da Primavera, de Stravinski, ou Jeux, de Debussy, que estiveram na base da minha formação e do desenvolvimento de meu pensamento musical como compositor".Quando rege, diz Boulez, deve-se pensar sobretudo no compositor: "Ele teve o trabalho de escrever atenta e minuciosamente suas intenções - até onde a escrita permite - e não posso tratá-lo superficialmente. Tento obter uma execução tão próxima quanto possível de minha leitura da partitura, examinando-a em seus detalhes, sem perder de vista sua trajetória de conjunto. Sei, afinal de contas, como é muito mais difícil compor do que reger..."E, curiosamente, dá uma bela colher de chá aos intérpretes ditos intuitivos, normalmente não muito valorizados pela crítica especializada, em geral mais interessada nos chamados intérpretes bem-pensantes, como o pianista Alfred Brendel, ou o próprio Boulez: "Já vi intérpretes puramente intuitivos traduzirem a forma de uma peça com mais sucesso do que intérpretes mais ?intelectuais?. A intuição no intérprete que não é compositor é muito importante. É como a intuição do camponês e a ciência do meteorologista: pode parecer surpreendente, mas me parece justificado. O meteorologista consulta os computadores, estabelece estatísticas e probabilidades, enquanto o camponês observa as nuvens, a orientação do vento, baseia-se nos fenômenos locais. Os dois podem enganar-se igualmente, e na mesma proporção, no universo da música..."Mas o melhor mesmo é o que ele chama de "espontaneidade adquirida": os conhecimentos, a técnica e o métier são absolutamente necessários, mas não bastam para explicar a qualidade de uma interpretação específica, "pois a espontaneidade do instante permanece a palavra-chave e o principal mistério". "Há um paradoxo na profissão de maestro, e do intérprete em geral: quanto mais aprendemos e conhecemos a obra, mais podemos nos aventurar no impulso imediato, ser intuitivos e espontâneos. Definitivamente, o fenômeno da espontaneidade adquirida está no núcleo, no coração do que chamamos de interpretação." E conclui com uma pergunta: "Tenho a reputação, verdadeira ou falsa, de ser exclusivamente racional e lógico, critérios primordiais da objetividade. Sei que racionalidade e lógica repousam na incerteza do confronto subjetivo. Sem este mistério instável e volátil, a regência de orquestra seria tão apaixonante?" DiscotecaWAGNER: O registro da tetralogia O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, parceria com o diretor francês Patrice Chéreau em 1976, é exemplo da leitura moderna que Boulez faz do repertório tradicional.A produção marcou o centenário da composição da peça. Com o mesmo encenador, Boulez acaba de lançar deslumbrante interpretação de From the House of the Dead, ópera do compositor checo Leos Janácek (DVDs, Universal)STRAVINSKI: Há bons registros com as sinfônicas de Chicago e Cleveland. Opte pelo DVD com a suíte Pássaro de Fogo gravada para o selo Euroarts em Chicago (o programa tem ainda peças de Alban Berg e Claude Debussy); da Sagração da Primavera, vale versão gravada em Cleveland, onde Boulez foi regente convidado.MAHLER: A integral do compositor está disponível em vários discos gravados com orquestras como as de Cleveland e as filarmônicas de Viena e Berlim. A Quinta (Viena, CD, Deutsche Grammophon) é espetacular. O disco que faltava, com a Oitava Sinfonia, foi lançado no final de 2008 e traz, entre as solistas, a soprano paraense Adriane Queiroz.DOMAINE MUSICAL: Nome da sociedade de concertos criada por Boulez nos anos 50, dedicada à interpretação da obra de autores contemporâneos como Maurice Kagel e Henri Pousseur. Gravações deste período estão disponíveis em coleção de CDs do selo Accord.

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