Boulez e Chéreau juntos novamente, 30 anos após o Anel

A francesa Nouvel Observateur traz conversa entre maestro e diretor, que voltam a trabalhar juntos em ópera de Janácek

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

Trinta anos depois de revolucionar nossa percepção da obra de Richard Wagner com uma montagem do Anel do Nibelungo no Festival de Bayreuth, a dupla formada pelo maestro Pierre Boulez e o diretor Patrice Chéreau voltou a se unir. Foi no começo do mês, com uma produção de Da Casa dos Mortos, de Janácek, no Festival de Aix-en-Provence, na França. Para marcar a reunião, a revista Nouvel Observateur reproduz uma conversa entre diretor e maestro, que falam não apenas de Janácek mas do ofício de montar uma ópera. Quando subiu ao palco, em 1976, no Festival de Bayreuth, a concepção de Boulez e Chéreau para o Anel, simbolizou um divisor de águas. Após décadas de montagens tradicionais ou quase minimalistas (em parte por conta da falta de verbas que assolou Bayreuth no pós-guerra), o embate entre deuses e mortais chegava à Revolução Industrial - e o ouro do Reno passava a refletir a acumulação de capital em uma sociedade em plena decadência. O impacto foi tamanho que, nos anos seguintes, quando uma nova produção, responsável por trazer o Anel de volta para os cenários da mitologia alemã, subiu aos palcos em Bayreuth, o público já a repudiou como um retrocesso. Chéreau e Boulez relembram, na conversa publicada pela revista, apenas como gostaram de trabalhar juntos. Não explicam por que demoraram 30 anos para voltar juntos aos palcos. Boulez disse em diversas ocasiões que não gosta de trabalhar em teatros de ópera. Aqui, explica que o problema não é o gênero em si mas a maneira como é feito. É tudo muito automático, o maestro rege, o diretor encena, pouco se falam e por aí vai. É por isso, diz, que gosta de trabalhar com Chéreau. O diretor fala bastante de como a literatura de Dostoiévski, inspiração de Janácek, serviu como base para a sua concepção, em alguns momentos completando ou questionando o libreto da ópera; de sua parte, Boulez conta como encara a partitura e a maneira como ela se encaixa no contexto da obra de Janácek. O momento mais interessante, no entanto, é quando eles se juntam para resumir o trabalho que desenvolvem em conjunto. "Nosso método de trabalho consiste em unir as peças de um quebra-cabeças, em função de sua forma e cor, para ser chegar a uma imagem final. Para mim, como regente, a forma e a cor são o tempo e a instrumentação, que acabam servindo para ao mesmo tempo recriar a partitura, buscando inspiração constante na concepção visual criada por Chéreau."

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