Borges e os piqueteiros

A Argentina do autor não existe mais - empobreceu e foi obscurecida pela demagogia e barbárie

, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

A biblioteca Miguel Cané, no bairro de Boedo, em Buenos Aires, é um local modesto, de tetos altos, prateleiras e escrivaninhas muito antigas, que se converteu em lugar de peregrinação cultural de todo visitante mais ou menos alfabetizado que chega à cidade. Isso porque, durante nove anos, de 1937 a 1946, Jorge Luis Borges trabalhou nessa biblioteca, como auxiliar de bibliotecário, registrando e catalogando livros numa salinha apertada, sem janelas, do segundo andar, onde agora são exibidas, em uma vitrine, as primeiras edições de alguns de seus livros.Não faz muito tempo passou por aqui o escritor inglês Julian Barnes, deixando impressa sua admiração pelo autor de Ficciones (Ficções). Sinto de imediato grande emoção ao imaginar aqueles anos obscuros desse auxiliar de biblioteca que, segundo a lenda, enquanto andava de bonde para ir e vir da casa para o trabalho, estudou sozinho o italiano, leu e quase decorou A Divina Comédia, de Dante. Além disso, claro, aproveitava o tempo para escrever os contos da sua primeira obra-prima, Ficciones (1944).Borges é uma das coisas mais notáveis que já surgiram para a Argentina, para a língua espanhola e para a literatura, no século 20. E, seguramente, essa forma particular de genialidade que foi a dele - pela excentricidade de suas curiosidades, sua oceânica cultura literária, sua visão universal e a lucidez da sua prosa - teria sido impossível sem o ambiente social e cultural de Buenos Aires, provavelmente a cidade mais literária do mundo, ao lado de Paris. Ambas as capitais têm como uma segunda pele, um envoltório literário de mitos, lendas, fantasias, anedotas, imagens, que remetem a contos, poemas, novelas e autores e dão uma dimensão entre fantástica e livresca a tudo o que elas contêm: coisas, casas, bairros, ruas e pessoas.Grande parte dessa Argentina de leitores vorazes e universais, cosmopolitas frenéticos e poliglotas descomedidos ainda está presente na desfalecida Buenos Aires à qual voltei depois de alguns anos: em suas esplêndidas livrarias das ruas Florida e Corrientes, abertas até altas horas da noite, em seus cafés literários, palcos de grandes polêmicas estéticas e políticas e onde se consolidaram revistas culturais que circularam por toda a América Latina, como janelas que revelavam a todos nós latino-americanos tudo o que havia de importante em matéria artística e literária no restante do mundo.As paredes do Café Margot estão repletas de inscrições, fotos e lembranças de escritores ilustres, músicos e pintores que se sentaram, beberam e discutiram até altas horas nessas mesinhas frágeis e apertadas, e onde, num grupo de amigos, recordamos algumas glórias extintas: Victoria Ocampo, María Rosa Oliver, José Biano. No célebre Café Tortoni há uma mesa com um Borges de tamanho natural, feito de papel machê.Mas são sobretudo algumas pessoas que ainda mantêm viva essa tradição civil e intelectual : depois de muitos anos, tenho a satisfação de encontrar o ensaísta e filósofo Juan José Sebreli. Alguns minutos de bate-papo são suficientes para comprovar, novamente, a solidez e a amplitude da sua informação filosófica, a desenvoltura com que ele circula pelos mundos da história, das idéias políticas e também da literatura. Como muitos argentinos que conheci, ele me dá a impressão de ter lido todos os livros.Borges foi demitido da biblioteca Miguel Cané pelo governo de Perón, em 1946, e por causa do seu antiperonismo foi rebaixado à condição de inspetor municipal de aves e galinheiros. O fato é todo um símbolo do processo de barbarização política que iria "latino-americanizar" a Argentina e revelaria aos argentinos, com o passar dos anos, que, na verdade, eles não eram o que muitos acreditavam ser, ou seja, cidadãos de um país europeu, culto, civilizado e democrático, encravado por mero acaso na América do Sul - mas nada mais do que uma outra nação do terceiro mundo subdesenvolvido e incivilizado.O retrocesso desse que foi o país mais próspero e mais bem educado da América Latina - uma das primeiras sociedades no mundo que, graças a um admirável sistema de ensino derrotou o analfabetismo - às suas condições atuais, é uma história que ainda está para ser escrita. E quando alguém o fizer, o que virá à tona parecerá uma ficção borgiana: uma nação inteira que, pouco a pouco, renunciou a tudo o que fez dela um país do primeiro mundo - a democracia, a economia de mercado, sua integração com o restante do globo, as instituições civis, a cultura de braços abertos - e que, obscurecida pelo populismo, a demagogia, o autoritarismo, a ditadura e o delírio messiânico, empobreceu, dividiu-se, ensanguentou-se, tornou-se provinciana, em resumo, passou de Jorge Luis Borges aos piqueteiros, como constatei em viagem no primeiro semestre à Argentina. Esses parecem ser o símbolo da outra Argentina, a que rechaçou o caminho da civilização e optou resolutamente pela barbárie. Originalmente, ao que parece, eram desempregados e marginais que saíam às ruas para reclamar atendimento e trabalho de um poder que os ignorava, de um mundo oficial sem alma, que dava as costas aos mais necessitados. Depois, eles se tornaram as forças de choque do poder político. No começo do ano, saíram com seus tambores e porretes para enfrentar os simpatizantes dos agricultores, que protestavam na Plaza de Mayo contra os impostos sobre produtos agrícolas decretados pelo governo de Cristina Kirchner. E, com efeito, os manifestantes foram dispersados a cacetadas e pontapés, em nome da revolução.Qual revolução? A do ódio. É o que explicou muito bem na ocasião o líder piqueteiro Luis D?Elia, afirmando que a culpa dessa mobilização de agricultores contra o governo era dos "blancos" . E acrescentou que "odiava" os "blancos" do Bairro Norte e gostaria de "acabar" com todos eles. Perguntei a meus amigos argentinos o que aquele piqueteiro queria dizer quando se referiu aos "blancos". Porque, para qualquer lado que me virasse, na Argentina, por mais que me esforçasse, só via brancos. Então, o piqueteiro pretendia acabar com 40 milhões dos seus compatriotas?Não vejo argentinos negros, nem mestiços, nem índios, nem mulatos, salvo turistas ou imigrantes. São somente esses que o piqueteiro D?Elia estaria disposto a salvar de suas fantasias homicidas e racistas? Há alguns meses, tive a oportunidade de examinar bem de perto algumas centenas desses piqueteiros, que atacaram de surpresa o ônibus que nos levava da Bolsa de Rosario para o Instituto Libertad, que festejava seu aniversário de 20 anos, que um bom número de liberais do mundo, eu inclusive, viera celebrar. Ficamos imobilizados pela jovem tropa do senhor Luis D?Elia - ou talvez alguma pior, pois está é apenas ultra-radical e na Argentina há os ultra-ultra. E assim, nos 10 a 15 minutos, na Plaza de la Cooperación, enquanto esses piqueteiros, imbuídos da filosofia do seu mentor, destroçavam os vidros do ônibus, o amassavam a pontapés e pedradas e lhe jogavam baldes de tintas, tive tempo de estudar de perto as fisionomias irascíveis dos nossos atacantes. Eram todos branquíssimos a mais não poder. Meus companheiros e eu procuramos nos manter prudentes, mas não pude deixar de me perguntar o que ocorreria se, antes que viessem nos resgatar, os belicosos piqueteiros resolvessem lançar dentro do ônibus um coquetel molotov ou conseguissem abrir a porta, que golpeavam com vontade.Era 28 de março e eu pensei: Celebrarei meus 72 anos - porque era o dia do meu aniversário - tentando contrapor minhas fracas forças à fúria surpreendente dessa horda de selvagens? Quando tudo passou, a jovem jornalista equatoriana Gabriela Calderón, que é tão pequena que conseguiu se encolher embaixo do assento como uma contorcionista - perguntou-me se essas coisas me aconteciam em todas as cidades que visitava. Respondi que não, que isso só tinha me ocorrido na queridíssima cidade de Rosario.Ela é querida pelas boas recordações que guardo dela, e porque é a terra do meu amigo Gerardo Bongiovanni e de Mario Borgonovo, publicitário que, quando começa a cantar tangos, até os anjos descem do Céu e os diabos sobem do Inferno para escutá-lo. Em 1988, Gerardo criou, com quatro amigos, a Fundación Libertad para promover as idéias liberais no seu país. Vinte anos depois, o instituto é um foco de pensamento, de debates, de publicações, seminários e conferências, empreendendo uma batalha diária pela modernidade, a tolerância, e a prosperidade, contra aqueles que se empenham em fazer a Argentina retroceder até chegar à "cultura da tribo", como dizia Popper. Durante os diálogos, mesas-redondas e exposições dos quais participei, como na manhã emocionante da minha visita à Biblioteca Miguel Cané, de Boedo, eu me digo, esperançoso, que nem tudo está perdido, que o fantasma de Borges ainda pode despertar a Argentina do pesadelo.

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