Borges, completo e novo

Os 35 livros do autor argentino são reunidos em 23 volumes da coleção Biblioteca Borges, que começa a ser lançada pela Companhia das Letras

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Já estão nas livrarias os quatro primeiros volumes das obras completas do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), que a editora Companhia das Letras publica dentro da Biblioteca Borges, série que terá, além dos 23 tomos com todos os 35 livros do autor, ensaios sobre sua obra. Até 2010, segundo Maria Emília Bender, diretora editorial da Companhia das Letras, serão retraduzidas todas as obras de Borges. Alguns volumes, como Primeira Poesia, que agrupa os três primeiros livros de poesia do escritor (Fervor de Buenos Aires, Lua Defronte e Caderno San Martín) serão lançados com a antiga tradução de Josely Vianna Baptista feita há oito anos para a editora Globo, então detentora dos direitos de tradução de sua obra para o Brasil. Outros, como O Aleph, com lançamento previsto para abril, terão nova tradução, a cargo de três dos quatro coordenadores editoriais das obras completas (Davi Arrigucci Jr., Jorge Schwartz e Heloísa Jahn). O lançamento da coleção Biblioteca Borges será amanhã, às 20 h, no Sesc Anchieta, com um coquetel e leituras de textos seus por sua viúva Maria Kodama, que concedeu, por telefone, de Buenos Aires, uma entrevista ao Estado, reproduzida abaixo.A literatura de exaltação encarregou-se de separar a vida e a obra de Borges, provocando como conseqüência o advento de personas insólitas do escritor, como se ele não tivesse nacionalidade, família ou amores, segundo o professor e escritor brasileiro Sérgio Miceli. A senhora diria que Borges teve um papel nessa separação entre vida e obra?Ninguém poderia escrever como Borges sem vida pessoal ou sentimentos. O que acontece é que há muita invenção em torno dele. Como Borges preservava sua intimidade, é natural que se tente inventar um outro Borges, mas ele não contribuiu em nada para a criação dessas personas insólitas.Há 20 anos a senhora inaugurou a fundação que leva o nome de seu marido e, desde então, dedica-se ao trabalho de difusão de sua obra, mas foi duramente criticada por reeditar livros como El Tamaño de Mi Esperanza, El Idioma de los Argentinos e Inquisiciones, que Borges teria decidido não mais publicar. Por que esse esforço não é reconhecido pelos intelectuais argentinos?Porque não há intelectuais de fato na Argentina. Essas críticas vêm de gente ignorante, que opina e fala sem conhecimento. Para começar, estudei exaustivamente todas essas obras editadas por ele quando ainda era aluna da Universidade de Buenos Aires. Numa de nossas viagens, quando Borges se deu conta de que muitos de seus livros estavam fora de catálogo, me confidenciou não ter vontade de corrigi-los, ele que supervisionava sistematicamente as reedições, recomendando, então, que o fizesse um dia se fosse republicá-los. As críticas sobre as reedições partem de pessoas que querem saber tudo sobre Borges e não sabem nada. Ele viveu comigo, morreu a meu lado e, evidentemente, se me deixou o legado de sua obra, é porque a discutiu comigo. Todas as pessoas que falam, dizem e inventam só falam, dizem e inventam. A realidade só eu sei.A senhora considerou cheia de erros e não autorizou a reedição das obras completas de Borges na Bibliothèque de la Pléiade, da editora francesa Gallimard, comentada pelo próprio Borges, que trabalhou junto ao editor Jean-Pierre Bernès. Que erros tem a edição francesa?Essa é uma história complexa e comprida que não posso discutir por telefone. O que acontece é que Bernès não cumpriu algumas determinações.A sra. vai supervisionar a edição das obras completas em português?Não, porque não falo a língua.Textos esquecidos de Borges voltaram à circulação após sua morte, como Un Ensaio Autobiográfico, escrito com a colaboração do tradutor inglês de seu marido, Norman Thomas di Giovanni, além das conferências que ele deu em Harvard. Como a senhora controla a edição dessas obras?Não controlo nada, supervisiono edições quando solicitada pelos editores e apenas em línguas que domino. No caso particular das conferências de Harvard, foi a própria universidade que tomou a iniciativa de publicá-las. Já em se tratando da autobiografia, até mesmo pelo gênero, não é necessário controlar nada. É um texto que ele deixou em vida escrito com o consórcio de um amigo.Por outro lado, a sra. controlou muito os biógrafos de Borges, movendo, segundo o noticiário internacional, processos contra alguns deles (no momento em que seria pronunciado o nome do argentino Juan Gasparini, autor de ?La Posesión Póstuma?, publicado há sete anos, Maria Kodama interrompe o repórter)...Primeiro, não falo desse tema. Segundo, não iniciei nenhum processo contra biógrafos de Borges. Terceiro, não existem biógrafos de Borges.Quer dizer que a senhora desaprova todas as biografias de seu marido?Salvo exceções, a maioria é o que Borges classificaria de listas telefônicas com nomes e endereços - e por vezes trocados.A senhora colaborou com Borges em Breve Antologia Anglosajona e em Atlas, traduzindo com ele La Alucinación de Gylfi, de Snorri Aturluson, e El Libro de la Almohada, de Sei Shonagon. Pretende incluir comentários nas novas edições dessas obras em colaboração?Não posso ser considerada sua colaboradora. Tanto La Alucinación de Gylfi como Breve Antologia Anglosajona são como certificados de conclusão de curso porque, aos 16 anos, estudei inglês e depois islandês com ele. Com toda honestidade, só estudamos juntos e fizemos traduções. Não, não pretendo fazer reedições comentadas por respeito à memória de meu marido.A Ediciones Destino publicou o livro Borges, de Adolfo Bioy Casares, numa edição aos cuidados de Daniel Martino. Como a senhora interpreta a publicação do diário pessoal de Bioy Casares?Só li parte dele e não sei quem é Daniel Martino.Como recebeu as observações de Bioy Casares sobre seu marido?Escute, estou cansada disso, de dar respostas sobre Bioy Casares, que depois são distorcidas pelos jornalistas.Está bem, mudemos de assunto. Borges declarou em Perfis que Ficções e Aleph são seus livros mais importantes. Para a senhora, qual é o mais importante deles?Não há um texto que julgue o mais importante. Isso é muito subjetivo. Há coisas das quais gosto na obra de Borges e outras das quais gosto menos, como qualquer autor. Quando leio Borges, não leio o homem que me amava e que eu amo, leio como uma leitora que está diante da obra de um grande autor.Por que a poesia de Borges, que tem momentos extraordinários como provam Fervor de Buenos Aires, Luna Defronte e Caderno San Martín, reunidos no livro Primeira Poesia, é menos considerada?Creio que, de modo geral, a poesia não passa por bom momento e nunca foi exatamente um fenômeno de massa. Infelizmente, os editores parecem se interessar apenas por gêneros que garantem resposta imediata de público. A poesia de Borges exige, ao contrário, leitores com maior sensibilidade, por ser delicada e avessa a fenômenos massivos.Ainda há inéditos de Borges?Sim, dois textos, mas não me animo a publicá-los. São esboços que me ditou e que considero inacabados.

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