Bons atores salvam telas em Berlim

Até agora, apenas Storm, O Leitor e The Messenger mostram certa qualidade

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

10 de fevereiro de 2009 | 00h00

Todo ano a seleção de Berlim contempla um filme sobre a crise de um casal. Já faz parte da geografia dramática do evento esse tipo de cenas de um casamento que se dissolve, é verdade que piorando de ano a ano, talvez pela repetição do que não deixa de ser uma fórmula. O Cenas de Um Casamento deste ano se chama Everyone Else (Alle Anderen) e é dirigido por Maren Ade. A história do arquiteto e da assessora de imprensa de uma gravadora acompanha esse casal infantil, cujos problemas são agravados pela erupção de outra dupla tão desestruturada quanto, mas que a próxima paternidade faz seguir adiante como se a relação estivesse às mil maravilhas. Não é um bom filme, longe disso, mas a qualidade da interpretação logra construir algumas cenas fortes. Brigit Minichamyr e Lars Edinger são ótimos atores.A qualidade das interpretações tem sido a tônica desta 59ª Berlinale, mesmo que às vezes o espectador se pergunte como, ou por que, tal filme foi selecionado para um dos maiores eventos de cinema do mundo. Não há de ter sido por sua contribuição estética, de tal maneira ela é nula. Mamouth, de Lukas Moodysson, com Vanessa Williams e Gael García Bernal, e The Privates Lives of Pippa Lee, de Rebecca Miller, com Robin Penn Wright, Alan Arkin e Keanu Reeves, mostram como os programadores de festivais podem se equivocar. O sueco Moodysson é um diretor interessante e provocativo, mas seu novo filme, um painel sobre o mundo globalizado à Babel, de Alejandro González-Iñárritu, não é apenas equivocado como tratado com excessiva seriedade. Um pouco de humor talvez tivesse ajudado na história desse casal nova-iorquino com desdobramentos na Tailândia e nas Filipinas, para que o diretor possa falar sobre ecologia e o sofrimento das crianças, as grandes vítimas da marginalidade provocada pelas desigualdades econômicas e sociais do mundo global. Pippa Lee é mais bem realizado - razoavelmente, pelo menos -, mas, no limite, a história que a diretora (filha do dramaturgo Arthur Miller e mulher do ator Daniel Day-Lewis) adaptou de seu romance, publicado no ano passado, não ultrapassa a banalidade na investigação dessa mulher, casada com um homem mais velho, que se envolve num tórrido affair com outro homem de sua idade.Pippa Lee cansa-se de sua vida burguesa e volta aos prazeres selvagens de sua juventude à base de drogas e rock?n?roll. Tem sido o tema dominante dessa Berlinale - a impossibilidade. Os dois melhores filmes até agora, o alemão Storm, de Hans-Christian Schmid, e O Leitor, de Stephen Daldry, o primeiro em competição, o segundo fora de concurso, tratam da impossibilidade de se fazer justiça num mundo em que os crimes de guerra, seja dos nazistas ou cometidos por sérvios na Guerra da Bósnia, permanecem impunes. Pippa Lee trata da impossibilidade de voltar atrás no tempo. The Messenger, outro bom filme - do norte-americano Oren Moverman -, trata da impossibilidade, ou pelo menos da dificuldade, de conviver com os próprios fantasmas.Num certo sentido, o filme de Oren é o Rage que deu certo, sem o vazio estilístico que caracteriza a nova investigação de linguagem de Sally Potter. Moverman segue esses dois soldados, interpretados por Ben Foster e Woody Harrelson, cuja função é levar às famílias as condolências do governo norte-americano pela morte de seus entes queridos na Guerra do Iraque. Oren arma jogos de cena. Cada vez que a dupla irrompe com toda formalidade na vida de pessoas sob grande estresse emocional, a reação que provoca é diferente. Há os que gritam, que se desesperam, há os que internalizam a dor a ponto de ficar sem palavras. E existem os que agridem os mensageiros, que lhes cospem na cara.Essas reações tão diversas repercutem nos soldados, e um deles, Woody Harrelson, acusa o outro de estar quebrando o protocolo e deixando-se envolver afetivamente com os destinatários de suas mensagens funestas. Numa cena-chave, o filme vira uma discussão sobre o que é, afinal de contas, o heroísmo (na vida e na guerra). Na coletiva, o ator Ben Foster foi muito aplaudido com um discurso politicamente forte e sua posição ferrenha contra a Guerra do Iraque. Foster, aliás, tem uma longa cena com a viúva (Samantha Morton) de um dos mortos na guerra. A expectativa é de sexo e a conversa avança, por meio de palavras evasivas mas também de silêncios, para recuar numa espécie de imobilismo. Ele quer (sexo), ela também, mas não consegue se entregar. Cria-se um impasse. É incrível verificar como bons atores renovam o jogo de cena mesmo em situações que parecem batidas. A verdadeira cena de um casamento, aqui na Berlinale de 2009, está sendo essa - de uma união que nem existe, e tem dificuldade (uma impossibilidade?) de se formalizar. O repórter viajou a convite da organização do festival

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