Bolaño tinha a língua espanhola como pátria

Autor de livros como A Pista de Gelo e Noturno do Chile reinventou no romance o épico clássico

Francisco Goldman, THE NEW YORK REVIEW OF BOOKS, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

"A pátria ou o país de um escritor, como afirmou alguém, é a sua língua. Parece um pouco demagógico, mas concordo totalmente." Esta frase é de um discurso proferido por Roberto Bolaño ao receber o Prêmio Rómulo Gallegos, em 1999, outorgado pelo governo da Venezuela. Bolaño recebeu o prêmio por Os Detetives Selvagens, sua exuberante e extensa narrativa sobre dois poetas latino-americanos, livro que o transformou numa celebridade literária, considerado um dos mais talentosos e criativos romancistas em língua espanhola. Nas entrevistas, a pergunta mais freqüente era se ele se considerava chileno, pois nascera em Santiago do Chile, em 1953, ou espanhol, já que tinha vivido na Espanha nas últimas duas décadas da sua vida, até sua morte em 2003, ou mexicano, pois passou dez anos na Cidade do México antes de se mudar para a Espanha. Algumas vezes ele respondia "sou latino-americano" e em outras ocasiões dizia que a língua espanhola era seu país. Os inseparáveis perigos da vida e da literatura, o relacionamento da vida com a literatura foram temas constantes da obra de Bolaño e também da sua vida, da maneira que ele, desafiadoramente, decidiu viver. No fim dessa vida, Bolaño escrevera três coleções de contos e dez romances. O último desses romances, 2666, ainda não estava finalizado quando ele morreu, o que não impediu muitos leitores e críticos de considerarem essa sua obra-prima. Trata-se de uma proeza violenta baseada, em parte, nos assassinatos até hoje não solucionados de centenas de mulheres em Ciudad Juárez, no deserto de Sonora, no México, perto da fronteira com o Texas. Contudo, o escritor com quem os críticos de língua espanhola costumam comparar Bolaño é o argentino Jorge Luis Borges, famoso pelo amor singular pelos livros e pelas brincadeiras metafísicas, a erudição e a brevidade de suas obras assexuadas. Com essas comparações os críticos quiseram enfatizar apenas a importância dada a Bolaño, embora quanto mais se lê Bolaño mais interessante e apropriada é a comparação entre os dois escritores. Bolaño reverenciava Borges. Seria feliz, afirmou certa vez, se sua vida fosse como a de Borges - relativamente sedentária, devotada à literatura e a um pequeno círculo de amigos que comungavam das mesmas idéias, uma "vida feliz". Mas Bolaño viveu a maior parte da sua vida de uma outra maneira. "Minha vida", disse, "foi infinitamente mais selvagem do que a de Borges." Bolaño nasceu em Santiago, viveu a infância numa cidade do interior. Seu pai era caminhoneiro e boxeador, sua mãe professora. Em 1968, buscando uma nova vida, os pais mudaram-se para a Cidade do México, com Roberto e a irmã. Foi nesse ano que as tropas do governo ocuparam o campus da Universidade Autônoma Nacional do México e massacraram centenas de estudantes que protestavam na Tlatelolco Plaza. Um ano após chegar ao México, decidiu que seria poeta e abandonou os estudos. Em 1973, aos 19 anos, dizendo-se trotskista, foi para o Chile, onde o socialista Salvador Allende tinha sido eleito presidente. A maior parte do trajeto foi feita de ônibus, uma viagem comparável à descrita no filme Diários de Motocicleta, salvo que Bolaño viajou por um continente bastante influenciado pela vida e morte, mitológicas, de Che Guevara. Em El Salvador, Bolaño conviveu com os futuros líderes da guerrilha de esquerda Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, e chegou ao Chile num dia não muito distante de 11 de setembro de 1973, quando os militares chilenos, conduzidos pelo general Augusto Pinochet, depuseram Salvador Allende, que morreu durante o golpe. Partidários do presidente e jovens inocentes foram presos; milhares "desapareceram". Bolaño passou oito dias na prisão até que, reconhecido por dois guardas antigos camaradas de escola, foi libertado. Retornou ao México e, como afirmou, "dediquei-me a escrever com minha aura de veterano de guerra". Em 1974, o poeta Mario Santiago levou um grupo de amigos, expulsos do workshop de poesia da Unam, para visitar Bolaño. No encontro, Bolaño teve a idéia de criar um movimento poético, contra a cultura oficial, que chamou de Movimiento Infrarrealista de Poesía. Seus heróis eram os beatniks, os dadaístas, malditos como Rimbaud e Lautréamont, além de figuras mais obscuras. O inimigo declarado, o poeta e intelectual Octavio Paz, considerado representante da "cultura oficial" do México. Os "infra-realistas" interrompiam leituras públicas de Paz aos gritos e certa vez teriam jogado vinho em sua camisa. O manifesto infra-realista de Bolaño é um dos seus primeiros trabalhos que pode ser lido. Intitulado Déjenlo Todo, Nuevamente ("Deixe tudo para trás, novamente"), esse manifesto é uma associação livre de uma profusão exuberante de palavras. Em vez de estabelecer princípios ou compromissos estéticos, o manifesto exorta os infra-realistas a abandonarem seus círculos literários fechados, a olharem o mundo e encontrarem sua poesia rebelde em suas vidas, a serem vividas sem concessões. Algumas das suas exortações, como a repetida frase "O poema é uma viagem e o poeta é um herói que revela heróis", parecem surpreendentes à luz dos romances de Bolaño na idade madura, que descrevem as fatídicas viagens dos poetas. Em 1976, na Cidade do México, Bolaño publicou seu primeiro livro, a coleção de poesias Reinventando el Amor. Um ano depois, muda-se para a Espanha, vivendo algum tempo em Barcelona. Logo depois, Muchachos Desnudos bajo el Arcoiris de Fuego, antologia de 11 jovens poetas latino-americanos, incluindo ele próprio e Santiago, foi publicada no México. Um romance curto escrito com Antoni G. Porta, Consejos de Um Discìpulo de Morrison a Um Fanático de Joyce, conquistou um pequeno prêmio em 1984. Na década seguinte, o Bolaño escritor desapareceu. Durante esses anos ele se sustentou com diversos empregos e um baixo salário, entre eles o de vigia noturno num camping nos arredores de Barcelona; enfim, instalou-se em Blanes, pequena cidade balneária ao norte de Barcelona. Bolaño sempre se considerou um poeta acima de tudo. Porém, em 1990, quando ele e sua companheira, Carolina López, tiveram um filho, Lautaro, entendeu que agora era responsável por uma família. Era um homem pobre, um estrangeiro latino-americano e, como poeta, obscuro. Decidiu sustentar a nova família tornando-se autor de ficção. Aconselhado por um amigo, encontrou uma maneira inteligente, embora pouco funcional, de escrever: participando de concursos literários provinciais. Em 1993, A Pista de Gelo foi premiado. A história envolve a descoberta de um misterioso corpo nu, que se descobre pertencer a um poeta. Um ano depois, seu romance Monsieur Pain, cujo protagonista era baseado no poeta peruano Cesar Vallejo no leito de morte em Paris, ganhou prêmio na cidade de Toledo. O romance seguinte foi La Literatura Nazi en America, uma enciclopédia de imaginários escritores ultradireitistas sul e norte-americanos. Jorge Herralde, editor e proprietário da editora Anagrama, queria publicá-la, mas como Bolaño era tão pobre que não podia sequer ter um telefone, Herralde só conseguiu contatá-lo depois que seu romance foi vendido, por uma ninharia, para uma outra editora, cuja edição logo depois se esgotou. Porém, a Anagrama publicou o romance seguinte de Bolaño, Estrella Distante, em 1996, e a partir daí publicou pelo menos um de seus livros a cada ano durante o resto da vida de Bolaño: duas coleções de contos, quatro romances curtos e um livro de ensaios e críticas. Nos seus cinco últimos anos de vida, Bolaño também trabalhou sem cessar na sua obra monumental, 2666. De acordo com o narrador de Mauricio (?O Olho?) Silva, uma das histórias narradas por Bolaño em Last Evenings on Earth, "a violência, a verdadeira violência, é inevitável, pelo menos para aqueles que, como nós, nasceram na América Latina durante os anos 50 e tinham seus 20 anos na época da morte de Salvador Allende". Mas a história que O Olho, um fotógrafo homossexual, conta ao narrador, seu amigo chileno exilado na Europa, é absurda: numa viagem à Índia, ele salvou dois jovens, um deles eunuco, de um bordel, e fugiu com ambos para outro vilarejo onde procurou criá-los até que, depois de um ano e meio, ambos morreram doentes. Quando a história termina, com O Olho soluçando, é difícil compreender qual é a sua relação com a "violência que não nos deixará ser; todos os latino-americanos que nasceram nos anos 50", e com "aqueles que combateram por Salvador Allende e os que ficaram muito apavorados para lutar". É como se Bolaño satirizasse a costumeira autopiedade do exilado. Contudo, o sentimento que emana da história, de uma tristeza solitária e indescritível, deixa o leitor com um sentido intuitivo da sua veracidade similar a alguma coisa que não é a veracidade literal. Em seu romance Os Detetives Selvagens, Bolaño narra outra história "instrutiva" sobre sua geração: contada por Arturo Belano a um amigo, envolve dois escritores que ele conheceu: um peruano e um cubano, "um poeta e um escritor", que "acreditavam em revolução e liberdade, da mesma maneira que todo escritor latino-americano nascido nos anos 50". Ambos desfrutavam um sucesso literário, mas "aconteceu com eles a mesma coisa que quase sempre acontece com os melhores escritores latino-americanos ou os melhores nascidos nos anos 50: a trindade composta por juventude, amor e morte se revelou a eles, como uma epifania". O peruano, quando vivia em Paris, alinhou-se com maoístas peruanos e viu-se escrevendo "páginas de propaganda revoltante". Quando retornou ao Peru, foi denunciado como "cão traidor e revisionista" pelos guerrilheiros do Sendero Luminoso, enquanto a polícia o considerava um dos ideólogos da guerrilha. Ele podia ser morto por qualquer um deles. O escritor cubano gay "foi arrastado pela merda e pela loucura que passam por uma revolução". "Perdeu seu emprego, foi impedido de publicar seus livros em Cuba, preso e depois de anos de sofrimento foi para os EUA, onde contraiu aids e morreu." A viagem da sua geração para o desencantamento forneceu a Bolaño um tema original, pelo menos dentro da literatura latino-americana contemporânea. Com Bolaño estamos muito distantes da mais famosa geração de romancistas e poetas latino-americanos - Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda, Octavio Paz e outros -, compreendendo aí o antigo e terrível problema latino-americano de literatura e política. Durante décadas violentas na América Latina na agitação da guerra fria, esses escritores mais velhos costumavam usar o púlpito da sua fama para defender um lado ou outro. Mas em seus romances e poemas eles ensaiavam a arte não didática que "transcendia" as realidades políticas imediatas. Nas obras de García Márquez, escreveu Mario Vargas Llosa em 1971, "o tema social e político, embora essenciais na sua ficção, aparecem de modo oblíquo". Um romancista como ele, escreveu Vargas Llosa, declara guerra contra a realidade mundana e tenta suplantá-la. Bolaño escreveu sobre violência política diretamente, usando um recurso que não pode ter promovido a literatura de "delação" que García Márquez condenava. Ele chegou até a afirmar que a violência funcionava nos seus romances "de um modo acidental, como a violência realmente funciona por toda a parte". Estrella Distante é a história de Carlos Wieder, um assassino de mulheres poetas. Wieder, poeta medíocre, inscreve-se num workshop de poesia com o narrador, não nomeado, e outros estudantes, incluindo as talentosas irmãs gêmeas Veronica e Angelica Garmendia. Quando ocorre o golpe de estado no Chile, do general Pinochet, os estudantes se dispersam e desaparecem. Wieder procura as duas irmãs e chega a uma casa da família no interior, onde passam uma noite declamando poesias e conversando, imagina o narrador, sobre o poeta e intelectual de esquerda Enrique Lihn. No meio da noite, Wieder mata a tia que dorme no seu leito; minutos depois quatro homens chegam à casa e Wieder deixa que eles entrem. E cabe a nós imaginarmos o que os homens fazem na casa, mas o resultado é claro. Wieder trabalha para o regime de Pinochet como piloto da Força Aérea. Ali, encontrou um meio de reviver sua carreira de poeta: sobre os Andes, escreve nos céus seus poemas. E é aclamado, em especial pelos partidários do novo regime, como "o maior poeta desta era". Mais tarde, Wieder desaparece e o narrador, agora na Espanha, durante décadas procura traçar o caminho seguido por ele, difícil de localizar. Um detetive chileno exilado entra na história, contratado por um benfeitor misterioso. O detetive paga o narrador com seus conhecimentos de poesia, para procurar algum sinal de Wieder em revistas literárias obscuras, com nomes como Hibernia e Mr. Pete. Ou poderia Wieder pertencer à seita parisiense dos "escritores bárbaros", que mantêm uma "comunhão" com as obras de Stendhal, Victor Hugo e outros escritores franceses, defecando e se masturbando sobre seus livros? Em uma das revistas literárias, o narrador encontra um ensaio propondo que "a literatura deve ser escrita por pessoas não literárias... A correspondente revolução na escrita... num certo sentido vai abolir a própria literatura". E ele reflete: "Alguma coisa me dizia que esse defensor particular dessas obras primitivas era Carlos Wieder." Wieder encarna o solipsismo do artista medíocre ou fracassado, que odeia até à vingança sua arte e seus praticantes. Mas se os literatas são com freqüência medíocres, por que devemos amar a literatura ou considerá-la heróica? Os Detetives oferece a resposta de Bolaño. O primeiro de seus romances mexicanos é tão extenso quanto são curtos seus dois romances chilenos de literatura e do mal (Estrella Distante e Noturno do Chile). Os amigos de Bolaño costumam brincar que ele não permite que ninguém fale algo bom sobre o Chile nem algo ruim sobre o México. Como observou sua amiga, Carmen Boullosa, ele considerava o Chile o inferno na sua juventude e o México, o paraíso. Mas ele nunca voltou ao México depois de sair de lá, em 1977. Os Detetives Selvagens não é apenas a recriação "fantasmagórica" de Bolaño da Cidade do México da sua juventude, mas também um uso incomum do vernáculo exuberantemente barroco da cidade, uma mistura de gíria tradicional e de vários subculturas (adolescentes, marginais, baladeiros-drogados, boêmios arrogantes de classe alta). Por todo o épico plurilingüístico de Os Detetives Selvagens, a talentosa tradutora Natasha Wimmer está quase sempre à altura da tarefa, embora deva ser dito, também é impossível fazer o espanhol mexicano soar como inglês mexicano. Os Detetives é um duplo auto-retrato de Roberto Bolaño como poeta e como jovem. O chileno Arturo Belano que, com seu amigo, Ulises Lima, lidera os poetas realistas viscerais, já teve uma revelação da "trindade da juventude, amor e morte". O livro o acompanhará através de seus anos na Espanha até 1996, quando, já doente, desaparece na África despedaçada pela guerra, em busca de um esquecimento no estilo de Rimbaud ou até mesmo da morte. Mas o narrador García Madero é o poeta no seu momento de rebelião e empolgação adolescentes que acredita que a vida de poeta, a única vida que vale a pena ser vivida, será uma de aventuras e revelações sem limites. Ele deixa a escola, abandona seu lar, monta uma biblioteca que cada vez aumenta mais com livros furtados de lojas e logo não há mais uma volta para sua jornada de descoberta - da poesia e dos poetas, da cidade ("Vaguei de um lugar para outro como um fragmento de um navio naufragado") e, mais que tudo, do amor e do sexo, pois o despertar das energias sexuais de García Madero parecem inesgotáveis, prometendo tantas possibilidades e perigos como a própria cidade. No final da primeira parte do livro, na véspera do Ano-Novo, García Madero, Arturo Belano, Ulises Lima e a prostituta longilínea e irrequieta conhecida como Lupe partem da Cidade do México num Impala branco, fugindo do violento e ciumento cafetão de Lupe. Tomam o rumo do deserto de Sonoran em busca do objeto da obsessão de Lima e Belano - a esquecida, nunca mais que que obscura poetisa chamada Cesárea Tinajera, uma das estridentistas originais - do movimento poético mexicano da década de 1920, embora a personagem de Tinajera seja ficcional - e uma inspiração para os realistas viscerais. Na segunda parte com 400 páginas do romance, intitulada Os Detetives Selvagens, 38 personagens de um total de 15 cidades e oito países diferentes, falam como se fosse para um detetive invisível que está caçando Belano e Lima há 20 anos. Os personagens contam a interligação de suas vidas com a vida dos realistas viscerais e divagam nas suas próprias histórias. A narrativa não se desenrola em ordem cronológica, mas retorna a uma longa noite - "quando a noite afunda na noite, embora nunca de repente, a noite da Cidade do México" - durante a qual Belano e Lima visitam Amadeo, um poeta estridentista velho e pobre que parece ser o único homem vivo a ter lembranças claras de Cesárea Tinajera na sua juventude na Cidade do México. Ele possui um exemplar da revista de poesia com 50 anos de idade, na qual ela publicou seu único poema conhecido. Amadeo fica admirado e encantado por ter sido encontrado pelos dois garotos e por poder passar uma longa noite conversando sobre poesia, revivendo sua juventude e bebendo - eles acabam com uma rara garrafa de mezcal (bebida destilada mexicana feita de piteira-do-caribe, nome genérico para licores mexicanos), talvez a última restante no México, com um nome talismânico. "Ah, que pena que eles não fabricam mais o mezcal Los Suicidas", diz Amadeo, "que pena que o tempo passa, não acham vocês? Que pena que nós morremos, ficamos velhos e tudo o que é bom sai galopando para longe de nós." Em Os Detetives Selvagens, Bolaño mostra como o tempo nos pune pelos sonhos rebeldes da juventude, trazendo decepção, realizações modestas, amores partidos, doença, até morte violenta, o fim da juventude. Mas para os leitores que não são mais jovens, o romance também evoca a juventude com toda sua hilaridade e drama exagerado e nos traz à lembrança a pureza da fé dos jovens - acima de tudo na poesia. O livro consegue fazer com que o leitor se afeiçoe aos personagens, quase como um pai, desejando a felicidade deles, atormentando-se quando esta se esquiva deles e, por último, sendo obrigados a aceitar que eles viverão seus destinos por contra própria. Nenhum personagem num romance é desprezível ou mesmo detestável quando trazido à vida com maestria, energia e inteligência. Por exemplo, os esnobes e pedantes estéticos de classe alta delineados de forma hilariante por Bolaño são tipos muito reconhecíveis da Cidade do México. Mesmo o comportamento deliciosamente estranho do personagem "Octavio Paz", no único episódio a ele dedicado, parece escrito afetuosamente. Em contraposição ao reverenciado García Madero, muitos dos personagens do miolo do livro que lembram seus encontros com Belano e Lima são rápidos em menosprezá-los, chamando-os de "surrealistas baratos e marxistas falsificados" e, não muito injustamente dado o que ocorre em vários encontros sexuais cheios de ansiedade, de "limp dicks". Não consigo pensar em um outro escritor do sexo masculino em qualquer língua que crie diferentes personagens femininas de forma mais convincente nem com mais sensibilidade do que Bolaño, apesar de toda sua crueza. Por exemplo, Belano e Lima buscam relações amorosas com várias mulheres judias da Cidade do México que, embora judias, são também tão mexicanas quanto qualquer outra personagem, o que não deveria causar surpresa, a não ser para os leitores de língua inglesa que gostam de insistir em definições raciais rigorosas da identidade latino-americana. As mulheres vibrantes de Bolaño indicam um outro aspecto da sua originalidade, ao menos no contexto da ficção latino-americana. Quando Julio Cortázar, em O Jogo da Amarelinha, retratou os jovens latino-americanos em Paris, uma implicação era que Paris era para aonde eles tinham de ir para encontrar liberdade pessoal e um modo de vida interessante e moderno. Bolaño tem reconhecido sua dívida para com o romance de Cortázar, mas a Cidade do México de Os Detetives Selvagens, apesar de todos seu caráter e perigo locais, tem mais em comum, ao menos na maneira que os jovens personagens sofisticados e boêmios do livro a habitam, com cidades como Nova York e Paris do que com qualquer cenário tradicional latino-americano. O romance retrata a Cidade do México durante os anos que o resto do mundo estava descobrindo Cem Anos de Solidão traduzido, livro cujo sucesso global teve as conseqüências, que seu autor nunca poderia ter previsto, de criar estereótipos folclóricos da vida na América Latina e a associação quase exclusiva da literatura latino-americana com o realismo mágico que tem perdurado por quase 40 anos. Um dos motivos de a Cidade do México ter sido o paraíso para Bolaño foi que estava distanciada da violência política que convulsionava grande parte da América Latina na época. O México teve um 1968 traumático e sua cultura foi afetada mas, como parece sempre se seguir às calamidades, o país recuperou logo o equilíbrio peculiar. ("Quando toda a civilização mundial desaparecer, o México continuará existindo, quando o planeta se evaporar ou se desintegrar, o México ainda será o México", diz um personagem em Os Detetives Selvagens.) Isso é bem dramatizado quando um grupo de escritores mexicanos de esquerda viaja para a Nicarágua sandinista numa excursão. O nome Ulises Lima evoca o amor de Bolaño por Joyce e também por José Lezama Lima, muitas vezes considerado o Joyce da língua espanhola, e parece confirmar as intenções de Bolaño de criar, com Os Detetives Selvagens, um épico contemporâneo. (Quando o crítico mais influente da Espanha, Ingnacio Echevarria, observou que Os Detetives Selvagens era "o tipo de romance que Borges poderia ter anuído escrever", certamente estava se referindo, ao menos em parte, à reinvenção do épico clássico no romance. Mas Bolaño disse, também, que escreveu seu romance para que ele e Mario Santiago pudessem rir juntos. Em 1988, ano em que o livro foi publicado, Santiago foi atingido por um carro na Cidade do México e morreu antes que pudesse lê-lo. A parte final, com 50 páginas, do romance, mais uma vez narrada por García Madero, nos leva de volta à década de 1970, onde deixamos a ele e a seus amigos no deserto fugindo do cafetão de Lupe. Nas últimas páginas do livro, García Madera e Lupe acabaram de se separar de Belano e Lima. Eles encontraram o objeto da sua pesquisa de detetive - Cesárea Tinajera - só para causar a morte dela, já que ela é atingida por tiros num violento confronto na solitária rodovia do deserto com o cafetão assassino e o policial corrupto que o acompanhava, que vinha perseguindo Lupe sem descanso. Assim, todos os temas de Bolaño convergiram - a procura do poeta por seu esquivo ídolo ou pelo próprio mito da poesia, a inter-relação entre a poesia e o crime, a violência da qual os latino-americanas nascidos na década de 1950 não conseguem escapar, a trindade da juventude, amor e morte. Nesse ponto, já sabemos o que acontecerá a Belano e Lima. E quanto a Lupe e Garcia Madero? Nenhum dos personagens da longa parte central do livro menciona ou parece se lembrar do jovem e 17 anos, Juan García Madero. No começo do romance, no tumultuado botequim mal frequentado, onde os realistas viscerais costumam se reunir, Brígida, a garçonete com quem García Madero tem sua primeira experiência sexual, mas depois o perde para outra garçonete, Rosário, faz uma profecia. Ela diz a García Madero: "Você vai morrer jovem, Juan, e vai agir mal com Rosário." A essa altura do romance, a segunda previsão já se concretizou. Mas ela também disse a García Madero que ele precisava de uma boa mulher que o apoiasse, e ele parece ter encontrado essa mulher em Lupita. O romance termina com o casal perdido no deserto, o que é uma imagem de lugar nenhum ou dos infinitos caminhos que se estendem na direção do horizonte. Em uma de suas entrevistas, Bolaño fez uma distinção entre autores celebrados cujas obras inspiram imitadores e um escritor como Borges, cujas ficções abriram caminhos de experimentação literária para outros escritores explorarem. Os Detetives Selvagens, num sentido diferente, abre novos caminhos também, alguns apontando para o Norte, para a fronteira com os EUA, o cenário primordial do romance seguinte de Bolaño, 2666. Esse cenário é a cidade fictícia de Santa Teresa, onde muitas mulheres jovens são assassinadas e onde um misterioso romancista, alemão veterano alemão da 2ª Guerra, Benno von Archimboldi, talvez esteja escondido. As múltiplas linhas narrativas de 2666 são conduzidas por narradores que parecem também representar várias de suas influências literárias, desde a vanguarda européia à literatura sensacionalista, passando pela crítica literária, e convergem para a cidade de Santa Teresa como se propelidos na direção de alguma revelação final unificadora. Parece apropriado que o fim abrupto de 2666 nos deixe sem saber que revelação poderia ter sido essa, o que resulta num final aberto, em caminhos a serem reconstituídos e retomados, deixando tudo para atrás novamente. No Brasil OS DETETIVES SELVAGENS: Os protagonistas são Arturo Belano e Ulises Lima, dois poetas dos quais sabemos por meio do olhar de outros personagens. Os dois estão atrás dos rastros de uma misteriosa poeta vanguardista que desapareceu no deserto de Sonora, no México. A primeira parte é escrita em forma de diário, que reconta as andanças dos dois e seu grupo de poetas adeptos do "realismo visceral". A segunda parte é composta por dezenas de "depoimentos" que reconstituem a trajetória de Arturo Belano e Ulises Lima durante os 20 anos que sucedem o diário. (Companhia das Letras, 624 págs., R$ 62,50) NOTURNO DO CHILE: Misturando ficção e histórias reais, o livro é um denso monólogo constituído de apenas dois parágrafos - o primeiro ocupa quase todo o livro, e o segundo é uma frase de apenas oito palavras. Com a certeza da proximidade da morte, o padre Sebastián Urrutia Lacroix, o narrador, repassa de modo febril cenas de sua vida de poeta e crítico literário "comedido e conciliador". Entre elas, as insólitas aulas de marxismo que deu a Pinochet e seus militares. Não por acaso o livro já foi definido como um acerto de contas de Bolaño com a ditadura chilena e com a vida literária do país. (Companhia das Letras, 120 págs., R$ 32) A PISTA DE GELO: Nesse primeiro romance de Bolaño, o terceiro a ser publicado no Brasil, três vozes se alternam para narrar, de um jeito intrincado, um assassinato que, sem maiores explicações, ocorre em uma cidadezinha espanhola, mais precisamente em um pequeno balneário da costa catalã. Remo Morán, pretenso escritor e dono de bar, Gaspar Heredia, poeta mexicano e vigia de um acampamento, e Enric Rosquelles, funcionário da prefeitura, se alternam na narrativa de um crime que envolve uma bela patinadora e uma pista de gelo clandestina. (Companhia das Letras, 200 págs., R$ 37)

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