Bola de cristal

Marquei um jantar com meu amigo Vladimir Sacchetti no restaurante do Pasquale, na semana passada. O objetivo era propor-lhe um trabalho de pesquisa iconográfica. Ele aceitou a encomenda, sem delongas; ficou de fazer um orçamento. E logo mudou de assunto. Queria discutir as eleições americanas. O que acontecia por lá? Que loucura é essa, da Sarah Palin? Qual o impacto da crise econômica? Como entender o processo? Quem vai ganhar?Ensaiei algumas respostas, mas nada de muito incisivo. Senti uma ponta de decepção no Vladimir. Ele esperava informações melhores do seu amigo americano. Dei-lhe garantias de que estava acompanhando as campanhas. Leio o New York Times, o Washington Post, CNN, Político.com, o Huffington Post, Salon, e outros sites, quase todos os dias, frisei, mas está difícil fazer qualquer prognóstico. Na volta para casa, depois de uma passada na Livraria da Vila, refleti que, de perto, ninguém é normal. Se o mundo todo acompanhasse o processo eleitoral brasileiro com ansiedade, também surgiriam dúvidas. Os apelidos dos candidatos provocariam questionamentos entre europeus, ao menos, sem falar do horário gratuito na TV.Mas, convenhamos, nesta eleição os americanos capricharam. Está divertida demais. Todas as idiossincrasias do país vieram à tona, com direito até dos costumes do povo lá do Alasca, espécie de Amazônia americana, só que frio.De longe, o democrata Barack Obama parece ser quase que uma necessidade histórica. Representa a chance de os Estados Unidos se reinventarem, virarem uma página amarga de relações raciais, de saírem do Iraque e se reinserirem, com energia renovada, na comunidade internacional em um momento de intensa globalização e desafios mundiais (como o aquecimento do planeta, por exemplo). Mas não há nenhuma garantia de que ele vencerá.Quanto maior a crise econômica americana, mais cresce o medo entre os eleitores. Teoricamente, eles buscariam abrigo entre os democratas. Afinal, foi um republicano, George W. Bush, que dirigiu o país nos últimos oito anos, com resultados desastrosos. Mas Obama não inspira segurança entre eleitores indecisos. Ele é, acima de tudo, uma novidade, jovem e sem experiência executiva, com ares e formação de intelectual. McCain, por outro lado, apresenta physique du rôle mais reconfortante aos americanos do centro. Parece um avô. É branco, como todos os presidentes da história. Já passou por muito, como piloto e marine. Seu problema é que defende - ou melhor, defendia - a política republicana que resultou na situação econômica atual.Na semana passada, McCain mudou seu discurso, como assinalou Gail Collins, do New York Times, minha colunista favorita no momento, que se saiu com esta: "Vamos acabar com os abusos de Wall Street. Basta! Vamos acabar com a ganância!"Soa falso esse discurso na boca de um republicano que defendeu a liberdade de mercado, sem amarras, ao longo da carreira, ainda mais ao lado da mulher milionária. Regras, na visão do McCain, sempre foram vistas como custos desnecessários a impedir a criação de riqueza.A eleição está nesse ponto. Obama subiu e está com uma vantagem pequena nas pesquisas nacionais. Mas estas valem pouco ou nada numa disputa acirrada que será decidida no colégio eleitoral. Para quem quer acompanhar a situação de perto, sugiro o site bola de cristal (www.centerforpolitics.org/crystalball), do professor Larry J. Sabato, da Universidade da Virgínia. Sua última apuração deu 200 votos "garantidos" para Obama e 174 para McGain no colégio eleitoral. Os outros votos estão em jogo, em Estados-chave. São necessários 270 para levar a eleição. Segundo Sabato, um empate com 269 votos para cada candidato não é impossível. Nesse caso, a eleição seria decidida pelo Congresso (provavelmente a favor do democrata).Fique ligado!

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