Boas festas

As festas começaram a aguçar minha curiosidade no carnaval do Clube Indaiá de Dourados, Mato Grosso do Sul, em 1976. Acabara eu de chegar ao Brasil pela primeira vez, da Califórnia, onde morava. Tinha apenas 17 anos e nada falava de português.No dia seguinte ao baile no clube, passei a contemplar o que me levara a vestir uma túnica, entoar versos cujo significado desconhecia, com grande entusiasmo, diga-se, dançar a noite inteira abraçado com homens (mais) e mulheres (menos), até ser jogado na piscina pelos meus companheiros de samba e o dia raiar.As reflexões se iniciaram ainda de manhã diante de um pastel, na feira, se a memória não me falha. A cerveja e o uísque contribuíram para aquele comportamento, concluí, de forma provisória. Mas havia mais do que isso. Afinal, tomara bebidas alcoólicas em outras ocasiões sem ter agido daquela forma. Túnica jamais vestira, ao menos.Era a festa. Hoje parece óbvio. Mas foi uma revelação para mim na época. Tradições brasileiras desconhecidas - ou seriam milenárias? - me levaram a agir daquela forma, apesar de ser gringo.Como ainda não falava português, e quase ninguém em Dourados falava inglês naquela época, sobrava tempo para reflexão em Mato Grosso. Morava num quarto do Grande Hotel no centro da cidade, perto da igreja. E aproveitei o calor depois do almoço, a hora da sesta, para passar em revista as festas da minha vida até então, americanas e tímidas todas elas diante do carnaval - que uma vez conhecido, me marcaria para sempre.Com o possível exceção do meu aniversário de Batman, o Natal fora a festa favorita minha desde pequeno. Minha saudosa avó, criada na grande depressão da década de 1930, enchia o carro de presentes e nós, eu e meus irmãos, aguardávamos sua chegada com enorme expectativa e ansiedade. Ficávamos na calçada, em frente de casa, aos pulos. Era ela a única antenada aos novos tempos da televisão e da propaganda, que engatinhava ainda e redefinia o Natal. Só ela entendia quanto precisávamos daqueles brinquedos todos. Meu pai, ex-religioso convertido à contracultura da década de 1960, achava aquilo comercial e crasso, se deprimia.Foi a partir daquele baile do Clube Indaiá de Dourados que comecei a me interessar pelas festas, como vinha dizendo, antes da digressão. E esta curiosidade me acompanharia vida afora, na teoria e na prática. Aprendi que o carnaval tinha sido reprimido na França durante o século 19, convertido, nas áreas rurais do país em comemorações do 14 de julho. Lia o que achava pela frente sobre o assunto. A análise brilhante do Mardi-Grás (terça-feira gorda), em New Orleans, realizada por Roberto DaMatta no hoje clássico Carnavais, Malandros e Heróis, foi um marco, lembro-me disso.Este ano ganhei um livro interessante sobre as festas natalinas. Chama-se Guia de Curiosidades Católicas: Causos, Costumes, Festanças e Símbolos Escondidos no Seu Calendário (Editora Vozes, 2007). É da autoria de Evaristo Eduardo de Miranda, uma figura incomum que tenho o prazer de conhecer. Chama atenção no Evaristo os conhecimentos enciclopédicos em duas áreas por vezes excludentes: religião e biologia evolutiva.Neste livro, ele narra a origem de costumes natalinos em verbetes. Eu não sabia, para dar um exemplo, que o figurino atual do Papai Noel fora desenhado pela primeira vez por um cartunista da revista americana Harper''''s Weekly, em 1886, mas que o personagem é inspirado em São Nicolau Taumaturgo, nascido na atual Turquia no ano de 280. Até o fim do século 19, Papai Noel vestia-se como um bispo, em tons menos chamativos.Tampouco sabia que Jesus nasceu em Belém porque seu pai, José, para lá voltara nos últimos dias da gravidez da Maria, a fim de ser contabilizado pelo censo do César Augusto. O IBGE do império romano era levado a sério, segundo conta Evaristo.Ele explica, ainda, a origem dos presentes natalinos, o significado das luzinhas, hoje feitas na China. E afirma, de pés juntos, que a coreografia das procissões católicas inspiraram os desfiles do carnaval. Desconfiava eu, ainda em Mato Grosso, que havia uma ligação entre o Natal e o carnaval. Boas festas!

Matthew Shirts, O Estadao de S.Paulo

23 de dezembro de 2007 | 00h00

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