Blanchard e George Lucas, a dupla

O trompetista, que toca em SP, ainda faz trilhas para Spike Lee, mas, a pedido do produtor, compõe a do filme Red Tail

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

09 de setembro de 2009 | 00h00

Seu mais recente CD, Choices (Escolhas), foi lançado no mês passado, nos EUA, e revela músicos jovens e talentosos de New Orleans para o mundo. A escolha confirma a generosidade de um premiado e veterano trompetista, Terence Blanchard, empenhado pessoalmente na reconstrução física e espiritual da cidade americana após a passagem do furação Katrina, em agosto de 2005, que deixou 1 milhão de pessoas desabrigadas e mil mortes no seu rastro. Blanchard, aos 47 anos, mostra-se capaz de renovar sua linguagem, após a fusão erudita de A Tale of God"s Will (A Requiem for Katrina), gravado em 2007. E é justamente o repertório de Choices, primeiro disco gravado por ele em New Orleans, que Blanchard apresenta, hoje e sexta-feira, no Bourbon Street, em São Paulo. Ontem, durante o intervalo de seu ensaio, o trompetista falou com o Estado, por telefone.

Blanchard mudou-se para New Orleans após a tragédia provocada pelo Katrina e lá dirige o Thelonious Monk Institute of Jazz. Fez tudo para conseguir transferir a sede do instituto, que ficava em Los Angeles, incentivado por Herbie Hancock - o pianista considera New Orleans o berço e a alma musical dos EUA. Em New Orleans, Blanchard, que estudou no New Orleans Center for the Creative Arts , ficou amigo do professor de religião e filósofo Cornel West, ativista político e autor do livro Race Matters, cuja voz é ouvida no CD. Blanchard diz que vai usar trechos de seu discurso sampleado no show: "West é uma das vozes mais lúcidas dos EUA, um humanista que luta pela justiça e contra o racismo, um mestre que merece ser ouvido."

Autor de quase todas as trilhas dos filmes de Spike Lee, Blanchard revelou que está compondo a música do filme Red Tails, ainda em fase de pós-produção. Dirigido pelo jovem cineasta negro Anthony Hemingway, realizador da série televisiva Heroes, o filme foi produzido por George Lucas (de Guerra nas Estrelas). Coerente com sua posição de valorizar a cultura afro-americana e preservar a memória dos negros, ele aceitou escrever a trilha ao saber que Lucas queria contar a história dos soldados do Tuskegee Airmen, primeiro esquadrão de aviadores negros que serviram na 2ª Guerra Mundial.

Isso não significa que Blanchard tenha trocado a parceria de Spike Lee por superproduções (o filme de Hemingway tem um superelenco liderado por Cuba Gooding Jr.). Nos filmes de Spike Lee, de Faça a Coisa Certa (1989) a Milagre em Santa Anna (2008), o trompetista e compositor teve liberdade para fazer o que queria. Sobre essa liberdade, ele comenta a trilha do primeiro O Plano Perfeito (Inside Man) - a sequência será lançada em 2010 -, que traz no epílogo um tema chamado Chaiyya Chaiyya (do filme indiano Dil Se, lançado em 1998). Blanchard explica que essa vigorosa mistura de música indiana com rap e hip hop é o único material musical não original da trilha, que segue o modelo clássico das trilhas de Alex North. "Não sou purista como Wynton Marsalis nem tenho nada contra a fusão de gêneros, e considero mesmo que o jazz deva se abrir à música oriental."

E não só oriental. Ao atrair jovens músicos de origens diversas - o pianista, Fabian Almazan, é cubano -, sua intenção é justamente a de renovar o repertório e mudar seu padrão musical. No disco Choices, Almazan assina uma música (Hacia del Aire) e pode-se ouvir o cantor neo-soul Bilal. Nos shows do Bourbon Street, Bilal não vem, mas Blanchard toca acompanhado, além de Almazan, pelo saxofonista Brice Winston, o baixista Derrick Hodge e o baterista Kendrick Scott, uma força da natureza na percussão. Eles formam uma verdadeira família - Blanchard está preocupado em restabelecer laços familiares, justificando que as pessoas andam se sentido desamparadas. "Com a crise econômica e tudo mais, temos de fazer a escolha certa e resgatar os laços comunitários que nos ajudam a enfrentar o que vem pela frente."

Blanchard mostra-se otimista com o presidente Obama, cujo governo encontra dificuldades para desenvolver alguns projetos na área social. "A reconstrução de New Orleans segue lenta, mas, pelo menos, agora é transparente a transferência de verbas para ajudar as famílias desabrigadas."

Choices, embora traga uma mensagem otimista, é carregado por uma atmosfera melancólica. O CD evoca o premiado A Tale of God"s Will (A Requiem for Katrina). Blanchard diz que o disco atual é mesmo uma sequência desse último, que já retrabalhava temas da trilha do documentário de Spike Lee sobre o Katrina (When the Levees Broke: A Requiem in Four Acts, 2006).

Serviço

Terence Blanchard Bourbon Street (300 lug.). Rua dos Chanés, 127, Moema, telefone 5095-6100. Hoje, às 22h30. R$ 120 Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). Rua Clélia, 93, telefone 3871-7700. Amanhã, às 21 h. R$ 30

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