Biógrafo inglês de Marx diz que ele previu crise atual

A mundialização, o fetiche das commodities e a hegemonia do mercado foram previstos por filósofo, diz Francis Wheen

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

O jornalista inglês Francis Wheen, autor de O Capital - Uma Biografia, já havia lançado, antes dessa, uma premiada biografia de Marx (Karl Marx, 2001, Editora Record). É assumidamente um homem de esquerda, signatário do Manifesto Easton, que no ano passado provocou discussões intermináveis na Inglaterra por rejeitar o relativismo cultural e propor a defesa intransigente da Declaração dos Direitos do Homem contra o ideal fundamentalista das verdades eternas. Wheen prega o triunfo dos valores iluministas e o socialismo, para raiva de sua família de industriais, fabricantes de sopa. Bem-humorado, ele não liga quando alguém brinca com sua ascendência ou sua aparência, a de um típico representante Tory, o partido conservador inglês. Por telefone, de Londres, ele concedeu uma entrevista ao Estado, publicada a seguir.Em Como a Picaretagem Conquistou o Mundo, você observa que a razão está em baixa e que valores do Iluminismo, como a resistência à autoridade e a autonomia intelectual, foram trocados por bolas de cristal, fundamentalismo religioso, misticismo e irracionalismo, Há ainda espaço para a filosofia materialista de Marx num mundo como esse?Sim, não tenho a menor dúvida, especialmente neste momento em que o mundo globalizado deixa de demonizar Marx para reencontrar nele sérias reflexões sobre a substituição de valores humanos pelo poder das mercadorias. Há 17 anos, quando a União Soviética e os países do Leste Europeu entraram em colapso e o Muro de Berlim desabou, havia um consenso de que o capitalismo vencera e Marx não teria mais lugar no mundo contemporâneo. Hoje esses mesmos profetas que o enterraram são obrigados a desenterrá-lo para refletir sobre fenômenos então pouco discutidos como o fetichismo das mercadorias. Marx já tratava disso em sua época. Aliás, não só sobre isso. Poucos lembram, mas ele já falava de globalização, corrupção política e declínio da alta cultura há 150 anos. É só ler O Capital. Está tudo lá nesse livro que precisa ser relido sem a paixão dos ideólogos da guerra fria, que viram em Marx a figura do demônio. Em Como a Picaretagem Conquistou o Mundo, tento descrever como vejo o mundo atual, dominado pela superstição, pela pseudofilosofia e pelo individualismo, uma verdadeira traição aos ideais iluministas. Em O Capital de Marx - Uma Biografia, meu tema é a vida de um homem que tratou da exploração humana, de como os valores humanos seriam transformados em objetos inanimados, antevendo ainda a interdependência das nações, palavra que ele preferia à globalização.Seu livro apresenta Marx como um literato, um intelectual que recorre a diferentes fontes e gêneros, misturando economia com novela gótica, melodrama vitoriano com tragédia grega. Seria possível acrescentar a isso tudo uma pitada metafórica, no estilo bíblico, lembrando as parábolas cristãs sobre como tratar o semelhante. Como essa obra híbrida, que trata dos efeitos da primeira Revolução Industrial, pode ser lida num século dominado pela economia virtual e que rejeita a cultura humanista?A Bíblia é só uma das fontes de Marx, um ateu, claro, mas é possível ouvir ecos de Shakespeare, Dante, Goethe e principalmente Charles Dickens em O Capital, que também precisa ser lido como obra literária de um erudito, e não apenas como um tratado econômico sobre mercadorias tiranizando os trabalhadores que a produzem. Como digo no livro, é preciso ler O Capital como uma obra da imaginação, em que os heróis são consumidos pelo monstro que criaram, exatamente como nas melhores novelas góticas. Um aspecto pouco observado pelos especialistas é a veia satírica de Marx, próxima à de Swift, em particular quando ele fala, de modo sarcástico, da lógica interna do capitalismo. Claro, é uma obra literária típica do século 19, uma espécie de versão dickensiana para o idioma econômico. Se as pessoas ainda se comovem com Dickens, por que não com Marx, que fala dos mesmos despossuídos? Veja, a globalização empurrou para as ruas um contingente de profissionais que hoje não têm função num mundo cada vez mais veloz, tecnológico e desumano. São os miseráveis de Dickens que se vêem sem trabalho e obrigados a descobrir novas maneiras de viver. Aliás, bem mais miseráveis e vivendo em condições mais precárias do que poderia supor a imaginação de Dickens.Você falou em ironia e noto que, além de Edmund Wilson, você foi um dos poucos a observar esse lado de Marx. Por que o mundo acadêmico tem tanta resistência em reconhecer a veia satírica do filósofo?Não sei. Talvez pelo fato de que poucos reconheçam os valores literários de O Capital e apontem Marx como o mestre de genocidas como Stalin e Mao. Fukuyama queria acabar com a história, mas Marx voltou para se vingar. Os literatos ficariam surpresos se tentassem ler O Capital com um olhar menos sociológico e mais compenetrado no escritor, que adorava Dickens. O próprio Marx sabia que seria incompreendido por seus contemporâneos, a ponto de recomendar a leitura de A Obra-Prima Ignorada de Balzac a seu parceiro Engels. Não sei se você lembra do livro, mas Balzac fala de um pintor que se julga revolucionário e pretende pintar o mais realista dos quadros, acabando por produzir uma antecipação da pintura abstrata para surpresa de seu amigo Poussin, que talvez não tenha reconhecido um retrato sob aqueles traços à deriva, após tantos retoques. Marx também foi vítima de más interpretações . Ele foi seccionado, dividido entre o jovem filósofo e economista maduro, quando deveria ser lido como um todo. Fragmentado, ele vira o retrato do pintor de Balzac.Sua opinião sobre Marx, contudo, não é totalmente favorável a ele. De fato, você o descreve como um tremendo ego, um intelectual sádico que não apenas manipulava e subvertia dados a favor de suas teses como um explorador do amigo Engels, a quem não teria dado a mínima quando a mulher deste morreu. Além disso, a considerar suas observações, ele tinha pouco apreço pela classe trabalhadora, tratando-a por vezes com desprezo.É preciso considerar as condições em que Marx viveu, a extrema miséria que enfrentou, o exílio de um homem brilhante perseguido pela polícia e a tragédia familiar que matou seus filhos, por fome ou suicídio. Um homem vivendo assim tão miseravelmente e produzindo uma obra de tal relevância tem de ser desculpado por um ou outro deslize. Era, sim, um tremendo ego, mas, em O Capital, ele se mostra solidário com os trabalhadores ao descrever o cotidiano das vítimas da Revolução Industrial como se estivesse produzindo um romance de Dickens. Eu não o demonizei nem pretendi escrever uma hagiografia, como fizeram outros biógrafos. Quis mostrar o Marx humano. E, também por isso, não podia ocultar informações que não são assim tão obscuras, especialmente o suporte intelectual, e não apenas financeiro, que Engels deu a Marx, ou a polêmica sobre Ferdinand Lassale (que valeu ao pensador acusações de racismo). Marx se acreditava um artista criativo, um poeta, e ficava triste por não ser reconhecido como tal. Isso explica muitas das tiradas rompantes contra seus detratores.

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