Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Bienal testa novo modelo para ser mais polifônica

Em sua 33.ª edição, mostra utiliza artistas-curadores como forma de fugir da ditadura curatorial

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2018 | 06h00

Numa das mais concorridas entrevistas coletivas da história da Bienal de São Paulo (mais de 230 jornalistas de todo o mundo), o curador-geral da 33.ª edição da mostra internacional, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, 48, reafirmou ontem pela manhã o seu propósito de realizar uma exposição sem tema, justificando seu projeto de um modelo descentralizado de curadoria sintonizado com a liberdade artística. Trata-se, segundo ele, de um modelo menos hierárquico de mostra, que pretende contemplar um público bem variado, não necessariamente familiarizado com arte – afinal, na última edição da Bienal, mais de 900 mil visitantes (200 mil estudantes) passaram por ela no Ibirapuera.

Nesta edição, sete mostras foram montadas segundo esse modelo, com artistas assumindo também o papel de curadores, entre eles veteranos como o escultor carioca Waltercio Caldas, 72, que já participou de várias mostras e bienais internacionais, e a jovem paulista Sofia Borges, 34. Pérez-Barreiro lembrou que o artista-curador não é exatamente um modelo novo (considerando que os impressionistas já montavam as próprias exposições em sua época), mas tem o mérito de restabelecer uma prática menos autoritária que a ditadura curatorial dominante até a virada do século, em que os artistas deviam se submeter aos temas e caprichos do curador. Nesta edição, mais enxuta, a Bienal vai exibir 12 mostras individuais, nove delas comissionadas.

Há uma separação bem nítida entre as exposições dos artistas-curadores e os projetos individuais na expografia concebida por Álvaro Razuk, que recorreu ao conceito de arquipélago para isolar cada uma das “ilhas” dos artistas. Entre os projetos individuais estão os do paranaense Bruno Moreschi e da carioca Luiza Crosman, ambos os artistas nascidos nos anos 1980 e questionadores – Moreschi vai apresentar uma obra chamada Outra 33.ª Bienal, que leva em conta a opinião dos visitantes para propor novas ações na mostra internacional. 

Pela primeira vez, segundo anunciou a assessoria da Bienal, a mostra faz uma parceria com o Spotify, e terá seu audioguia e playlists especiais na plataforma de streaming. A Bienal também terá um aplicativo com todos os conteúdos informativos da mostra. O cartaz da 33.ª Bienal foi concebido pelo artista gráfico Raul Loureiro, que reproduz a obra Formas Expressivas, do escultor abstrato franco-alemão Hans Arp (1886-1966), uma pintura em relevo sobre madeira de 1932.

Entre os artistas participantes desta 33.ª edição de Bienal estão pintores como Siron Franco, que exibe uma série de telas de 1987 – baseadas no trágico acidente radioativo com a cápsula de césio 137 abandonada num terreno baldio em Goiânia – e Vânia Mignone, que mostra uma série de pinturas recentes inéditas. Entre os escultores destaca-se o artista carioca Nelson Felix, que montou no pavilhão da Bienal uma instalação de esculturas (Esquizofrenia da Forma e do Êxtase) que se relacionam com uma peça fora do espaço expositivo. Vasos com cactos e chapas com ameaçadores pregos simulam, nas palavras do artista, um “coito violento com a arquitetura de Niemeyer da Bienal”.

Outro escultor, Tunga, morto há dois anos, é homenageado na mostra pelos artistas curadores Sofia Borges e Waltercio Caldas. Além dele, a Bienal presta tributo a três outros artistas mortos, o guatemalteco Aníbal López (1964-2014), o paraguaio Feliciano Centurión (1962-1996), cujos bordados guardam semelhança com os do cearense Leonilson (1957-1993), e a brasileira Lucia Nogueira (1950-1998). 

Entre as homenagens prestadas pelos artistas-curadores aos mortos, um dos pintores que mais justificam o título da Bienal, Afinidades Afetivas, é o sueco Ernst Johnson (1851-1906), escolhido pela também sueca Mamma Anderson, 56, que expõe suas pinturas ao lado de suas telas – um diálogo, no mínimo, perturbador. Johnson queria ser o Rembrandt da Suécia, mas a sífilis o desfigurou e a esquizofrenia o destruiu. Johnson tinha visões místicas e se pintou como o Messias. No fim da vida, foi socorrido por duas almas bondosas que o abrigaram numa mansão. Mamma Anderson mantém estreito vínculo com a pintura nórdica da virada do século de Johnson.

Outra curadoria artística de grande impacto é a do escultor carioca Waltercio Caldas. Foi dele a frase, na coletiva de imprensa, que resume a proposta curatorial de Pérez-Barreiro, a de buscar afinidades entre artistas: “Arte é um rio que não tem mar, que vai em direção a não sei o quê”. É para achar uma resposta que os artistas existem. “Não posso aprisionar aquilo que não tem tamanho”, diz ele, sobre sua decisão de fazer uma curadoria não baseada em nomes, mas em objetos enigmáticos. No espaço que organizou, estão obras de outros grandes escultores (Sérgio Camargo, Tunga, José Resende, Gego).

A despeito de a Bienal não manter mais as salas históricas, a mostra traz obras de artistas que deixaram suas marcas no meio em que atuaram. É o caso da sala dedicada ao cineasta russo Ladislas Starevitch (1882-1965), pioneiro da animação stop motion. No curta animado La Revanche du Ciné-opérateur (A Vingança do Cameraman), realizado em 1912, ele acompanha a vida de um casal de besouros que herda uma boa caneca de cerveja. Detalhe: Starevitch usa besouros mortos de verdade, que ganham uma segunda vida na tela. Uma preciosidade quase tão desestabilizadora como o vídeo do holandês Roderick Hietbrink, 43, The Living Room, em que um carvalho (real) invade um apartamento modernista arrastando móveis e bibelôs pelo caminho. A Bienal será inaugurada na sexta (7) e fica aberta até 9 de dezembro.

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