Bienal do Paraná amplia seu mapa

Em Curitiba, a VentoSul, na 5.ª edição, torna-se internacional, com convidados de 30 países, e privilegia questões ambientais

Evandro Fadel, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

A quinta edição da Bienal Latino-Americana de Artes Visuais - VentoSul, aberta na segunda-feira em Curitiba, e que se estenderá até o dia 11 de outubro, pretende ser um marco. Deixa de se restringir à América Latina, torna-se internacional e apresenta artistas dos cinco continentes para comprovar que a arte não tem local fixo. "Antes era uma mostra, agora dá a virada", afirmou uma das curadoras, a jornalista Leonor Amarante. São mais de 100 convidados de 30 países que expõem obras e fotografias, realizam intervenções urbanas, participam de programação educacional e, sobretudo, proporcionam discussão sobre a arte contemporânea.Com o título Água Grande: Os Mapas Alterados, a mostra propõe agora a discussão do tema da água e as modificações geográficas pelas quais o mundo está passando."Em Curitiba nasce o Rio Iguaçu (água grande, em guarani), que atravessa o Estado e chega às cataratas, na Tríplice Fronteira. Além de representar a integração dos países, o ciclo prova a importância da água no dia a dia, ela é estratégica não só nas questões ambientais, mas também na política e na economia", disse o curador Tício Escobar, ministro da Cultura do Paraguai. Leonor Amarante não tem dúvidas de que "num futuro próximo, a água será moeda de troca". Esse tema se une à discussão do espaço da arte e à alteração dos mapas. "Alguns artistas trazem a cidade para dentro dos museus, enquanto outros, ao contrário, vão para a praça pública", destacou. Ela optou por ampliar o horizonte dos expositores, buscando-os em várias partes do mundo, não para fixar os lugares geográficos de cada um, mas para dar um sinal de diversidade. "Quis que fosse aberta", salientou. "A arte altera os mapas, inventa lugares, levanta limites e transfere locais." Mensagem direta em relação à propalada futura escassez de água e à importância que o tema ganhou no centro dos debates geopolíticos vem do canadense Jean-Yves Vigneau. No lago que circunda a Ópera de Arame ele apenas cravou em grandes placas: "H2O = $." Um alerta e uma discussão pretendida pelo curador Tício Escobar. "À obra não basta ser só estética, porque ela é um meio, um momento e não um fim", acentuou. "A arte mostra os conflitos e também o possível, aquilo que poderia chegar a ser." Segundo ele, a água é um ótimo ponto de partida para se discutir as mudanças que ocorrem com a globalização. "Dentro dela nada pode ser fixo, ela é um território instável, flutuante", ressaltou. Uma das propostas artísticas destacadas pelos curadores é a transgressão dos limites geográficos estabelecidos pelos mapas, a discussão sobre o sentido da imagem no contexto em que foi massificada pelo mercado e a custódia da poesia em mundo desencantado. Por isso, não se restringiu qualquer proposta de discussão conceitual. "Tudo se transforma em arte", destacou Leonor Amarante.Em uma das salas do Solar do Barão, no centro de Curitiba, o visitante poderá levar um susto ou até sentir-se profundamente chocado. O colombiano Fernando Arias apresenta, em duas televisões, cirurgias reais de vasectomia e de laqueadura. Entre elas, uma fotografia do Oceano Pacífico banhando a floresta colombiana. "As imagens são de uma realidade que choca, mas são humanas", disse o artista. "E ali está a mãe Terra." Apesar de entender que "somos muitos na Terra", Arias afirmou não estar "incentivando nada". "A interpretação é aberta", salientou. "O artista tem que ser neutro." O japonês Yukihiro Taguchi tem andado pelo mundo a reorganizar espaços. Em Curitiba, ele desmontou uma casa em um dos bairros da cidade e, com as tábuas, vigas e telhas recriou uma espécie de tenda no Solar do Barão. Dentro, o visitante poderá assistir a vídeos mostrando todos os passos do trabalho que realizou. "O importante é o momento da construção e eu espero que todos tenham o sentimento de realização igual ao meu."A búlgara radicada na Alemanha Mariana Vasileva trouxe o vídeo Toro, que pode ser apreciado no Memorial de Curitiba. Nele, um homem tenta tourear o mar. "É para mostrar como o mar é grande e o ser humano tão pequeno", destacou a artista. Com o tema Mais Respeito e Menos Violência, o cubano Kcho montou uma sala de aula. Mas as carteiras foram colocadas sobre remos de 1,80 metros. Pretende mostrar que os homens, alunos da vida, podem enxergar o que existe além de si mesmos.Os remos dão a sensação de movimento, de travessia. "É importante que a arte sempre tenha uma mensagem positiva, pois ela é uma das conquistas mais importantes do homem", afirmou ainda. O grupo Interluxartelivre não precisou andar muito. Formado por dez artistas e intelectuais curitibanos, eles chamaram a atenção com uma apresentação em bicicletas, em um dos cruzamentos da cidade, chamando a população a sair da "bolha". "É um convite a sair do carro e vir se divertir", disse Juan Parada, um dos integrantes da trupe. "É um questionamento sobre a mobilidade urbana e um estímulo ao uso de bicicletas." A trupe também instalou uma espécie de labirinto feito de grades próximo ao Passeio Público. "Este era o local de passeio das famílias, que agora se transferiram para o shopping em frente", informou Cláudio Celestino. A Bienal VentoSul ocupa vários museus e espaços artísticos de Curitiba, além de praças e ruas. É uma promoção do Instituto Paranaense de Arte, em conjunto com a Fundação Cultural de Curitiba. Todas as atividades são gratuitas. Após o encerramento em Curitiba, algumas obras e eventos selecionados serão apresentados em Foz do Iguaçu, Florianópolis, Fortaleza, Brasília, Assunção e Buenos Aires.

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