JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Bienal de Arte Contemporânea traz 'margens' e 'brechas' ao centro da discussão

Entre vídeos, figuras, fotografias e instalações, obras retomam comunidades com métodos organizativos que extrapolam o conceito de Estado-nação

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2019 | 19h32

São mais de 60 obras, criadas por 55 artistas de 28 países. Com o tema Comunidades Imaginadas, a 21.ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, que estreia nesta quarta-feira, 9, estabelece diálogos possíveis a partir de temas em comum: por um lado, a ascensão de nacionalismos em partes do mundo e, por outro, coletividades que vivem “além, às margens ou nas brechas” dos Estados-nação. 

Integrante do trio de curadores da mostra, Gabriel Bogossian afirma que a edição tem forte carga política – neste ano, talvez mais do que nos outros, diz. “A presença indígena e de grupos ativistas traz uma urgência para a discussão de questões contemporâneas”, explica.

Ele se refere a dois aspectos. Grandes destaques da edição, artistas indígenas ou de povos originários de sete países (Brasil, Estados Unidos, Canadá, México, Peru e Nova Zelândia) trazem ao evento instalações, vídeos e outras formas de arte. A eles, somam-se os movimentos #VoteLGBT, da área de política, e MLB (Movimento de Lutas nos Bairros, Vilas e Favelas).

Embora possa despertar uma referência utópica, a temática do evento, inspirada no clássico estudo do historiador e cientista político Benedict Anderson (Comunidades Imaginadas), acaba reunindo, também, muitas obras que envolvem resquícios de violência. São trabalhos que jogam luz a tensões raciais, abordam conflitos fronteiriços ou expõem a realidade de grupos marginalizados socialmente.

Da República de Benim, região ocidental da África que faz fronteira com Burqina Faso e Nigéria, o artista visual Thierry Oussou exibe a videoinstalação What is Left of the Sugar Cubes? (O que resta dos cubos de açúcar?), desenvolvida no Brasil. Na obra, surgem o Museu Nacional, vítima de um incêndio em 2018, e o Museu Memorial Cemitério dos Pretos Novos, sítio arqueológico construído em torno de uma enorme ‘vala comum’, que reúne restos mortais de dezenas de milhares de escravos africanos trazidos ao Brasil. 

É uma reflexão sobre a história. “Meus trabalhos dialogam muito com a questão da herança”, explica Oussou. Ele ressalta os laços históricos, econômicos e culturais entre Brasil e Benim – país da África que mais ‘exportou’ escravos para cá. “O encontro dessas ossadas mostra como pouco se sabe sobre a história africana no Brasil”, afirma.

A obra tira o espectador da zona de conforto como, com mais ou menos intensidade, fazem as outras. De Maceió, o artista Jonathas de Andrade, por exemplo, trabalha com uma imagem de um Jesus não-ocidentalizado na obra Procurando Jesus. “De onde eu venho, Jesus é um homem loiro e de olhos azuis”, explica o artista no texto que acompanha a obra. A ideia, conta Jonathas, surgiu durante uma residência na cidade de Amã, na Jordânia. “Eu estava caminhando pelo Rio Jordão e percebi que seria impossível Jesus ter as características que conhecemos”, afirma. 

A partir daí, Jonathas passou a registrar homens do dia a dia, trabalhadores do centro da cidade que podiam, de certa forma, representar mais fielmente o profeta cristão. Ao terminar, fez uma votação, também com pessoas comuns, para saber quem poderia ser mais parecido. “Eu mexi com duas questões: o tabu de representar o ‘rosto do profeta’, em um país em que isso é algo complicado, e o da votação, já que a Jordânia não tem um processo eleitoral democrático”, explica. 

Sobre câmeras, espíritos e ocupações: um tríptico de montagem-ensaio traz, além da reflexão, um apelo. Realizada no Vale do Javari, terra indígena próxima à fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru, a obra reúne três vídeos, no formato curta-metragem, produzidos individual ou coletivamente. Shapu Meo, indígena da etnia matis e diretor do curta O espírito ancestral Matis, Madiwin e a festa do milho, afirma que o objetivo da obra é chamar atenção para o que vivem, hoje, os grupos indígenas da região. “Nós viemos mostrar como é a situação no Vale, como a gente vive, o que a gente come”, diz. “Isso é importante para quem não conhece, mas também para passarmos nosso ritual para as próximas gerações. Nós não podemos perder isso.”

Mudanças

Duas grandes mudanças marcam esta edição. A adoção do nome Bienal tem dois motivos, explica a diretora do Videobrasil, Solange Farkas, em coletiva de imprensa: confirma uma periodicidade e integra o evento ao calendário internacional de Bienais, aproximando-se de semelhantes como Sharjah (Emirados Árabes), Cuenca (Equador), Havana (Cuba) e Dakar (Senegal). 

A Bienal também muda de espaço. Até então realizada no Sesc Pompeia, a exposição acontece, agora, no Sesc 24 de Maio, no centro de São Paulo. De acordo com o diretor do Sesc, Danilo Santos de Miranda, a escolha está diretamente ligada ao simbolismo da região: de prédios emblemáticos à existência de comunidades de refugiados nos entornos.

 

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