VINCENZO PINTO|AFP
VINCENZO PINTO|AFP

Bienal de Arquitetura de Veneza problematiza a desigualdade e a insegurança nas cidades

Edição com curadoria de Alejandro Aravena, é aberta com a entrega do Leão de Ouro para o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha

AFP

28 de maio de 2016 | 05h00

A arquitetura do século 21 deve fazer frente aos problemas de desigualdade, da mediocridade e da superficialidade para melhorar a qualidade de vida das pessoas, disse Alejandro Aravena, primeiro latino-americano a dirigir a Bienal de Arquitetura de Veneza, em entrevista à AFP. A 15.ª edição da mostra internacional, que concedeu o Leão de Ouro para o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha pelo conjunto de sua obra, é aberta neste sábado, 28, para o público, e ficará em cartaz até 27 de novembro.

O arquiteto chileno Alejandro Aravena, de 48 anos, que conquistou o prêmio Pritzker de 2016, é um homem comprometido com os problemas sociais e ambientais do planeta. “O que importa é melhorar a qualidade de vida das pessoas, e a maneira de entrarmos neste debate é por meio do entorno construído”, afirmou. “E quando alguém começa a avançar e ampliar o conceito de qualidade do entorno construído, depara com uma enorme resistência, um grande desacordo, não é fácil”, acrescentou.

Para ilustrar as inúmeras maneiras de superar essas dificuldades, Aravena convidou para a 15ª Bienal de Veneza, intitulada Reporting from the Front, projetistas de todo o mundo, muitos jovens e desconhecidos, que privilegiam do coletivo ao individual. “Interessa para nós saber da luta daqueles que conseguiram vencer a inércia da realidade e extrair lições tiradas daqueles momentos críticos quando surgiu uma ideia estratégica que podemos usar depois em nossas próprias realidades”, defendeu o chileno. “São 17, poderiam ter sido 15, ou 20, mas sem dúvida, quando falamos em desigualdade, insegurança nas cidades, contaminação, acesso a serviços básicos, mediocridade, ou superficialidade, são todos temas que nos dizem respeito”, reiterou.

Nos imensos e sugestivos espaços do Arsenal e nos pavilhões nacionais dominam as histórias concretas e bem sucedidas, habitações sustentáveis para migrantes, a transformação de um porto industrial, um mirante para turistas na Patagônia, um bebedouro para gado, comedores rurais. “Aqui há exemplos que podem permitir que outros, com problemas similares, criem estratégias equivalentes”. “A maneira como escolhemos os diferentes convidados (88 no total) não obedeceu a nenhum critério geográfico, de gênero ou idade”, explicou o curador. “Nosso interesse foi simplesmente identificar perguntas que todos concordam que são difíceis, importantes e que, sobretudo, se não dermos respostas teremos um problema”. “Soube pela coletiva de imprensa que 50 participarão pela primeira vez da Bienal, e que 33 convidados têm menos de 40 anos”, confessou Aravena.

A presença do que há de melhor em termos de criatividade latino-americana para resolver os problemas é evidente – destaque para os projetos de Simón Velez, da Colômbia; de Al Borde, do Equador, de Rodrigo Sheward e Martín Sala, do Chile; e do paraguaio Solano Benitez, entre outros. Já no Pavilhão do Brasil, o curador Washington Fajardo apresenta a exposição Juntos, que trata de arquitetura e ativismo por meio de 15 iniciativas, como a Escola Vidigal, construída no Morro do Vidigal, no Rio, pelo artista plástico Vik Muniz.

“Não tenho ideia de quantos arquitetos latino-americanos participam; talvez seja verdade que são maioria e é correto porque foi na América Latina que os problemas surgiram primeiro”, afirmou Aravena. “Em qualquer disciplina é a mesma coisa: quem enfrenta o problema primeiro tem de desenvolver conhecimentos para resolvê-lo, e não é por acaso que é a partir desses lugares que existe uma exportação desse conhecimento”.

“As pessoas costumam achar que isso ocorre em países desenvolvidos, que depois exportam o conhecimento para os subdesenvolvidos. Mas quando os problemas têm a ver com a escassez de recursos, como oferecer qualidade quase sem meios para isto, é provável que as lições emanem de lugares que tradicionalmente não são as origens ou os centros de cultura”, afirmou. Então é uma mensagem política? “Uma boa arquitetura não pode deixar de ser política, social, estética, econômica ou ambiental. É da essência da arquitetura entender que as forças que informam a forma de um projeto vêm de ambientes muito diferentes. Se a arquitetura tem algum poder é o da síntese”, explica Alvarena. “A arquitetura é aquela que identifica bem uma pergunta e é capaz de dar uma resposta que equilibra criatividade e persistência, e ponto final”, resumiu. “Se você se defronta com problemas novos é quase impossível enfrentar os desafios inéditos com respostas antigas”, concluiu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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