Bienal de São Paulo
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Bienal anuncia nomes e aposta em minorias

Cerca de 10% dos artistas participantes da 34ª. edição da mostra internacional são indígenas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2021 | 05h00

O curador geral da 34ª. Bienal de São Paulo, Jacopo Crivelli Visconti, e o curador adjunto Paulo Miyada anunciaram hoje mais 35 nomes que participarão da mostra internacional, Faz Escuro Mas eu Canto, composta por 91 artistas (sendo 2 duos e 1 coletivo) de 39 países. A edição, que foi iniciada em fevereiro de 2020, será oficialmente aberta em 4 de setembro no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, simultaneamente à inauguração de dezenas de exposições individuais em instituições parceiras em São Paulo. Há um equilíbrio entre artistas veteranos e jovens, mas a nova lista atesta que grande parte deles nasceu na década de 1980 e, embora sejam pouco conhecidos do público brasileiro, têm participado de importantes mostras internacionais.

Entre os nomes presentes na lista mais recente há representantes de todos os continentes (exceto a Antártica). Cerca de 4% deles identificam-se como não binários e aproximadamente 10% do elenco são artistas de origem indígena – esta será, segundo os organizadores da Bienal, a mostra com a maior representatividade de artistas indígenas de todas as edições. Entre eles está Suely Maxakali, de 44 anos, nascida em Santa Helena de Minas e casada com o também artista Isael Maxakali, que venceu o prêmio Pipa, um dos mais conceituados do País. O casal vive às margens do rio Mucuri, em Minas Gerais, e estão juntos desde 1993. Isael dirige hoje a casa dos cantos (kuxex) do seu avô, o pajé Otávio, morto naquele mesmo ano. É, portanto, um casal estreitamente ligado às tradições de seu povo – e isso aparece na obra de ambos.

A inclusão de artistas indígenas, segundo o curador Jacopo Crivelli Visconti, não é uma concessão, mas o reconhecimento de produtores marginalizados que têm muito a dizer à sociedade contemporânea – o que é comprovado pelos acontecimentos dos últimos meses com as invasões das terras indígenas e a resistência – cultural e política – dos nativos. A Bienal quer ser essa ponte entre a sociedade moderna e a cosmovisão desses povos indígenas.

A preocupação em não excluir linguagens, segundo o curador adjunto Paulo Miyada, norteou a seleção da curadoria. Assim, não há predominância de técnicas ou suportes – há desde a pintura de grandes mestres modernos como Morandi e Lasar Segall até vídeos, filmes e instalações. “Ter artistas históricos ancorando emergentes é o que se espera de uma bienal”, justifica Miyada em entrevista ao Estadão, ao lado do curador Jacopo Crivelli Visconti. Citando Morandi, que esteve presente em edições passadas da Bienal, Visconti diz que sua volta à mostra pode despertar novas leituras a partir da identidade ou fricção com os trabalhos de históricos e contemporâneos. “É o caso do cipriota Christoforos Savva, morto em 1968, que colocamos ao lado de Morandi para dialogar com ele”. Savva, que participou da Bienal de Veneza em 2019, tem tudo a ver com o (econômico) universo cromático de Morandi, embora menos intimista e mais ligado à tradição folk do povo cipriota.

Outro artista da preferência de Visconti destacado pelo curador e que faz parte da nova lista divulgada é Hanni Kamaly, uma jovem norueguesa de 33 anos preocupada com a crescente desumanização do planeta e questões ligadas a esse processo de brutalização. Suas esculturas são minimalistas. Sugerem criaturas indecifráveis, de cinco ou mais pernas, uma verdadeira mutação antropológica feita de aço. “Ela é filha de imigrantes e seu trabalho está muito relacionado ao pós-colonialismo, como se fosse um afresco da sociedade contemporânea”, diz Visconti. Kamaly estará ao lado das “pinturas negras’ do brasileiro Antonio Dias (1944-2018).

A cubana Belkis Ayón (1967-1999) já estava morta com a idade de Kamaly. Mas o curto tempo que viveu foi suficiente para 19 exposições. Litógrafa, seu trabalho foi inspirado pelos santos da religião afro-cubana, combinando o mito de Sikan com as tradições do Abacua. “Queremos criar pontes entre artistas de contextos e épocas diferentes”, observa Jacopo, citando a aproximação do moderno lituano Lasar Segall (1889-1957) com Kelly Sinnapah Mary, de 40 anos, que nasceu em Guadalupe – território francês no Caribe. “O universo de Sinnapah é o dos contos de fada das florestas alemãs”, define Jacopo, sem esquecer que essa delicadeza é para se contrapor à violência, o que faz recorrendo às histórias de selvageria contra os indígenas do Caribe.

A inglesa Olivia Plender, nascida em 1977, que, além de artista, é editora (Untitled Magazine), tem uma percepção das relações transculturais não muito distante de Sinnapah Mary, considerada a distância geográfica entre as duas. Vivendo entre Londres e Estocolmo, Plender tem uma forte ligação com a cultura pop (especialmente dos quadrinhos) e a ficção científica, abordando em seus trabalhos a questão religiosa e o poder do mito. Nesta Bienal ela apresenta o vídeo Hold Hold Fire, de 2019.

Outro “desgarrado” é o jamaicano Lee ‘Scratch’ Perry, de 85 anos, considerado pela revista Rolling Stone um dos 100 maiores músicos de todos os tempos. Produtor e cantor de reggae, que hoje mora na Suíça, ele apresenta algumas obras saídas de seu famoso estúdio Black Ark, que criou em 1973 em seu quintal e por onde passaram nomes como Bob Marley. Hoje Perry não bebe nem fuma mais maconha. Diz que se espiritualizou e não precisa mais disso.

Migrações, aliás, é o tema preferido do brasileiro Arjan Martins , que vai apresentar obras como Atlântico (2016). As suas são pinturas fortes sobre o violento processo do tráfico de escravos. Outra história que impressiona, conta o curador Paulo Miyada, é a de um filme de um artista de Taiwan, Hsu Che-Yu, que conta a história de irmãos siameses separados por território após a cirurgia que dividiu seus corpos

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