Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Bienal 2018 tem início com curadoria de artistas e exercício de reflexão

Com o título de 'Afinidades Afetivas', o maior evento de arte contemporânea da América Latina chega à sua 33ª edição

Guilherme Sobota e Pedro Rocha, Especial para o Estado

06 Setembro 2018 | 15h47

Escolhido como curador-geral da 33ª edição da Bienal de São Paulo, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro decidiu trabalhar no evento com uma equipe de sete artistas-curadores e sem se prender a um tema único. O resultado pode ser visto a partir desta sexta-feira, 7, gratuitamente no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera. 

Com o título de Afinidades Afetivas, a Bienal 2018 será aberta ao público com uma proposta que pretende estimular a experiência individual dos visitantes, ao não impor um grande tema. A ideia é de Barreiro, de 48 anos, escolhido pela Fundação Bienal, que se inspirou em Goethe e Mário Pedrosa.

Confira, abaixo, uma entrevista com o curador.

Por que realizar uma Bienal sem tema? Quis ser questionador. Nem sempre a Bienal teve tema, é algo recente. A curadoria pode ser uma limitação se as obras precisam se alinhar ao tema. É mais interessante que sejam livres.

Mesmo sem tema, há um título, ‘Afinidades Afetivas’. Qual a inspiração? Vem de duas fontes, o Goethe e também de um texto de Mário Pedrosa. Esses conceitos mudam a relação das pessoas com as obras. É um modelo mais humanista, menos ‘de cima para baixo’. 

A Bienal tem um público bem variado, especialmente por estar no Parque do Ibirapuera, com um grande fluxo de pessoas. Foi uma preocupação? O número é imenso, na última edição o público foi de quase 900 mil visitantes. Temos a obrigação de pensar quem são essas pessoas. A Bienal tenta ser amigável, com maior sensibilidade. Por isso, todo o esforço no educativo.

Alguns artistas resolveram dialogar com o parque e o Pavilhão. Como foi trabalhar o espaço? O Pavilhão é muito significativo, é o tamanho de vários museus juntos e tem um grande histórico. Você não pode ver como um cubo branco, por isso, desde o início, a decisão foi de não esconder o prédio. Trabalhamos para que houvesse espaços para o público entre as exposições e fizemos um café no segundo andar. 

Nesta edição, sete mostras foram montadas livremente por artistas que assumiram, também, a função de curadores. De onde veio a ideia? Os impressionistas já organizavam suas próprias exposições. É uma tradição rica e interessante da arte moderna e contemporânea. Como não há um eixo central na Bienal, fica um conceito muito autoral dos artistas. Quis fazer um experimento de devolver a palavra para eles. 

Como você escolheu esses artistas-curadores? Com alguns eu já trabalhei, mas queria que a maioria fosse de pessoas novas para mim. Comecei a pesquisar, pedi opiniões e visitei ateliês. Mas nem todos artistas querem ou conseguem ser também curadores. Foi um processo até chegar a esse grupo. Queria idades diferentes, pensamentos diferentes e uma distribuição geográfica, temos dois brasileiros, mais dois latinos, dois europeus e uma americana que vive na África.

Houve algum direcionamento para esses artistas-curadores? Alguns limites táticos e algumas condições: teriam de participar com obras próprias, não poderiam entrar no trabalho do outro e todos teriam o mesmo orçamento. Houve muito diálogo comigo, mas nunca como um censor.

Este ano, a Bienal conta também com 12 mostras individuais, nove delas comissionadas. Como foi o trabalho com esses artistas? Quis reservar também um espaço para um outro tipo de olhar. Como deleguei funções aos artistas-curadores, ouvi reclamações de que eu também tinha que me mostrar. Escolhi os artistas sem orientação temática, alguns não são muito comuns para a Bienal e três são homenagens.

Pessoalmente, como foi assumir o comando de um evento tão importante e histórico? Quando fui convidado, a primeira reação foi de susto. Pensei em não fazer. É assustador quando você vê o prédio vazio. O que vou fazer? O que posso acrescentar? Vou dar conta? Mas foi mais fácil do que imaginava. A Bienal está fortalecida.

Projeto educativo da Bienal propõe atenção à arte

“Atenção.” Essa é a palavra que norteou o desenvolvimento do projeto educativo da 33.ª Bienal de São Paulo. A principal ação deste ano é deixar disponíveis “cartas” com, se não instruções, caminhos possíveis para driblar a imensa quantidade de informação que recebemos dia a dia e tirar um tempo para apreciar as obras artísticas. São “protocolos de atenção”, na definição do curador Gabriel Pérez-Barreiro, que podem ser usados dentro ou fora da Bienal.

As cartas são divididas em quatro partes: (1) encontrar uma obra que parte de um processo subjetivo de identificação; (2) dedicar atenção, com caminhos que vão de perceber a superfície da obra até reconhecer o que há de você ali; (3) registrar a experiência, que pode ser escrever suas impressões, praticar um movimento corporal a partir da experiência ou mesmo reconhecer os sentimentos que a obra provocou e guardar essa sensação; e (4) compartilhar.

“Qualquer pessoa tem sua experiência, e qualquer experiência é válida, não existe experiência estética melhor ou pior do que a outra”, explica a superintendente de projetos da Bienal, Dora Corrêa. “Todas têm o mesmo grau de importância e autenticidade.”

Além das cartas, 70 mediadores foram formados pela Bienal para auxiliar os visitantes no processo – grupos de escolas, ONGs, universidades, professores (ou qualquer grupo de 10 pessoas ou mais) se inscrevem no site da Bienal para as visitas guiadas; as chamadas visitas espontâneas também podem ter auxílio dos mediadores, ou mesmo usarem as cartas de orientações de maneira individual.

A expografia em “ilhas” (leia mais na página 8) permitiu o estabelecimento de “estações de conversa”, espaços no Pavilhão entre uma seção e outra, que serão usadas para os propósitos educativos – e também para descanso. “A arte propõe um espaço em que a experiência da atenção tem uma natureza facilitadora”, diz Corrêa. “E essa experiência tem consequências nas pessoas.”

Expografia da Bienal 2018 foi planejada em ilhas

Ao se adaptar às ideias da curadoria, a expografia da Bienal, assinada pelo arquiteto Álvaro Razuk, procurou montar ilhas para os artistas-curadores e para os projetos individuais, formando um arquipélago no espaço aberto do Pavilhão.

“Uma questão importante na montagem”, explica Razuk, “foi que o curador gostaria que o público percebesse exatamente quando acaba o trabalho de um artista e começa o do outro. Daí veio a ideia do arquipélago, que fica muito claro no segundo andar. Então optamos por uma ocupação tranquila.”

Como a curadoria foi dividida entre sete artistas diferentes, o arquiteto explica que as demandas individuais foram atendidas sem maiores problemas. Ele comenta, por exemplo, que o colecionador das obras de Lucia Nogueira (1950-1998) demandou que um dos trabalhos estivesse num nível abaixo dos outros – ao levantar o patamar do chão, Razuk acabou criando a impressão visual de uma ilha, o que se encaixou no seu projeto original.

Os espaços de descanso “para a cabeça”, ideia fundamental da curadoria e do projeto educativo, são favorecidos pelo desenho generosamente espaçoso do Pavilhão – são 25 mil metros quadrados. Um café (novidade inédita na Bienal de São Paulo), uma livraria e espaços de conversa e de apresentações são marcas presentes no prédio.

Razuk trabalha com exposições desde 1996, quando montou uma delas no prédio onde hoje está o Museu Afro Brasil, coincidentemente no mesmo projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer para o Ibirapuera. Em 2016, ele foi o responsável pela expografia da 32.ª Bienal, quando conheceu mais de perto o Pavilhão, experiência que lhe facilitou o trabalho em 2018.

Projetos individuais da Bienal apresentam quesões institucionais

Dois dos trabalhos selecionados pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro entre os projetos individuais pretendem analisar – ou construir uma estética própria, cada um à sua maneira – a própria proposta da Bienal Internacional de Arte de São Paulo.

Outra 33.ª Bienal, de Bruno Moreschi (1982), vai propor ações no evento para coletar informações, especialmente do público não especializado, e oferecer leitura alternativa da mostra. Entre as ações, diz o artista, ele e sua equipe vão rastrear o fluxo de imagens na web sobre a Bienal e analisá-las com ferramentas de inteligência artificial que examinam as fotografias – os resultados inesperados, ou “erros”, da máquina vão resultar em coletânea curada pelo grupo.

Em outra dinâmica, vai captar em formato audiovisual análises e comentários, por exemplo, das equipes de limpeza e montagem da Bienal, sobre os trabalhos expostos no Pavilhão: o resultado entra nos audioguias da Bienal, e a ideia é “contaminar” o material oficial. Textos produzidos sobre o evento também passarão pelos mecanismos artificiais utilizados para produzir fake news. E por aí vai.

“A ideia final é entregar um arquivo alternativo da Bienal, com dados, experiências, imagens e relatos que sejam de alguma maneira registros não tradicionais, para que no futuro, quando alguém pesquise, encontre esse material original”, diz Moreschi.

No evento, duas TVs instaladas nos guarda-volumes – espaço entre o parque e a mostra – exibirão alguns resultados do trabalho, que estará todo reunido no site outra33.bienal.org.br.

Outra obra que também desafia o institucional da Fundação é a instalação Trama, da carioca Luiza Crosman (1987) – com estantes de metal, mobiliário de escritório, peças gráficas e vídeos, a obra também terá um elemento musical (de Negalê Jones), editorial (parceria com a Zazie Edições) e sistema de captação de energia solar conectado a uma mineradora de criptomoedas.

“É legal estar aqui com um projeto de arte que tem um caráter estratégico, não é só simbólico e traz uma perspectiva pragmática de pensar o mundo”, diz a artista. “Tentei reimaginar como uma Bienal pode ter outros significados de escala: não ser só uma exposição de arte, mas ter essa escala de efeitos na cidade e no país para além da parte expositiva.”

Vânia Mignone e Siron Franco: Pigmentos na tela

A série de pinturas inéditas de Vânia Mignone (1967) dá prosseguimento ao trabalho da artista de incorporar mais elementos da cultura popular brasileira, evidenciando as cores fortes, à sua estética mais conhecida, com traços de cinema, quadrinhos e também games. As frases estampadas nas pinturas (“Nós no último pôr do sol”, “A gente conversava aqui” ou “Certezas derretidas”) conversam com os tons apocalípticos das imagens. Embora a artista afirme que não busca racionalizações assim no seu trabalho, ela admite que suas obras foram contagiadas por um clima de “fim do mundo como a gente conhece, fim das nossas certezas e seguranças”.

Ao mesmo tempo, na segunda parte da exposição, surge uma mensagem de esperança – mesmo que alienígena e não tão evidente. “Desse momento em que estamos, todo mundo está tentando sair vivo. Essa situação política deve ser apresentada nos trabalhos, não especificamente sobre as eleições, mas em relação a todo esse ambiente”, diz a artista, referindo-se a uma “falta de chão” geral. “Isso pode fazer com que as pessoas procurem e tentem encontrar equilíbrios dentro dos espaços livres da Bienal”, acredita. 

Único artista a exibir um trabalho histórico entre os projetos individuais comissionados, Siron Franco traz à Bienal a série de pinturas Césio/Rua 57, na qual apreende a impressão traumática do acidente nuclear de Goiânia de 1987. Natural do Bairro Popular, onde o vazamento aconteceu, o artista constrói imagens alegóricas em que a representação não se dá de maneira imediata, mas antes caracteriza um clima de destruição e isolamento.

A curadoria destaca o trabalho numa tentativa de provocar reflexão sobre outros desastres ambientais, como o rompimento da barragem em Mariana, e em como trabalhar a memória dos acidentes por meio da estética. A terra supostamente radioativa de Goiás integra parte do pigmento das pinturas de Franco.

Ocupar espaços: os trabalhos de Denise Milan e Nelson Felix

Se o momento atual do Brasil não é dos melhores, a artista Denise Milan (1954) quis ir até os fundos da Terra para buscar uma essência de País aparentemente perdida e recuperá-la. Ilha Brasilis, a instalação com cristais e ametistas que a artista montou no terceiro pavimento da 33.ª Bienal, pretende mostrar de maneira clara o “tesouro” debaixo de nossos pés. “Minha proposta é trazer visibilidade a algo que sempre permaneceu invisível”, afirma.

São pelo menos 30 ametistas que a artista classifica como um oferecimento do Brasil à humanidade. “É muito interessante, porque elas se formam dentro de uma bolha de ar no magma da Terra, é como se fossem um suspiro das profundezas”, explica. Ela diz que prioriza pedras com formas humanas para gerar identificação e “percebermos que fazemos parte dessa grande criação”. “Nossa espécie precisa entender outros valores, que falam de estruturas mais perenes: as pedras são estruturas que sobrevivem”, diz.

Milan também está empolgada com o conceito da curadoria. “As pessoas esqueceram o ato contemplativo, elas passam pela arte como se fosse feira. Isso gera questões: o que é processo criativo? Por que a Bienal reúne artistas com naturezas distintas? Fazia tempo que não sentia esse questionamento”, afirma.

O artista carioca Nelson Felix (1954) apresenta no prédio da Bienal também uma instalação de esculturas, mas no seu caso ela se relaciona com uma peça sintética num lugar ainda a ser definido em São Paulo, e uma ação em dois pontos da América (Anchorage, no Alasca, e Ushuaia, na Argentina), “o início e o fim” de duas cordilheiras que o artista vê “como uma coluna vertebral do globo terrestre”. 

O trabalho, que Felix diz se relacionar com toda sua obra nos últimos 30 anos, começou com a visita aos dois pontos: ali ele desenhava tanto que compulsivamente “entrou numa onda” – quando chegou o momento certo, ele escolheu posições (angulações em relação aos pontos cardeais), que serão aplicadas à peça sintética na cidade. As esculturas na Bienal, explica, são “canções para esse trabalho”. 

O artista faz um exame duro do Brasil atual, mas se diz otimista e animado com a Bienal. “Espero que a Bienal e outros movimentos de arte, sejam do teatro, da música, festivais, tragam para o Brasil um pouco de respeito, do momento de acontecimento cultural, para levantar um pouco a moral. Se existe alguma recuperação possível em termos psicológicos, ela só pode sair daí. Tenho essa esperança.”

Alejando Corujeira e o desenho abstrato

Numa série de pinturas e esculturas, o argentino Alejandro Corujeira (1961) traz sua arte abstrata para a 33.ª Bienal, e ele mesmo é relutante ao definir o trabalho: “Há momentos em que acho difícil falar, pois não quero carregar o espectador com um conceito que anteceda seu encontro com a obra. Sempre penso que esse encontro deve se dar a partir de um lugar mais despido, de contemplação. Um lugar no qual os olhos de quem contempla estejam um pouco calados, silenciados de conceitos, para que possa surgir, daí, uma experiência inédita”.

Ao trabalhar com tinta acrílica e aquarelas, o artista tenta captar os movimentos da natureza a partir do desenho, unidade fundamental de seu trabalho. 

Ensaio visual sobre 'Memórias Póstumas'

A mineira Tamar Guimarães (1967) juntou experiência com o cinéma vérité, gosto pelo ensaístico e vontade de trabalhar um texto sobre ser e estar no Brasil (Memórias Póstumas de Brás Cubas) para montar um filme em que a questão central é a adaptação.

“Ali há um ceticismo em relação ao progresso e uma leitura crítica afiada sobre a sociedade brasileira”, diz.

Procurar sutilezas na grandiosidade

A artista carioca Maria Laet (1982) afirma que sua primeira impressão do Pavilhão da Bienal foi de um vazio imenso criado pela arquitetura imponente – num gesto particular, sua atenção se voltou para as pequenas sutilezas do espaço. O contraste foi a base para a criação do seu vídeo. “Identifico-me e me encanto por coisas que vivem mais em silêncio”, diz.

Aos que partiram cedo: três artistas são homenageados na Bienal

Entre as mostras individuais desta edição da Bienal, três fazem homenagem a artistas que, em comum, tiveram um forte trabalho nos anos 1990 e nos deixaram muito cedo. “O fato de terem morrido tão jovens causa o risco de serem esquecidos pela História da Arte”, diz o curador-geral do evento, Gabriel Pérez-Barreiro, que organizou as exposições. “A Bienal tem a tradição de apresentar um núcleo histórico e a possibilidade de iluminar uma produção oculta.” 

Para Pérez-Barreiro, a época em que a produção dos três se concentra é de grande importância. “Queria trabalhar a década de 1990, principalmente na América Latina, por ser a primeira depois da ditadura. Eles apresentam um outro tipo de linguagem.”

Com fotografias e vídeos, o trabalho de Aníbal López (1964 - 2004) é fundamental, segundo Barreiro, para entender o contexto da instabilidade política da Guatemala nos anos 1990. “Ele é talvez o mais importante artista-ativista dessa década, num país em que é difícil ter visibilidade no mundo das artes.” Para o curador da Bienal, há uma dívida com seu trabalho, que nunca teve uma grande exposição individual. “O Aníbal é um professor. Quebrou tabus sobre violência no seu país.”

Nascido no Paraguai, outro país com pouca visibilidade nas artes, Feliciano Centurión (1962 - 1996) fez sua carreira, com pinturas e bordados em tecido, na cidade de Buenos Aires, na Argentina, onde morreu de complicações da aids. “É um trabalho que explora um universo tipicamente feminino, mas feito por um homem”, diz Barreiro, que vê um paralelo do trabalho de Feliciano com o brasileiro Leonilson. “Acho interessante que eles viveram o mesmo período histórico.”

O caso de Lucia Nogueira (1950 - 1998), especialista em esculturas e instalações, é, segundo o curador-geral da Bienal, um pouco diferente. “É uma artista que está com a sua obra muito bem cuidada e uma produção madura e consolidada”, afirma. O problema, para ele, é a distância geográfica do Brasil. Lucia foi morar em 1975 em Londres, onde morreu. “Ela nunca teve uma grande exposição, como essa, no Brasil. Acho que, nesse caso, se justifica o resgate histórico.”

O desafio duplo dos artistas-curadores na Bienal

Este ano, sete artistas de todo o mundo foram convidados para assumir a função dupla de não só apresentar obras próprias na Bienal, mas também realizar a curadoria de algumas mostras dentro do evento. A lista conta com o uruguaio Alejandro Cesarco, o espanhol Antonio Ballester Moreno, a argentina Claudia Fontes, a sueca Karin Mamma Andersson, os brasileiros Sofia Borges e Waltercio Caldas e a norte-americana, radicada na Nigéria, Wura-Natasha Ogunji.

O desafio, segundo Andersson, não foi dos mais fáceis. “Ser curador é algo completamente diferente de ser artista. Tem sido um projeto animador, mas também exigente”, afirma. Para o seu núcleo, Stargazer II, ela decidiu trabalhar com artistas que servem de inspiração para suas próprias obras. Por isso, escolheu alguns colegas contemporâneos, mas principalmente artistas do início do século 20.

“Tempo é uma construção e eu posso me sentir mais conectada com alguém que viveu há centenas de anos do que com alguém do presente.” Por conta da dedicação ao processo curatorial, ela preferiu não realizar novos trabalhos para a Bienal e, sim, apresentar obras já existentes. “A posição de curadora tirou boa parte do meu tempo. Mas, no final, deu tudo certo, as obras conversam bem com os outros artistas.”

Já para o uruguaio Cesarco, o desafio não é novo. “Não é a primeira vez que faço algo do gênero. Acho que a arte sempre está em diálogo com a de outros artistas.” Em Aos nossos pais, ele se dedicou a fazer questionamentos sobre o passado, evidenciando como artistas podem reescrever obras.

Num trabalho seu, em vídeo, por exemplo, Cesarco se propõe a refilmar uma cena de Jean-Luc Godard, exibida originalmente numa sala e com uma diferente releitura em outra. “Dedicar a exposição a uma relação primária é construir uma genealogia e uma tentativa de aproximação da fonte central de nossas interpretações, métodos, inibições, possibilidades e expectativas.”

Pavilhão encanta estrangeiros

Mesmo sem a intenção, alguns dos artistas-curadores convidados para a 33.ª edição da Bienal de São Paulo deixaram o Pavilhão do evento, no Parque do Ibirapuera, no centro das atenções. Antonio Ballester Moreno, Claudia Fontes e Wura-Natasha Ogunji decidiram montar as suas mostras em diálogo com o parque e com o prédio, clássico modernista projetado por Oscar Niemeyer que, em 1957, passou a receber a Bienal e hoje é tombado pelo Patrimônio Histórico.

A visita ao prédio ainda vazio inspirou a argentina Fontes a escolher o seu tema, O Pássaro Lento. “É um oxímoro. Foi baseado na ideia de cidade perdida. Esse grande prédio modernista remete à solidão. Foi o ponto de partida”, diz. Segundo ela, o tal pássaro, presente em suas próprias obras, foi uma “desculpa” para interagir com o ecossistema.

“É uma área nebulosa, em que elementos não humanos, como paredes e vidros, encontram o elemento humano.” Com artistas diversos, como Ben Rivers, Daniel Bozhkov e Pablo Martín Ruiz, a curadora quis questionar os materiais. “O mais importante é que são artistas de diferentes linguagens. Assim como eu tive para o tema, dei a eles liberdade total.” A norte-americana Wura-Natasha, que mora em Lagos, na Nigéria, também aproveitou o local. “Quis fazer uma relação com o espaço exterior”, opina.

“Para mim, foi uma oportunidade criar a partir do que está ali, e não construir salas.” Até mesmo a escolha dos seus artistas foi influenciada pelo prédio, como Nicole Vlado, que é arquiteta. De início, ela queria que o processo do núcleo fosse colaborativo, mas, aos poucos, os seus colegas surgiram com as próprias ideias, que inspiraram até o nome da seção. “Chama-se sempre, nunca, porque alguns dos artistas me disseram que sempre conseguem vislumbrar o que vão produzir, e outros disseram que isso nunca acontece, só se dão conta quando está pronto.”

Para a mostra sentido/comum, Antonio Ballester Moreno produziu a grande obra Vivam os Campos Livres, ao lado de crianças de centros educacionais de São Paulo. Seus painéis, bem coloridos com árvores e plantas, se juntam a milhares de cogumelos de cerâmica feitos pelos estudantes, que criam uma conexão com o parque ao redor. Segundo o curador, a exposição busca contextualizar a relação entre biologia e cultura. “Somos criadores de nosso próprio mundo.”

Brasileiros reverenciam Tunga

Uma feliz coincidência faz com que, nesta edição da Bienal de São Paulo, o escultor Tunga, morto em 2016, seja homenageado. Os dois artistas-curadores brasileiros, Sofia Borges e Waltercio Caldas, escolheram obras do artista para suas mostras especiais no evento.

Ocupando o espaço expositivo do primeiro andar, o núcleo de Sofia faz um percurso quase labiríntico, entre paredes de concreto e de tecidos, e utiliza várias esculturas de Tunga, além de outros artistas contemporâneos e seus próprios trabalhos. “Além de homenagem, é simplesmente a presença de obras magníficas que norteou e deu estrutura conceitual e formal para o que foi desenvolvido”, diz.

Numa edição de Bienal sem tema, a curadora quis também evitar, em seu núcleo, a definição de um assunto. Para A Infinita História das Coisas ou o Fim da Tragédia do Um, ela optou por criar uma ideia inspirada pelo conceito de tragédia. “Não tem a ver com teatro, narrativa, temática ou drama. É uma tragédia de compreensão filosófica”, explica. “Trabalhei com mitos e a própria ideia da mitologia.”

A seção de Sofia Borges conta ainda com trabalhos de nomes como Ana Prat, Bruno Dunley, Jennifer Tee, Leda Catunda, Martín Gusinde, Rafael Carneiro, Sônia Catarina Agostinho Nascimento e Tal Isaac Hadad. Ao longo dos três meses de Bienal, está prevista para o núcleo da curadora uma série de atividades ativadoras. “Pretendo que a exposição seja um estado de prática artística, e não um passo inerte.”

Já na seção de Waltercio Caldas, no terceiro andar, além de uma homenagem a Tunga, com uma obra do escultor, o curador faz um tributo imprevisto a Antonio Dias. Morto em agosto, o artista já estava na lista de Caldas. “São artistas fundamentais, desbravadores e com poéticas muito densas”, ele afirma.

Em sua seção, intitulada Os Aparecimentos, Caldas quis trabalhar um confronto existente em obras de alguns artistas – produções que desviam do que mais se conhece de seus trabalhos. “Escolhi obras muito específicas. Os artistas têm fases e momentos diferentes em suas carreiras”, ele esclarece. “O que me interessou foi estabelecer uma relação tensa e harmoniosa entre os comportamentos das obras.”

Um bom exemplo é o escritor francês Victor Hugo, autor do clássico Os Miseráveis. Numa tentativa de produzir capas para os seus livros, ele deixou uma série de ilustrações. “São desenhos muito fortes e que beiram a abstração”, explica Caldas. “Vemos, então, um escritor avançando por uma nova área, em uma nova situação.” Nomes como Antonio Calderara, Cabelo, Miguel Rio Branco, Milton Dacosta e Vicente do Rego Monteiro completam o núcleo.

Audioguia da Bienal está disponível no Spotify

A Bienal de São Paulo tornou disponível no serviço Spotify o audioguia oficial do evento, que pode ser acessado pelo público em seus smartphones. O projeto é composto por vários áudios, que acompanham os visitantes nos três andares expositivos. Não são apenas explicações das obras, mas também depoimentos sobre os artistas. A filha de Lucia Nogueira, artista morta em 1998, por exemplo, fala sobre a mãe. Já o cantor Nando Reis destaca sua relação com a obra de Vânia Mignone.

Além disso, os artistas e curadores da edição fizeram playlists especiais na plataforma de música, que espelham os temas escolhidos para suas mostras dentro da Bienal deste ano. A sueca Mamma Andersson, por exemplo, escolheu canções de grandes nomes como Nick Drake, Nirvana e P.J. Harvey. Já a nigero-americana Wura-Natasha Ogunji elegeu canções de artistas como Björk e Al Green, além de trabalhos de músicos da Nigéria. Já Luiza Crosman foi de Martinho da Vila a Rihanna.

15 curiosidades sobre a história da Bienal

+ Em sua 1.ª edição, em 1951, a Bienal foi realizada pelo Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo na Esplanada do Trianon, na Avenida Paulista.

+ Na 2.ª edição, em 1953, a Bienal recebeu a obra Guernica (1937), de Pablo Picasso.

+ A 3.ª Bienal, em 1955, contou com obras dos mexicanos Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros.

+ A 4.ª edição, em 1957, foi a primeira no espaço hoje conhecido como Pavilhão da Bienal.

+ Em 1959, foram exibidas no evento 30 obras de Van Gogh. 

+ Na 6.ª Bienal, Lygia Clark apresentou sua série Bichos.

+ Em 1963, o evento foi realizado pela Fundação Bienal, que assumiu no lugar do MAM.

+ Em 1965, a 1.ª edição durante a ditadura militar pediu a revogação das prisões políticas.

+ Na 9.ª edição, com destaque para trabalhos de arte pop, uma obra de Cybèle Varela foi retirada por ser “antinacionalista”.

+ A 10.ª edição, após o AI-5, sofreu um boicote de cerca de 80% dos artistas. O evento seguinte também teve protestos. 

+ A 13.ª edição, em 1975, foi marcada pelo destaque aos vídeos.

+ A 16.ª edição contou com o fim dos boicotes.

+ Em 1996, a 23.ª edição quebrou o recorde de representações mundiais, com 75 países diferentes presentes no evento.

+ Já a edição seguinte, em 1998, bateu recorde de curadores: foram 76, na chamada “Bienal da Antropofagia”.

+ Na 30.ª edição, em 2012, os artistas Arthur Bispo do Rosário e Waldemar Cordeiro foram homenageados.

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